Nordeste e eleições, para além dos estereótipos

A discriminação contra nordestinos não é exclusiva de algumas pessoas que desenvolvem ideias preconceituosas, mas sim de um sistema estruturado na sociedade que, como o machismo, conta com a colaboração de toda a população para se manter dominante

Por Jarid Arraes

Na última semana, após os resultados do primeiro turno das eleições para a presidência do Brasil, uma onda de ódio contra nordestinos tomou força nas redes sociais. Motivado principalmente pelo alto número de eleitores que votaram em Dilma Rousseff (PT) na região Nordeste do país – cerca de 16,3 milhões de votos –, o discurso de ódio contra nordestinos foi manifestado por muitas pessoas; entre elas, integrantes de um grupo de mais de 100 mil médicos, uma auditora fiscal e centenas de usuários do Twitter e Facebook.

No grupo do Facebook intitulado “Dignidade Médica”, os profissionais pregaram ações “terroristas” na região Nordeste, sugerindo até mesmo que fosse realizado um “holocausto” como punição pelos votos direcionados à Dilma. A administradora do grupo, onde alguns membros defenderam a “castração química” dos nordestinos, chegou a falar em entrevista ao Portal IG que tudo não passava de um “desabafo”. Já a auditora fiscal Ingrid Berger publicou em sua conta no Facebook que o Nordestemerecia “uma bomba como em Nagasaki”, além de defender o voto censitário, ou seja, o direito de votar exclusivo aos que atendem a critérios econômicos abastados.

Entre diversos xingamentos e mensagens genocidas, a população nordestina se vê, mais uma vez, atacada em massa por pessoas de outras regiões do país, sobretudo do Sul e Sudeste. Situações similares já aconteceram antes, também envolvendo a vitória do Partido dos Trabalhadores nas urnas. Em um dos casos, no ano de 2010, tornou-se notória a estudante Mayara Petruso, que foi condenada a um ano e cinco meses de prisão por ter dito no Twitter que “nordestino não é gente” e pedido a morte de nordestinos por afogamento.

Votos em Dilma: mais do que um padrão

Apesar de envolver questões complexas que nem de longe estão limitadas ao contexto eleitoral, pelo menos nas duas eleições mais recentes já foi possível perceber que o fato do Nordeste ter preferência pela presidência do PT é uma das causas de grande revolta entre os preconceituosos. Os grupos que destilam ódio contra o povo nordestino parecem não compreender em que consiste a democracia e o direito ao voto – não entendem que os nordestinos também possuem interesses e querem ver suas demandas atendidas. Afinal, como quaisquer outros brasileiros, nordestinos também são cidadãos.

Ao contrário do que pensam os discriminadores, a população do Nordeste é plural e bem informada, sobretudo a respeito das questões que envolvem diretamente melhorias na sua qualidade de vida. Se é verdade que muitas pessoas humildes e sem ensino superior votam no PT para a presidência do Brasil, também é verdade que muitas pessoas graduadas, com mestrado e doutorado, além de profissionais das mais diversas categorias, também optam por essa alternativa.

Embora Dilma Rousseff já tenha conquistado a preferência de muitos nordestinos no primeiro turno, figurando como escolha prioritária, há também eleitores que mesmo com suas duras críticas e insatisfações quanto ao governo do PT também escolhem votar na candidata Dilma no segundo turno. Esse é o caso do servidor público Eder Araújo, de Juazeiro do Norte (CE). Graduado em Direito e eleitor de Luciana Genro (PSOL) no primeiro turno, o cearense passou por um verdadeiro processo de reflexão na hora de decidir seus votos. “Antes de conhecer mais detalhadamente as ideias de Luciana Genro, minha intenção de voto no primeiro turno estava dividida entre Marina e Dilma. Votaria em Marina por ser realmente desejável uma alternância no poder e por considerar um retrocesso a volta do PSDB à presidência. Porém, no fim das contas, acabaria optando por Dilma se não fosse Luciana Genro, tendo em vista um real avanço nos programas sociais ocorridos no governo petista”.

Para Araújo, Marina Silva se mostrou bastante conservadora, tanto no que diz respeito às políticas econômicas quanto nas questões de reconhecimento de direitos das minorias. Portanto, ele assume que sua escolha por Dilma está baseada na lógica do “menos pior” e evidencia que, embora PSDB e PT estejam envolvidos em escândalos de corrupção, considera o governo do PT “menos traumático” para as camadas mais pobres. Seu foco no segundo turno está nas políticas sociais possibilitadas por Lula e Dilma – algo que sempre argumenta ser um direito e não uma espécie de favor, como esbravejam os que se incomodam com medidas como o Bolsa Família e as Cotas Raciais nas universidades.

O analista de redes Paulo Henrique Nunes, de Recife (PE), segue uma práxis similar, já que também optou por Dilma para o segundo turno. “Optei em votar no Zé Maria (PSTU) no primeiro turno porque acho o candidato mais preparado e o PSTU apresenta-se como um partido idôneo, de políticas consistentes e ideais afiados”, diz. Nunes acredita no fortalecimento da luta, mesmo que o alcance seja pequeno nas grandes massas, e pensa que a união dos que pensam à esquerda é necessária e urgente. “A chegada do PT ao poder fez com que o partido criasse várias alianças espúrias. Ideologicamente o atual partido está muito longe do que era na década de 80. Não concordo com vários aspectos da política de governo petista, mas ainda é o que temos de mais próximo das classes desfavorecidas dentre os que tem reais chances de vitória”, afirma.

Apesar disso, Nunes não dá seu voto sem fortes alfinetadas e pontua que, assim como Eder Araújo, segue o raciocínio do “menos ruim” no segundo turno, acreditando que o PT, o PSDB e  o PSB são “dedos de uma mesma mão”. No entanto, para ele, o PT tem um histórico de melhores cuidados sociais e econômicos em relação ao país. “E o mais importante, a Dilma não tem nenhum caso que questione sua postura individual ou crime pessoal. Enquanto o Aécio tem casos de corrupção, desvio de verbas no governo mineiro, tentativa de censura na imprensa de Minas Gerais e também virtual – onde tentou processar o Google e solicitou judicialmente que o Twitter fornecesse dados de alguns usuários que estão contra o peessedebista – atuação parlamentar pífia e a denúncia de agressão física a uma mulher. Pra mim, essa última já basta para não escolhê-lo como presidente”.

Embora ambos entrevistados fujam do perfil construído por quem discrimina os nordestinos, é importante ressaltar que entre os eleitores de Dilma há diversidade e posicionamentos distintos. Afinal, ao contrário do que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou na última segunda-feira (6), ao sugerir que os nordestinos votam no PT por serem ignorantes, cada cidadão nordestino tem seu motivo individual e coletivo para votar, seja um voto no PT, no PSDB ou em partidos de esquerda que fazem oposição aos dois grandes polos da política nacional. O voto provém da informação, que não precisa ser acadêmica e elitizada para que seja válida.

O reconhecimento dos avanços gerados pelo governo petista, sob esse ponto de vista, é bastante pertinente. Quando questionado se os nordestinos são os mais beneficiados pelos programas sociais atuais, Araújo argumenta com bom humor. “Em tempos de tanta vergonha alheia nas redes sociais, onde todo mundo é especialista de tudo, fica ainda mais complexo responder uma pergunta como essa. Mas acredito que há sim certa correlação entre as políticas públicas do governo federal no Nordeste e a vantagem do partido nas eleições para presidente. Só que não acho que essas políticas públicas se reduzam apenas ao Bolsa Família”. Araújo nota ainda que as universidades federais passaram, ainda que timidamente, por um processo de interiorização, como foi o caso da Universidade Federal do Ceará, que depois de alguns anos no interior do estado, deu lugar a uma nova instituição: a Universidade Federal do Cariri, presente na região em que Araújo nasceu e reside. “E apesar de tanta obra parada, atrasada e dos escândalos de corrupção, é perceptível um razoável número de obras do governo federal no interior do Nordeste, como a transposição do rio São Francisco e a ferrovia Transnordestina”.

Paulo Henrique Nunes também explica que o PT é fortalecido no Nordeste porque, em comparação ao PSDB, foi o partido que ao chegar no poder voltou seu olhar para o povo nordestino genuinamente, ao invés de fazê-lo como uma simples medida emergencial para conquistar votos. “O PT passa a ser representante do povo a partir do momento em que Lula assume a presidência e começa a fazer repasses mais generosos que o PSDB e investimentos estratégicos na região. O crescimento industrial no período do PT é muito mais nítido para o nordestino do que em qualquer outro governo.” Nunes também reforça que a aproximação popular é um fator importante, ao ponto em que Aécio Neves passa a se interessar em ir pessoalmente a Pernambuco no segundo turno para tentar conseguir apoio do governador eleito, que é do PSB. “Em termo de popularidade, o tucano é visto como representante das elites financeiras”, conclui.

Vamos falar do preconceito contra nordestinos?

Muitas pessoas de todos os estados brasileiros se mobilizaram para denunciar postagens discriminatórias contra o Nordeste e sua população nessa última semana. No entanto, pouco se discute sobre a origem de todo o preconceito. Como qualquer outro tipo de discriminação, o ódio aos nordestinos tem causa e mecanismos pelos quais se perpetua e esses pontos precisam ser apontados, discutidos e desconstruídos para que haja transformação.

A discriminação contra nordestinos não é exclusiva de algumas pessoas que desenvolvem ideias preconceituosas, mas sim um sistema estruturado na sociedade que, assim como o machismo, conta com a colaboração de toda a população para se manter dominante. É por isso que o Brasil gira em torno do Sudeste: as produções culturais, políticas e intelectuais do nordeste são geralmente ignoradas ou menosprezadas. A maior parte dos eventos e oportunidades profissionais e acadêmicas se centralizam no Sudeste e a mídia volta o olhar exclusivamente para o eixo Rio-São Paulo, por exemplo. Os trabalhadores nordestinos sofrem com a invisibilidade e encontram extrema dificuldade para se inserir no contexto sudestino.

O sistema que consagra o Sudeste passa batido para muita gente, mesmo estando presente nos mais variados aspectos do cotidiano. Para os telespectadores sudestinos, parece perfeitamente natural a percepção de que o sotaque da televisão é o sotaque “neutro”, por exemplo. A exotificação do sotaque nordestino e da cultura sertaneja também é recorrente; por isso, as pessoas do Nordeste são tratadas sempre entre parâmetros de miséria e autopiedade ou são adjetivadas como preguiçosas, escandalosas e briguentas.

Além disso, o Nordeste também sofre com a generalização feita pela ótica sudestina, que ignora totalmente a diversidade cultural existente na região. Cada estado e sub-região tem música, culinária, sonoridades e expressões próprias, além da diversidade climática, manifestações artísticas e outros costumes sociais. São infinitos os fatores que formam a identidade de cada lugar. Não obstante, os sudestinos nem mesmo precisam parar para pensar a respeito dessa simples categorização, uma vez que dificilmente são agrupados como “sudestinos”, pois estão habituados a ver o nordeste como o “outro”. Uma mentalidade típica de todo modelo discriminatório que estabelece um padrão, seja ele branco, masculino ou heterossexual.

Por tudo isso, é preocupante constatar que figuras como Fernando Henrique Cardoso não sintam qualquer intimidação na hora de proferir generalizações discriminatórias contra um grupo tão vasto de pessoas, evidenciadas por terem em comum uma região do país de onde são originárias. Atitudes como essa são alarmantes, pois o preconceito contra nordestinos segue uma lógica fascista e genocida – algo que pode ter consequências trágicas se não combatido com veemência. Esse assunto, no entanto, parece só ser discutido quando uma grande onda de intolerância se levanta. No cotidiano, pouco se escuta falar sobre a imagem que o restante do país possui da pessoa nordestina. E sem que se levantem questionamentos, sem que análises das representações sociais que envolvem os nordestinos sejam feitas, não há como apontar o preconceito naturalizado nos valores da cultura brasileira.

“Acho que ninguém nasce preconceituoso e sim se torna preconceituoso. Depois de enraizado, o preconceito fica apenas esperando qualquer coisa que se pareça um motivo para se manifestar. Contra o nordestino não é diferente”, diz Eder Araújo. Na perspectiva do cearense, o fato de existirem explosões de ódio contra nordestinos em épocas específicas, como no caso das eleições, é uma evidência da discriminação latente. “Acho que momentos como esse são apenas desculpas encontradas pelos preconceituosos para regurgitar no mundo aquilo que cada um tem de pior dentro de si. Assim como o futebol pode ser motivo para atiçar o ódio racial e étnico existente dentro das pessoas, as eleições podem ser motivo para trazer a tona esse ódio preconceituoso contra o nordestino.”

As causas e mecanismos pelos quais esse preconceito se perpetua são variados. Araújo entende que esse preconceito decorre da convergência de vários fatores, mas acha que o principal é o estereótipo do nordestino ocupando subempregos no Sul. “O êxodo rural ocorrido no Nordeste, principalmente no século XX, não foi algo apenas ‘espontâneo’, e sim provocado, tendo em vista a necessidade de força de trabalho na construção civil e na indústria”, explica Araújo. “Satisfeitas essas necessidades sazonais, o trabalhador nordestino, incapaz de retornar a sua terra, foi reduzido a ocupar subempregos.” Além disso, ele também aponta o papel do entretenimento e da televisão na hora de propagar a imagem do nordestino como inferior. “Como sempre nos faz lembrar as novelas e os programas de ‘humor’, o papel da empregada e do porteiro sempre são reservados, com raríssimas exceções, ao nordestino”, destaca. De fato, essa é uma discussão levantada pelo Feminismo Intersecional, que aponta a discriminação racial e regional como aliada no objetivo de estabelecer a exclusão social. Empregadas domésticas fardadas, negras e com sotaque nordestino são imagens comuns na televisão brasileira.

Por essa perspectiva, também faz-se relevante a argumentação de Paulo Henrique Nunes, que chama atenção para as questões de classe – um dos recortes mais pertinentes nas lutas dos movimentos sociais de esquerda. “A classe média tem por excelência um tino para atacar classes menos favorecidas. Isso pode ser visto in loco quando um morador de Higienópolis discrimina e tenta manter afastado um morador de um subúrbio qualquer da mesma cidade.” Segundo Nunes, em escala macro, a classe média dos estados mais ricos tenta manter afastados os chamados ‘ladrões de empregos’ oriundos dos estados mais pobres do país.

No fim das contas, resta a necessária autorreflexão que todos os cidadãos brasileiros devem fazer, questionando suas próprias ações e verbalizações e buscando em seu cotidiano qualquer evidência de conteúdo discriminatório. O ódio contra nordestinos é tão real quanto a homofobia, o machismo ou o racismo e deve ser encarado com a devida urgência. Os movimentos sociais de esquerda, o movimento feminista e negro, a militância LGBT e a dos partidos políticos também precisam se atentar para essa crítica. O ódio contra o Nordeste é uma mazela social que mata: os neonazistas que espancam nordestinos pelas ruas são provas vivas desse fenômeno social. Enquanto as pessoas ditas politizadas esperam para protestar somente após os casos mais gritantes, as ideias discriminatórias continuam a fortalecer os valores preconceituosos do povo brasileiro.

Como solução, Nunes apresenta uma proposta que perpassa as questões das lutas de classes e da educação. “Os preconceitos e discriminações passam a ser contidos e quebrados quando há um maior equilíbrio social. Enquanto isso não for alcançado estaremos cotidianamente tendo que apagar incêndios e tratando emergencialmente caso a caso.” Além disso, Nunes adiciona que apesar de ser abordado com alguma recorrência, o assunto precisa ser encarado com outros olhares e vieses políticos. “Enquanto algumas pessoas acharem que nascer em determinado território geográfico traz mais ‘méritos’ que outro, o monstro da xenofobia será alimentado”, conclui o pernambucano.

(Crédito da foto de capa: Gustavo Penteado)