Editorial – Um jogo mais transparente

Realizada a pouco mais de uma semana do primeiro turno das eleições presidenciais, a entrevista de Dilma Rousseff a blogueiros reafirmou alguns pontos que já vinham sendo tema de sua campanha nos últimos dias. Regulação econômica da mídia e reforma política, além de considerações sobre a política de encarceramento, considerada “cega” pela presidenta, estiveram entre as questões abordadas, e reiteraram uma inclinação mais à esquerda de sua agenda.

Na prática, um cenário similar já havia ocorrido em 2006, quando a campanha de Lula “emparedou” a de Alckmin no segundo turno, trazendo à tona a questão das privatizações feitas durante o governo FHC. Sem conseguir defender o “legado” de seu colega de partido, o presidenciável tucano se viu obrigado a protagonizar cenas curiosas, vestindo boné e agasalho estampados com marcas de empresas e bancos públicos.

Desta vez, o acirramento da campanha forçou esse processo de diferenciação já no primeiro turno. A entrada tardia de Marina Silva na disputa fez com que a candidata fosse cobrada sobre seu posicionamento em relação a diversos assuntos relativos à campanha presidencial. Contradições e brechas em suas propostas foram exploradas por seus adversários, e também deram oportunidade aos que participam da corrida presidencial para se diferenciarem dos demais.

Foi assim que Aécio reforçou seu discurso anti-petista, buscando retomar votos que migraram para a ex-senadora e batendo em pontos típicos da agenda conservadora, como a redução da maioridade penal. Marina também surfou na rejeição ao partido do qual fez parte até 2009, acenando para o mercado financeiro, mas tentando manter seu lado “nova política”. Além da defesa do seu governo, Dilma fez uma inflexão à esquerda, abordando alguns pontos que ficaram em segundo plano em seu primeiro mandato.

Ainda que haja ataques, alguns de baixo nível, em todas as principais campanhas e nas redes sociais, onde se travam as batalhas menos polidas, o contexto atual dá chances a todos de demarcarem seus campos, deixando o jogo mais transparente. Em vista das últimas disputas presidenciais, isso já é um avanço.