Mulheres negras na literatura: de Carolina à Luma, questões raciais e de gênero

Luma de Lima Oliveira, poeta e educadora social, fala sobre o lugar da mulher negra na literatura brasileira e lista algumas autoras que todos deveriam conhecer

Por Jarid Arraes

O centenário de Carolina Maria de Jesus trouxe ao Brasil, principalmente na região Sudeste, diversos eventos, saraus e debates focando sua obra e vida. No entanto, a regra é diferente do destaque que veio timidamente este ano: no cotidiano, escritoras negras como Carolina são esquecidas e excluídas. E na maioria das vezes, o problema não está na qualidade de suas obras, mas sim no racismo e no machismo predominantes.

Luma de Lima Oliveira, poeta e educadora social, é uma feminista intersecional que fala sobre esse tema, remexendo o dedo na ferida exposta de nossa cultura. Pesquisando Carolina Maria de Jesus e trilhando um caminho rumo à Sociolinguística, Luma nos ensina sobre o lugar da mulher negra na literatura brasileira e lista algumas autoras que todos deveriam conhecer. A entrevista com a militante pode ser lida na íntegra abaixo:

Fórum – Este ano é comemorado o centenário de Carolina Maria de Jesus, uma das escritoras negras mais impactantes e também mais esquecidas do Brasil. Como você conheceu a obra de Carolina?

Luma de Lima Oliveira – Quando conheci Carolina Maria de Jesus, estava no início da adolescência, buscando representatividade. Sempre fui muito questionadora e primeiro despertei para a busca de mulheres na literatura; depois, quando me reconheci como mulher negra, fui atrás das escritoras, entre tantas esquecidas ali estava Carolina.

Fórum – Apesar do novo resgate das obras de Carolina, muita gente ainda desconhece seu trabalho. Ao que você atribui esse apagamento?

Oliveira – Bom, é uma pergunta com várias respostas possíveis. O fato é que Carolina Maria de Jesus foi a autora brasileira mais traduzida dos últimos tempos, seus livros foram traduzidos (sobretudo “Quarto de Despejo”) para 13 idiomas; isso mesmo, 13 IDIOMAS. Na década de 60, sua vendagem se equiparou a Jorge Amado, então fiquei me questionando: Por que ainda existe esta resistência em reconhecer Carolina? Quem são os reguladores do cânone literário? A questão é que fora do país sua obra continua sendo reeditada todos os anos. Um dos principais locais é nos Estados Unidos, onde por sua vez também publicam livros teóricos sobre a autora.

Vou elencar alguns motivos do apagamento de Carolina: primeiramente, temos na década de 60 um terreno fértil para a publicação de tal obra, sobretudo com a efervescência de vários movimentos; na literatura, a crítica social estava emergente Seu primeiro livro publicado foi “Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada” no ano de 1960; já em 1961 começaria seu declínio, muito por parte do mercado editorial, que exigia de Carolina uma postura e escrita as quais ela não correspondia e nem fazia questão. Tentaram influenciar sua escrita e ela não permitia, um exemplo é que como começara a ser recusada pelas editoras, foi seu livro “Provérbios de Carolina Maria de Jesus” o qual ela mesma teve que financiar a edição.

Outro ponto importante a ser destacado foi a ditadura civil-militar no Brasil, onde seus livros foram rapidamente recolhidos. O diário de Carolina representou um desvio no andamento da produção intelectual brasileira. Na época não era de interesse desta intelectualidade um relato como o da autora. Um dos fatores que permitiram o sucesso de “Quarto de despejo” seria o contexto em que foi publicado – da democracia e contracultura – com isso em cima de sua figura, foram colocadas várias expectativas, a figura de Carolina Maria de Jesus foi utilizada por muitos para que o argumento de “ascensão social” fosse reforçado. Interessante para o sistema vigente, que procurava pregar a possibilidade de ascensão, obviamente utilizando as exceções. Outro ponto de extrema importância para discutir o declínio da obra de Carolina Maria de Jesus seria a postura dos editores, que ficavam com medo por acharem seu livro passível de censura, assim não queriam editá-lo, pois não seria rentável de acordo com o contexto.

Além de todos os pontos que destaquei sucintamente, o principal é: Carolina Maria de Jesus não corresponde ao que seria abraçado pelo cânone literário e a sociedade brasileira daquela época e dos dias de hoje. Explicando melhor: era uma mulher negra, semialfabetizada, mãe solteira e moradora de periferia. Para a sociedade, era audácia demais que escrevesse, que soubesse ler e contasse sua história em primeira pessoa. Como pesquisadora de sua obra, posso falar com toda certeza que Carolina foi “interessante” para a sociedade hipócrita, sua figura foi celebrada de maneira pejorativa disfarçada de “boa intenção”; quando se cansaram de suas aparições e sucesso, logo foi descartada.

Fórum – Qual é a importância do reconhecimento de Carolina para as mulheres, sobretudo as mulheres negras?

Oliveira – São muitos pontos, mas o principal está na representatividade. É de extrema importância para nós conseguirmos olhar através do espelho, conseguirmos enxergar que há várias de nós fazendo literatura e questionando o cânone literário racista, sexista e classista. Conhecer Carolina para a minha vida foi conseguir enxergar que o valor da literatura é dado por nós e estava na hora de começarmos a prestigiar e falar em primeira pessoa. Toda vez que dou alguma aula ou palestra falando sobre ela, coloco diversos questionamentos e pergunto às pessoas: “vocês a conheciam?”. A maioria diz que não e dali começamos a levantar o motivo do silenciamento das mulheres negras no campo literário.

Reconhecer Carolina Maria de Jesus tem uma importância enorme para nós como mulheres e militantes, mas é uma dor de cabeça para a academia e cânone literário brasileiro, que não mudou nada daquela época pra cá.

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“Reconhecer Carolina Maria de Jesus tem uma importância enorme para nós como mulheres e militantes”

Fórum – É possível mencionar outras escritoras negras que passaram ou passam pelas mesmas situações que Carolina e suas obras? Como por exemplo, estereótipos, exotificação ou esquecimento.

Oliveira – Sem sombra de dúvidas. Temos muitas escritoras negras ativas no seu processo de escrita, contudo só quem está inserido no meio literário e em alguns movimentos sociais as conhecem. Se citarmos os nomes delas nas escolas ou procurarmos nos livros didáticos, não acharemos nenhum livro ou citação. Embora estejam escrevendo há tempos, ainda não fazem parte do rol de escritores que estão em evidência.

Posso citar algumas: Cidinha da Silva, grande escritora que procuro nos livros didáticos e não encontro; Esmeralda Ribeiro, Cristiane Sobral, Maria Firmina dos Reis, Auta de Souza, Conceição Evaristo, Lia Vieira, entre tantas outras. Da lista que mencionei, são poetas, romancistas. A própria Carolina Maria de Jesus era compositora, poetisa, romancista, enfim. Todas que que citei e as que não couberam aqui permanecem no esquecimento para a sociedade como um todo. No que concerne os estereótipos, todas as escritoras negras são permeadas por eles e pela exotificação, vistas como algo “estranho” e vítimas muitas vezes de um “não lugar” no campo literário.

Fórum – Como acadêmica de Letras, qual é sua avaliação sobre a abordagem da academia quanto as escritoras negras? 

Oliveira – Bom, eu adoro responder essa pergunta, ela é sempre válida e bem vinda para nós que estamos inseridas na batalha dentro da academia. O fato é que sempre quis pesquisar mulheres negras dentro da área de Letras. Comecei querendo estudar algumas poetisas e recebi vários “nãos” (foram as respostas mais educadas), entre outros argumentos de que minha pesquisa seria inviável. Esperei mais um tempo e entrei em contato com a sociolinguística, que me permitiu unir minha militância externa à acadêmica: estudar literatura, linguística e sociedade. E desta vez eu recebi um “sim” cheio de afeto, confiança e muita força para seguir nesses caminhos sem mudar o rumo do que acredito.

Fórum – Você teve contato com escritoras negras nesse processo de graduação? 

Oliveira – Estou quase me formando e, até agora, nunca tive uma aula sobre escritoras negras. Estudei Machado de Assis, Cruz e Souza, mas todos tentando driblar o recorte racial, a literatura com início e fim nela mesma (pra mim essa abordagem não faz sentido). Estou tentando resgatar em minha mente e não, nunca ouvi falar em escritoras negras durante a graduação inteira. Esse assunto só está sendo discutido agora devido a esforços de professores (minoria) que acreditam na questão racial e de gênero dentro de nossa área. Aqui posso citar minha orientadora, que foi a única pessoa que acreditou e aceitou me orientar, que me dá força cotidiana, que briga com o departamento para pautar questões raciais.

Fórum – Você pretende aprofundar a pesquisa no tema? Já desenvolve trabalhos relacionados? 

Oliveira – Além do projeto de iniciação científica que estou desenvolvendo e acaba ano que vem, pretendo continuar estudando Carolina Maria de Jesus, já estou pensando e solidificando a ideia. Descobri que a minha praia é sociolinguística mesmo, trabalhando a literatura dentro dela a fim de compreender e demonstrar as questões sociais que a envolvem. Aprendi muito com a obra de Carolina e ainda a quero mais (re)conhecida; há um mundo de possibilidades dentro de sua obra não investigados. Minha intenção não é pesquisar por pesquisar e rechear o “lattes”, é divulgar a escritora, fomentar o interesse das pessoas por sua obra e questionar todo o racismo e machismo que estão por trás de seu esquecimento durante décadas. Hoje investigo as motivações sociolinguísticas de seus usos linguísticos, traçando uma panorama da época – de gênero, racial, de classe, entre outros. Se tudo der certo, ao me formar vou mergulhar em outra investigação que está quase amadurecendo em minha mente. Por fim, estudá-la pra mim é um ato político.

Fórum – É possível equiparar o machismo, que dificulta o reconhecimento das escritoras brancas, com as barreiras enfrentadas pelas escritoras negras? 

Oliveira – O machismo irá atingir todas as mulheres escritoras, isso é fato. Mas precisamos compreender que ele opera sobre cada grupo de mulheres de maneiras bem distintas, em relação às mulheres negras nem se fala.

Quando o assunto são escritoras brancas, temos um cenário literário que abriu certo espaço para elas escreverem. Foram vítimas de cobranças sobre sua literatura, sobretudo que deveriam escrever sobre assuntos que dizem respeito ao “feminino” – partindo de uma perspectiva machista, obviamente. Foram vítimas do machismo no mercado editorial e só as escritoras brancas com poder aquisitivo poderiam publicar livros. Embora o mercado editorial tenha sido cruel com essas autoras e até hoje não tenha mudado muita coisa, são as mulheres brancas que estão nos livros didáticos, na lista de livros mais vendidos, as mais traduzidas, as que tiveram espaço para publicar (destacando aqui que não com total liberdade). Já quando falamos das mulheres negras, elas nunca tiveram espaço no mercado editorial, tampouco aceitação, já que o fato de uma mulher negra escrever era uma “audácia” muito grande. Enquanto as mulheres brancas estavam escrevendo e publicando, as mulheres negras estavam sendo babás, trabalhadoras domésticas. Enquanto as mulheres brancas estavam autografando livros e sendo alfabetizadas, as mulheres negras estavam limpando o chão das escolas.

Fórum – O que mais pode ser identificado como diferenças e similaridades entre as duas situações?

Oliveira – O reconhecimento das escritoras brancas não é dos melhores, ainda hoje os homens dominam o cânone literário, dominam os lugares mais altos das academias e vendas de livros, independente do que escrevam, mas é impossível comparar os motivos em relação às mulheres negras. Todas são atingidas pelo machismo, algumas pela questão de classe, mas a questão racial é uma das principais que interferirá neste processo de “não lugar” como escritoras. As mulheres negras continuam até hoje com pouco ou nenhum reconhecimento. Carolina serve para ilustrar bem essa situação. Enquanto Clarice Lispector publicava seus livros, Carolina estava colhendo o sucesso de apenas um. Enquanto estudamos Clarice nas escolas e universidades, Carolina precisou de décadas para ser ao menos mencionada por alguns grupos e ainda segue esquecida e marginalizada.

Quando questionamos o lugar literário das mulheres, é preciso sempre ter em mente: “de quais mulheres estamos falando?”. Acredito que essa pergunta seja essencial para conseguirmos discutir criticamente os nossos lugares discursivos.

Fórum – É possível afirmar que os estereótipos raciais e de gênero que relacionam as mulheres negras com funções hipersexualizadas ou subalternas prejudicam a visibilidade e o sucesso das escritoras negras? 

Oliveira – Acredito que sim. Um bom exemplo para pautar essa questão e a literatura são as personagens destinadas às mulheres brancas e negras. Em relação às mulheres brancas, temos as casadas, ricas, finas entre outros adjetivos que lhes conferem. Sobre as mulheres negras temos as figuras maldosas, sensuais. Para mulheres brancas temos Luízas, pras mulheres negras temos Ritas.

Sobre os estereótipos raciais e de gênero, podemos retomar a citação sobre Carolina Maria de Jesus em sua biografia. Um dos motivos do seu esquecimento foi justamente ela não corresponder ao que esperavam dela, sendo descartada já em 1961 pela sociedade e mercado editorial. O fato é que as escritoras negras são massacradas por inúmeros processos, sendo eles: na questão racial, não podendo pender para diversos gêneros e temáticas, e quando abordam tal questão sempre são rotuladas como “panfletárias” como uma “não literatura”, haja vista que fazer da escrita uma ferramenta de luta é totalmente condenável pelo cânone literário.

Sobre a questão de gênero, somos diminuídas como mulheres, assim não podendo falar sobre especificidades ou questionar a história que por nós nunca foi contada, não podemos falar sobre nada que abale as paredes da “casa grande” e somos até mesmo questionada por outras escritoras. Sobre ser “subalterna”, se começamos a falar e escrever por nós mesmas, já não estamos correspondendo o que esperam de nós, sendo assim “adeus, pseudo-visibilidade”.

Colocando tudo num pacote, sendo mulheres negras e tendo nossa figura sob os estereótipos racistas e machistas: embora dominemos as linguagens, a estética, a vivência e todas as letras possíveis, ainda continuaremos sendo indesejáveis para o mercado editorial e para toda a sociedade. A nossa luta nos caminhos de (re)existência das letras ainda é longa para que consigamos ter reconhecimento. A representatividade entra aqui novamente, precisamos nos reconhecer, conhecer a história e obra dessas mulheres que seguem anônimas até hoje.

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“Para mim, a escrita tem que ser de dentro para fora, expor nossos gritos que por muito tempo permaneciam silenciados”

Fórum – Assim como Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo, muitas vezes a produção literária das mulheres negras reflete contextos de exclusão, pobreza, racismo, entre outras formas de discriminação. Na sua opinião, isso restringe as possibilidades para as escritoras negras ou demarca um território com maior propriedade de fala?

Oliveira – Acredito que escrever sobre a vivência de muitas de nós é um ato político. Para mim, a escrita tem que ser de dentro para fora, expor nossos gritos que por muito tempo permaneciam silenciados. A escrita para muitas de nós, mulheres negras, serve para resgatar as letras que nos foram tiradas e contar de fato nossas histórias e urgências, as dores mais internas. A escrita possibilita curas coletivas, daquelas que não conseguimos achar na farmácia.

Escrevemos em grande parte sobre temáticas bem comuns, a solidão, periferia, racismo, machismo, entre outras formas de discriminação. Foi por acreditar que a literatura tenha um poder transformador de protesto, grito. Afinal, o silêncio nunca nos protegeu. Acredito na liberdade que a nossa escrita deve ter, pois espera-se muito de nós como escritoras: de um lado, o mercado/sociedade que não nos quer escrevendo, do outro, os movimentos que esperam essa escrita. Temos que ser livres para escrevermos todos os gêneros e temáticas que sentirmos o corpo levar para o papel. Temos que ser livres para falarmos, pois para os demais escritores, nenhum rótulo foi determinado. Falar sobre nossas questões não nos restringe, mas sim nos expõe e mostra com propriedade sobre o que estamos falando. Por meio da mancha gráfica da nossa escrita estão histórias, mulheres e muitos caminhos percorridos por terra e folhas.

Temos que ser livres para escrevermos sobre tudo aquilo que nos chamar, incomodar ou simplesmente der vontade. Já regularam muito as vidas das mulheres negras em diversos campos, agora é a nossa vez de falar e escrever o que acharmos conveniente. Mas é fato que nossos lugares mais comuns de fala são a realidade que carregamos e essa escrita formou o nosso próprio cânone. Toda escrita da mulher negra é um ato político. Falar em primeira pessoa, independente da forma, linha ou verso, é a força que nos move.

Fórum – De que forma os leitores podem conhecer escritoras negras, sem que para isso precisem esperar pela divulgação da grande mídia? 

Oliveira – Uma das formas que mais contribuíram no meu processo de investigação e descoberta das escritoras negras foram os saraus e escritoras independentes. Esperar a história de Carolina e tantas outras serem transmitidas na TV aberta em horário “nobre” é como esperar o ônibus chegar aqui na periferia, ou seja… então o caminho é tentar se antenar nos saraus que acontecem por todos os cantos da cidade, sobretudo os periféricos.

Outra ponto bem importante, como militante também da educação, é a professora/professor ser um ponto de acesso para que os educandos conheçam essas escritoras. Sei que é complicado cobrar, haja vista que a formação não contribui para isso, estudo numa universidade pública e nunca ouvi falar nelas lá dentro, mas é importante que as pessoas inseridas em movimentos sociais, movimentos que visem a arte e divulgam essas escritoras, corram em busca de informações e contatos para que elas sejam reconhecidas.

Estava trabalhando com um livro didático e encontrei Carolina Maria de Jesus, Maya Angelou e várias outras autoras, fiquei feliz, mas sei que ainda é muito pouco. Com leis entrando em vigência, as áreas do conhecimento devem ensinar e falar sobre essas autoras, mas ainda há muito pouco trabalho. Particularmente falando, sempre que dou alguma aula tento colocar uma escritora negra, acredito que não posso ensinar o que está na cartilha, ensinar por ensinar, prefiro renunciar a missão. Nas minhas aulas, redes sociais, eventos que participo, vida acadêmica, sempre falo dessas mulheres negras esquecidas, lutar é preciso. Acredito que a divulgação “nós por nós” é que realmente fará algum efeito para o reconhecimento dessas escritoras. Essa divulgação é companheirismo de militância, objetivos comuns e curas coletivas que não compramos na farmácia, mas conseguimos ingerir ao folhear um livro.