Editorial – Reprises de mau gosto

Muitas pessoas ficaram surpresas com algumas manifestações nas ruas pedindo intervenção militar e a derrubada do governo Dilma, assim como petições virtuais que chegaram a invocar o auxílio dos Estados Unidos para impedir a “expansão do bolivarianismo” no continente, por meio, obviamente, da queda da atual presidenta.

Mesmo antes das eleições, esse tipo de posicionamento já não era incomum nas redes sociais de uma forma geral. No entanto, quando esse grito começa a ganhar as ruas, nota-se que o comprometimento com algumas causas de cunho autoritário tornou-se mais forte. Claro que isso reflete também a ressaca do clima belicoso que marcou as eleições de 2014, em especial no segundo turno, mas também provoca uma série de reflexões sobre o atual estágio da nossa democracia.

Na Europa, diversos agrupamentos de extrema direita conseguiram relevância ou chegaram mesmo ao poder no período recente. Tendo como pano de fundo um cenário econômico desfavorável, com altas taxas de desemprego e poucas oportunidades à vista para boa parte da população, políticos passaram a adotar posições extremas, encontrando bodes expiatórios como migrantes e minorias para justificar medidas restritivas e xenófobas baseadas em preconceitos e na difusão do ódio como componente discursivo essencial no embate institucional.

Aqui no Brasil, ainda não temos uma situação econômica como a quase calamitosa de muitos países europeus, ainda que parte da mídia tradicional não canse de pintar com cores tétricas o cenário brasileiro, em consonância com o que já fazia a oposição no processo eleitoral. No entanto, outros elementos que facilitam a emergência de um discurso autoritário estão presentes e não atentar a isso é o tipo de ingenuidade ao qual aqueles que defendem a democracia não podem se dar ao luxo de ignorar.

Não é à toa que temas como a reforma política são obliterados na imprensa e pela classe política tradicional. Trata-se de preservar privilégios sim, mas também de não alterar ou tocar na questão da representatividade. É justamente por não se sentir representada que parte da população busca por vezes soluções supostamente fáceis que dão a volta nas vias democráticas. Isso, aliado à falta de preservação da memória e da impunidade de agentes da ditadura militar, cria o caldo do qual muitos se aproveitam para fazer valer seu ódio ou seu instinto autoritário.

O dissenso é base da discussão política, mas regras precisam ser respeitadas. O aperfeiçoamento da democracia, a despeito de apetites eleitorais ou oportunistas, deve continuar sendo prioridade. Ninguém gosta de reprises, ainda mais de filmes ruins.