Editorial – Empresa não vota, mas ajuda a eleger

Mais uma vez o Brasil se depara com investigações que apontam para um esquema de corrupção cujos indícios remontam a uma questão que ainda não é tratada com a devida atenção no debate público. Pelo que já foi apurado na Operação Lava-Jato, parte das empreiteiras envolvidas no episódio são as mesmas que costumam irrigar os cofres dos partidos políticos e que também aparecem em outras denúncias como a da formação do cartel metro-ferroviário em São Paulo, por exemplo. Mais uma vez, vem à tona a questão do financiamento eleitoral.

Alguns números assustam. Oito das nove empresas listadas na operação ajudaram a eleger 259 dos 513 deputados federais eleitos em outubro, ou seja, pouco mais da metade da próxima legislatura na Câmara Federal. Doações regularizadas não pressupõe automaticamente uma subordinação do parlamentar aos interesses do doador, mas cria uma aura de suspeita prejudicial ao Legislativo e à própria atividade política.

Empresa não vota, como diz o senso comum, mas ajuda a angariar votos. Com as campanhas cada vez mais caras, seja a qual cargo público a pessoa concorra, é o dinheiro de grandes empresas que pode fazer a diferença entre a vitória ou derrota de um candidato. E, além do dinheiro contabilizado, muitas vezes correm nos subterrâneos rios de recursos clandestinos que migram para partidos e candidaturas.

Muitos desses fluxos financeiros, aliás, já foram alvo de investigações em episódios anteriores. E todos assistimos a história se repetir como se o problema fosse de “vontade política” ou de honestidade individual, e não de uma estrutura que favorece e mesmo facilita a corrupção, ao permitir tamanha ingerência do poder econômico no processo de escolha do cidadão.

Cada dia mais o noticiário evidencia a urgência do debate sobre uma reforma política de fato, que enfrente as mazelas de um sistema que há muito abriu brechas ou buracos enormes pelos quais a força do dinheiro acaba solapando a democracia. Em jogo estão não apenas os interesses deste ou daquele grupo, mas da própria cidadania que não encontra o espaço necessário para se manifestar em sua plenitude. Adiar ainda mais as mudanças estruturais que o sistema político do país precisa é continuar aguardando os próximos escândalos, com atores distintos que seguem o mesmo roteiro.