Direita, volver

Em São Paulo, vitória avassaladora de tucanos e eleição de parlamentares conservadores leva a uma reflexão sobre o papel do PT e da esquerda em geral no cenário político do estado

Por Anna Beatriz Anjos e Glauco Faria

As urnas de São Paulo revelaram algo que já era esperado. Mesmo com a crise hídrica, denúncias de corrupção e fraudes no sistema de transporte sobre trilhos, a violência policial escancarada nas manifestações de junho de 2013, entre outros pontos de avaliação negativa, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), conseguiu uma reeleição tranquila, obtendo 57,37% dos votos válidos. Paulo Skaf (PMDB), seu opositor no campo da centro-direita, foi o segundo colocado, com 21,53%, deixando, pela primeira vez desde 1994, o PT fora da segunda colocação.

Alexandre Padilha (PT) teve 18,22% dos votos válidos, pior desempenho do partido do estado nas últimas cinco eleições paulistas. Em discurso feito na reta final da apuração, reclamou dos institutos de pesquisa que lhe davam menos do que obteve nas urnas. No entanto, levando-se em conta essa lógica, o senador eleito José Serra (PSDB) tem mais a reclamar, afinal, sua vantagem sobre Eduardo Suplicy (PT) foi muito maior do que mostravam as sondagens: 58,49% dos válidos a 32,53%. Também Aécio Neves, que aparecia atrás de Dilma nos levantamentos até as vésperas da eleição, conquistou um terço de sua votação total no estado, deixando a presidenta bem atrás. O senador tucano obteve 44,22% dos votantes contra 25,82% da petista.

Na eleição parlamentar, o PT, que elegeu 16 deputados em 2010, conseguiu levar à Câmara Federal somente dez. Na assembleia legislativa, o baque também foi grande, com a legenda perdendo oito das 22 cadeiras que tinha na casa. A oposição a Alckmin na Alesp se reduziu de 29 para 20 deputados – os 14 petistas e mais dois de PCdoB, PSOL e PDT. Com base nesses dados, pode-se até concluir que foi uma eleição mais anti-petista do que resultado de uma adesão a candidaturas conservadoras no estado. Porém, há outros dados que mostram uma ascensão real do discurso de direita entre os paulistas.

Um desses fatores é o fortalecimento da chamada “bancada da bala”. Foram cinco deputados estaduais ligados à área de segurança pública, financiados pela indústria de armamentos e/ou com discurso de repressão policial como solução para problemas do setor.

Geraldo Alckmin deve ter vida fácil como governador de São Paulo nos próximos quatro anos. A oposição à sua gestão na Alesp, que já era numericamente reduzida, diminuiu (Foto: Antonio Cruz/ABr)
Geraldo Alckmin deve ter vida fácil como governador de São Paulo nos próximos quatro anos. A oposição à sua gestão na Alesp, que já era numericamente reduzida, diminuiu (Foto: Antonio Cruz/ABr)

O ex-policial militar Paulo Telhada, mais conhecido como Coronel Telhada (PSDB), foi o segundo deputado estadual mais votado, com 254.074 votos. Ex-comandante das Rotas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), grupo de elite da polícia paulista famoso por suas ações violentas, ele se orgulha de ter no currículo de policial a morte de 36 pessoas. Companheiro de Telhada na Câmara Municipal de São Paulo, Coronel Camilo (PSD), também foi eleito, assim como o coronel Edson Ferrarini (PTB), defensor da repressão e criminalização das drogas, e Antonio de Olim (PP), ex-delegado que comandou a Divisão Anti-Sequestro (DAS) e trabalhou no Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP). Além deles, completa o time o procurador de Justiça licenciado Fernando Capez (PSDB), líder em número de votos na disputa.

Entre os quinze deputados federais mais votados, nenhum é de qualquer partido considerado de esquerda ou centro-esquerda. Em 2010, havia quatro petistas, além do deputado do PSOL Ivan Valente e da pessebista Luiza Erundina. Agora, o primeiro representante do PT a aparecer entre os mais votados é o ex-presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, vigésimo na lista com 169.834 votos, cujo resultado se deve em parte a fatores não propriamente ideológicos. Erundina baixou sua votação de 214 mil para 177 mil votos (17ª entre os mais votados), algo que ocorreu também com Valente – de 189 mil votos em 2010, recebeu, este ano, quase 169 mil.

E se Tiririca (PR), em 2010, ajudou a eleger parlamentares como Protógenes Queiroz (PCdoB), agora, com a legenda concorrendo sozinha nas proporcionais, sua votação expressiva leva à Câmara dos Deputados o capitão Augusto, fundador do Partido Militar Brasileiro, legenda ainda não oficializada. O candidato, que obteve 46.905 votos, é um crítico do governo Dilma, que promove, de acordo com ele, a política do “pão e circo”, como declarou em matéria da Carta Capital. “Eu fico preocupado com o pão e circo. O pão é o Bolsa Família, uma política indiscriminada de compra de votos, e o circo é a Copa do Mundo”, avaliou. Eduardo Bolsonaro, filho do parlamentar fluminense Jair Bolsonaro (PSC), também conseguiu se eleger deputado federal em São Paulo, ajudado pela expressiva votação do pastor Marco Feliciano, que quase dobrou sua votação em relação a 2010, sendo o terceiro mais votado no estado com 398 mil votos.

Na análise do cientista político Aldo Fornazieri, diretor da Faculdade Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), o recuo conservador dos paulistanos pode ser explicado pelo atual período vivido não apenas pelo estado, mas pelo país como um todo, em que a recessão da economia, propagada pelos meios de comunicação, passou a ser reproduzida também pelos candidatos de oposição ao governo. “Normalmente, em momentos de crise, quando não há uma direção transformadora, a tendência é que a sociedade se recolha para o conservadorismo, isso é histórico. Como aqui não havia uma opção reformadora, a sociedade fez exatamente isso”, defende.

Em participação no programa #48horasDemocracia, transmitido pela TV Fórum no sábado e domingo, o secretário de Governo da prefeitura de São Paulo, Chico Macena, fez uma análise segundo a qual o cidadão paulista cobra das prefeituras e do governo federal uma solução para seus problemas, mas esquece da administração estadual. “Em São Paulo, parece que existe só prefeito e presidente. Governador não existe”, colocou.

As razões do triunfo tucano

Mesmo sofrendo ataques frontais do também conservador Paulo Skaf, em nenhuma pesquisa divulgada durante e antes do período eleitoral o governador Geraldo Alckmin deixou de vencer no primeiro turno. Na prática, o tucano começou a costurar sua vitória bem antes do pleito. Como lembra reportagem do jornal Valor Econômico, logo após as manifestações de junho, o peessedebista começou a se mexer, buscando apoios e promovendo ações principalmente em cidades pequenas. Assim, conseguiu apoio de 29 prefeitos do PR, partido que em tese apoiou Padilha, além de 29 prefeitos do PP, 36 do PSD e 17 do PDT, todas agremiações da base de Skaf.

Já na capital paulista, o efeito das manifestações teria sido outro para o governador. O tucano compreendeu a guinada à direita da maioria dos paulistanos em função do “discurso da ordem” inflado por veículos da mídia tradicional. Respondeu às manifestações com mais repressão. “Talvez os black blocs tenham aguçado a maquinaria conservadora da sociedade. Quando os viu, clamou por ordem. E o Alckmin percebeu muito bem isso”, avalia Aldo Fornazieri.

O modo com que o tucano reprimiu, por meio de sua polícia truculenta, os protestos que eclodiram em junho e se entenderam pelos meses seguintes não foi o único episódio a evidenciar sua “mão de ferro” ao lidar com movimentos e revoltas populares. “Com a forma com que o Alckmin enfrentou a greve do metrô, ele ganhou pontos. Foi uma forma dura, que implicou em demissões – depois a Justiça mandou readmitir”, lembra o cientista político. Isso, segundo o especialista, aumentou a identificação do eleitorado em relação a ele.

Para o professor de Ciência Polícia da Fundação Getúlio Vargas Francisco Fonseca, há uma combinação de fatores que justificam o triunfo tucano em terras bandeirantes. “A máquina do PSDB conta com os meios de reparte de recursos do governo do estado não constitucionais – os constitucionais são o fundo de participação de municípios e outros tantos, cujo repasse é obrigatório. Isso é importante sobretudo em um estado que tem 645 municípios, com grande parte deles tendo até 20 mil habitantes, e esse repasse é feito de forma arbitrária, sendo usado politicamente”, explica.

Mas há outros elementos que contribuiriam para o atual cenário. “Um segundo fator diz respeito à ascensão social, fruto dos governos Lula e Dilma, com valorização do salário-mínimo, expansão do emprego e crédito. Uma parte significativa dessa população é conservadora e acredita que ascendeu por razões unicamente meritocráticas. No estado de São Paulo isso é mais forte do que em outros lugares”, pondera Fonseca. “Existe ainda a blindagem da mídia em relação ao PSDB paulista e o aumento de gastos em publicidade do governo estadual é inversamente proporcional à queda no número de leitores de jornais e revistas.”

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Para o cientista política Aldo Fornazieri, o resultado conservador das eleições em São Paulo é também culpa da esquerda e do próprio PT, cujas candidaturas não partiram para o embate político com seus adversários tucanos (Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas)

Mas a conta do resultado das eleições em São Paulo teria também fatores que vão além da virada conservadora da população. Fornazieri considera que candidaturas de esquerda desempenharam mal o seu papel de oferecer uma alternativa ao que está estabelecido, mencionando em especial o caso de Alexandre Padilha. “Principalmente no começo, a campanha [de Padilha] foi extremamente burocrática. Deveria ter ido ao embate político com o governador sobre as questões fundamentais ao estado, e não foi. Perdeu a condição de candidatura polarizadora com o Alckmin, deixando que tal condição fosse assumida pelo Skaf”, avalia. Um exemplo disso é a posição assumida pelo petista em relação à segurança pública: em vez de fazer um contraponto forte ao adversário, adotou o discurso de que havia ido buscar soluções para os problemas de São Paulo em Nova Iorque, discurso similar ao do tucano, que defende o reforço da guerra às drogas.

Na campanha para o Senado, os petistas também ficaram na defensiva. Enquanto José Serra dizia que o estado recebia menos do governo federal do que enviava em impostos, numa espécie de discurso defensor do “dinheiro de São Paulo para os paulistas”, o contrapondo oferecido pela campanha de Suplicy não era de afrontar a lógica defendida pelo tucano, mas fundamentalmente dizer que o senador petista havia trazido recursos para o estado. No mais, qualidades pessoais do senador, como o fato de ele ser “do bem” (mote adotado também por Serra na disputa pela prefeitura de São Paulo em 2004), foram a aposta malsucedida para levar o parlamentar à reeleição.

“Houve erros de estratégia. De fato a campanha do Padilha foi muito moderada e o Suplicy insistiu em questões como honestidade. No caso dele, teve ainda a questão do cansaço, afinal eram três mandatos seguidos de oito anos, e paralelamente havia um contexto desfavorável para todas as candidaturas do PT”, analisa Francisco Fonseca. Nesse último aspecto, a imagem da legenda no estado foi determinante para sua baixa votação em todos os níveis, já que, mais do que o julgamento da Ação Penal 470, o chamado mensalão em 2012, as prisões efetuadas dos condenados em 2013 e sua exploração pela mídia podem ter tido um impacto grande para a população paulista, já que parte dos envolvidos tinha base no estado.

“O problema maior é a imagem que se construiu do PT em São Paulo”, assevera Aldo Fornazieri, referindo-se à vinculação da sigla com casos de corrupção. “Houve um colapso, e isso precisa ser revisto. O PT precisa passar por uma profunda reforma em São Paulo, mudar de postura, deixar de ser um partido de gabinete e se reaproximar dos movimentos sociais”, conclui.

(Crédito da foto de capa: Rafael Neddermeyer/Fotos Públicas)