Editorial – Os muitos lados de uma história e o legado que ela pode deixar

Na última edição da Fórum Semanal Digital, já havíamos abordado a questão dos desdobramentos da Operação Lava Jato e como eles apontavam para uma real necessidade de se fazer a reforma política já que, mais uma vez, o tema do financiamento das campanhas eleitorais vinha à baila em um episódio envolvendo relações obscuras entre o poder público e privado.

Voltamos à questão nesta edição, que será abordada também em nosso próximo número. O objetivo, com mais estas duas reportagens, é não apenas oferecer uma alternativa à narrativa da mídia tradicional a respeito do caso, como também abordar ângulos intocados pelo jornalismo que se pretende hegemônico. Muitas vezes fatos são omitidos ou relegados a um pé de página de jornal, e as peças soltas de um imenso quebra-cabeças mais confundem do que informam.

A Lava Jato pode deixar muitos legados, como os mencionados acima, relacionados à reforma política ou ao debate sobre o grande poder econômico de empresas e conglomerados. Mas também pode servir para se estabelecer um olhar voltado para a própria Justiça e seus procedimentos. Basta lembrar, por exemplo, que o doleiro Alberto Youssef, tido com um dos principais operadores financeiros do esquema, já figurou em outros episódios, como o caso Banestado, tendo sido beneficiado pela delação premiada. Livre de sanções, continuou a delinquir.

Muitas vezes mudanças procedimentais podem causar um impacto muito maior do que alterações na legislação, que em grande parte das ocasiões serve mais à pirotecnia do que à razão. O fato da Polícia Federal e do Ministério Público estarem colaborando de forma mais estreita nessa operação é um dos fatores que pode significar um avanço real, já que o desentendimento entre ambos já fez com que corruptos de alta patente fossem absolvidos ou mesmo deixassem de ir a julgamento. Essa é uma história que o Brasil sabe que não vale a pena ver de novo.

Foto: Emmanuelle Marchadour