Editorial – O insustentável peso dos tucanos

Quando o PSDB nasceu, em 1988, se constituiu em uma novidade bem vinda para o cenário político brasileiro. Afinal, era quase uma tentativa de recuperação das bandeiras de lutas democráticas do antigo MDB, sua agremiação mãe, com figuras importantes como Franco Montoro, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e muitos outros. Um respiro de centro-esquerda no cenário nacional.

Em 1989, quando ficou fora do segundo turno das eleições presidenciais, o então candidato tucano Covas não titubeou em apoiar Lula na reta final. Mas seu partido hesitou. Como também balançou quando foi convidado a ingressar no governo Collor, com uma reunião de cúpula que terminou empatada, consolidando a imagem de quem vacila na hora de decidir, uma legenda “em cima do muro”, como se dizia à época.

Mas foi quando ingressou no governo do sucessor de Collor, Itamar Franco, que o PSDB sentiu o gosto do poder. Com o Plano Real, lançou o ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso à presidência, mas, para vencer, precisou se aliar ao PFL. O que hoje parece uma aliança natural, na ocasião causou espanto, com muitos repudiando uma coligação com uma sigla que encarnava tudo o que havia de mais atrasado no cenário político brasileiro.

A concessão, em nome primeiro da viabilidade eleitoral, e depois da governabilidade, desfigurou o PSDB, que migrou para a centro-direita. Com o sucesso eleitoral e sem uma marca poderosa que evitasse a entrada de políticos oportunistas, o partido inchou, se desnaturalizou, perdeu sua bandeira inicial da ética e passou a viver da polarização com o PT. Em São Paulo, capital e parte do estado, incorporou o discurso malufista e herdou seu eleitorado.

Hoje, os tucanos estão em uma encruzilhada. Virtualmente fora do segundo turno presidencial, podem perder parlamentares e também governos estaduais. Seu discurso e suas práticas são tão indiferenciados em relação ao que fazem outras legendas médias que o eleitor passa a tender a migrar para outras candidaturas. Sem identidade, a sigla pode se tornar coadjuvante com o crescimento do PSB, a consolidação da Rede Sustentabilidade e mesmo com o fortalecimento de outras siglas similares. Um destino cruel para quem já representou uma esperança de centro-esquerda no Brasil ou mesmo de oposição séria em nível federal. E um retrato fiel da fraqueza estrutural da grande maioria de nossos partidos.