Quando a família sai do armário

O Brasil é o país com maior número de crimes homotransfóbicos do mundo. Em meio a ameaças, agressões e tantos outros atos de discriminação, pais e mães entram na luta para garantir que seus filhos e filhas tenham direito a um mundo sem violência

Por Maíra Streit

O Brasil ainda amarga o título de país que mais mata homossexuais e transexuais no mundo. De acordo com relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), foram registrados 312 assassinatos de gays, travestis e lésbicas no Brasil em 2013. Isso significa uma morte a cada 28 horas. As estatísticas mostram também que foram cometidos em solo brasileiro 40% dos crimes homo-transfóbicos do planeta.

Nos Estados Unidos, país com 100 milhões a mais de habitantes, foram registrados 16 assassinatos de transexuais em 2013, enquanto no Brasil foram executados 108. Para o antropólogo Luiz Mott, coordenador da pesquisa, os casos ainda estão bem abaixo do que acontece na realidade. “A subnotificação destes crimes é notória, indicando que tais números representam apenas a ponta de um iceberg de violência e sangue, já que nosso banco de dados é construído a partir de notícias de jornal, internet e informações enviadas pelas ongs”, afirma.

O levantamento destaca que, no ano passado, a entidade teve conhecimento de pelo menos 10 suicídios cometidos por LGBTs. Segundo o grupo, o número não deixa de ser um indicativo da homofobia no país, já que a maioria opta por tirar a própria vida por não suportar a discriminação, muitas vezes vinda de dentro da família.

O presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Carlos Magno Fonseca, lembra que esse é um assunto importante a ser discutido. Ele afirma que a família é geralmente a primeira a expressar preconceito diante de uma orientação sexual ou identidade de gênero diferente da considerada padrão pela sociedade.

Para Fonseca, o sentimento de rejeição pode agravar ainda mais os problemas que já são enfrentados no dia a dia. Ele lembra que esse tipo de atitude faz com que homossexuais e transexuais acabem rompendo com os vínculos familiares, sendo, com frequência, expulsos ou agredidos pelos parentes. “Essa ruptura vem cercada de conflitos e um sofrimento muito forte”, lamenta.

Órfão de pai e mãe, ele conta que até hoje é evitado por alguns irmãos, que consideram a militância gay uma vergonha para os que estão à volta. “Isso marca a ignorância das pessoas que não entendem a homossexualidade. Em vez de lutar contra a homofobia, querem nos culpar. Eu preferi me afastar”, relata o presidente da ABGLT.

Mas, felizmente, esse é um cenário que parece estar mudando. Cada vez mais, pais e mães têm se esforçado para tirar seus filhos e filhas de um quadro de vulnerabilidade, isolamento e negação da própria identidade.

Esse é o caso da sexóloga Jacinta Fonte. Ela possui cinco filhos, dois homens e três mulheres. Desde muito pequeno, o comportamento de um deles, Paulo, chamou a atenção diante de todos os outros irmãos e não demorou muito para que surgissem os problemas na escola. “Os outros meninos empurravam e cuspiam, não queriam ficar no mesmo time. Ele tinha um trejeito e eu não sabia lidar com isso. Via os olhares das pessoas em todos os cantos, no shopping, na igreja. Eu ficava um pouco perdida”, relata a mãe.

Porém, o instinto de proteção falou mais alto e Jacinta resolveu que jamais deixaria o filho passar por qualquer tipo de humilhação novamente. Ela procurou entender o assunto, estudar, se formou em psicologia e montou um grupo para ajudar pais e mães a trocarem experiências. A ativista conta que já foi procurada por pessoas que queriam mudar a orientação sexual dos filhos, mas que, em geral, os participantes que estão ali buscam apoio mútuo para enfrentar a questão.

Um desses pais que se destacaram no grupo foi o Oswaldo Antônio Alves. Durante dois ou três anos, ele esteve ativo nas reuniões e encontrava nas falas dos colegas relatos parecidos com o que vivia em casa. Por amor ao filho mais velho, que é homossexual, passou a tentar compreender e dar todo o suporte necessário ao garoto. “Eu tinha uma desinformação muito grande, mas não era hipócrita. Ele queria brincar com objetos de menina e passei a dar uma atenção especial. Quando chegou a adolescência, seguiu o caminho dele”, conta.

Oswaldo disse que sempre encarou com naturalidade a homossexualidade do filho, mas sabe que nem todos têm a mesma visão. “Em famílias tradicionais da sociedade machista em que vivemos, isso seria uma vergonha”, observa. E, como todo pai coruja, logo desvia o assunto para falar das inúmeras qualidades e conquistas do filho, hoje com 36 anos, de quem afirma sentir um orgulho especial.

Patrícia Figueiredo, de 21 anos, é outro exemplo. Ela conta que, em casa, nunca precisou fazer grandes revelações sobre o fato de ser transexual e defende que a melhor forma de levar a situação é com a naturalidade da convivência porque, ao desmistificar o assunto, o debate se torna dispensável. “Na mentalidade da minha família, não havia a necessidade de aceitar uma característica inata minha. Isso sempre fez com que eu me sentisse parte, e nunca uma intrusa”, diz.

Na opinião de Patrícia, esse suporte é o que faz a diferença em um país em que muitas pessoas na mesma condição são expulsas de casa, abandonam a escola e acabam encontrando na prostituição o único caminho possível para a sobrevivência. “Acredito que o apoio familiar é primordial”, ressalta.

“Pais e mães de gays sofrem homofobia também”

Maju
Majú e seu filho André (Foto: Arquivo pessoal)


Ela é uma das representantes do grupo Mães pela Igualdade. Majú Giorgi, essa paulistana incansável, se tornou uma referência na luta pelos direitos LGBT no país. Desde que o filho André revelou a homossexualidade, aos 14 anos, Majú fez da causa um ideal de vida. Na entrevista a seguir, a ativista fala sobre a importância da família no processo de busca pelo fim do preconceito.

Fórum – Como começou o Mães pela Igualdade? Quantas pessoas participam hoje?

Majú – Há alguns anos, o deputado Jair Bolsonaro (PP/ RJ) disse que nenhum pai e nenhuma mãe tem orgulho de ter um filho gay. Aí, a All Out, uma ong internacional de direitos humanos, juntou os primeiros pais do Brasil nesse movimento político que se inspirou nas Mães de Maio, que cobram o Estado pela morte dos filhos. No nosso caso, cobramos a criminalização da homofobia na equiparação com o racismo e demais preconceitos já previstos em lei, a legalização do casamento igualitário, a lei João Nery, a celeridade e a transparência da Justiça em casos de homotransfobia, o nome social para travestis e transexuais dentre outras pautas. Eu não sei mais dizer quantos somos, porque nessa campanha crescemos imensamente e estamos com movimentos fortíssimos em SP, RJ, RS , PR, MG, BA, DF, PE e muitos outros estados.

Fórum – Quais as maiores dificuldades enfrentadas por pais e mães que têm filhos homossexuais e transexuais?

Majú – Pais e mães de gays sofrem homofobia também. A maioria das Mães pela Igualdade de cisgêneros (gays, lésbicas e bissexuais) teve que escolher entre o marido e o filho e cerca de 80% tiveram seus casamentos desfeitos. Quando se fala de transgeneridade, esse número sobe assustadoramente e bate bem pertinho dos 100%. O homem brasileiro é extremamente machista e o machismo é a base da homofobia. Quando não são machistas, muitas vezes não saem do armário com medo de perder os empregos, o que também é uma das nuances da homofobia. A homotransfobia é um rolo compressor que esmaga famílias a princípio amorosas e bem constituídas. Mas é bem mais fácil e confortável trancar o filho na infelicidade do armário que dar a cara para bater e fazer o enfrentamento e o debate lúcido com a sociedade. É essa linha de pensamento que tentamos mudar com nosso exemplo.

Fórum – E pode nos contar um pouco sobre a sua história? Como reagiu ao saber sobre a homossexualidade de seu filho André?

Majú – Então, eu sempre soube que o André era gay. Eu sempre tive esse feeling e verbalizei a primeira vez quando ele tinha cinco anos. Aí, eu tive dez para me preparar (risos). Mas, por mais que a gente se ache preparada, quando eles nos dizem, o chão abre debaixo dos pés, não por eles, mas pelo medo da homofobia, o temor pela integridade física e psicológica deles. Cada um reage de uma forma. Eu virei a superprotetora, queria colocar ele numa redoma, num lugar seguro onde a maldade e o ódio não alcançassem. Eu precisei de muita terapia para deixar ele voar.

Fórum – E, nesse contexto, o que diria a pais e mães que não aceitam a orientação sexual ou identidade de gênero de seus (suas) filhos(as)?

Majú – Eu diria que a antropologia, a psicologia, a psiquiatria, a pediatria, a genética e a OMS são unânimes: [a homossexualidade] é inerente ao ser humano. Seus filhos não podem ser condenados, sendo inocentes. Eles têm que ter direito ao afeto, à vida plena e ao caminho desobstruído para que possam buscar a felicidade. Afinal, é isso que todos fazemos aqui: buscamos a felicidade! Os direitos civis já são usurpados dos seus filhos por essa sociedade hipócrita, não seja você o primeiro a destilar sua homotransfobia em cima dele. A criança judia ou negra sofre preconceito e discriminação na rua, mas tem o colo de uma mãe judia ou negra em casa para chorar e se reconstruir. E a criança LGBT volta para o mesmo ambiente hostil, sem colo e sem carinho. É por isso que o índice de suicídio do LGBT é imenso. Acolha e proteja seu filho, vamos construir uma sociedade mais justa, humana e inclusiva, começando da base: a família!

(Crédito da foto de capa: Arquivo pessoal)