Podemos: As origens do rolo compressor espanhol

Fundado no início do ano, o Podemos já elegeu cinco eurodeputados e lidera as pesquisas de intenção de voto para as eleições espanholas de 2015. Como surgiu e de onde vem a força deste fenômeno político?

Por Federico Araya e Lucas Villasenin, do Notas | Tradução por Anna Beatriz Anjos

Há menos de um ano de sua fundação, o Podemos se transformou na principal novidade política da Europa. Em uma Espanha marcada pela crise econômica e pelo descrédito generalizado em relação à forma tradicional de se fazer política, o partido gerou um verdadeiro terremoto. Qual é a história por trás deste fenômeno político?

O surgimento do partido e seu programa

No último dia 12 de janeiro, um portal espanhol de notícias publicou um manifesto de quatro páginas chamado Mover Ficha: convertir la indignación en cambio político (“Movimentar as peças: converter a indignação em mudança política”, em português), assinado por apenas 28 pessoas, entre intelectuais, jornalistas e ativistas. O documento foi idealizado pelo partido Izquierda Anticapitalista, de baixa representatividade na política tradicional espanhola, mas com relativo apoio entre os indignados do 15M.

A pouco tempo das eleições para o Parlamento Europeu, o manifesto apresentava a necessidade de “uma candidatura que representa a onda de indignação popular que varreu o mundo” e “que ofereça uma ameaça real ao regime bipartidarista do Partido Popular (PP) e do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE)”.

O documento trazia ainda um programa mínimo, uma declaração de intenções que, já avisavam os signatários, precisava ser aperfeiçoada. O importante de Mover Ficha… era a proposta de promover a batalha no plano político-institucional a partir de uma nova ferramenta.

Planejado para alguns dias depois daquele 12 de janeiro, o lançamento do Podemos coincide com o anúncio de que o cientista político e apresentador de TV Pablo Iglesias  que não havia assinado o manifesto  encabeçaria o movimento, tornando-se fundamental no desenvolvimento desta nova experiência.

Suas propostas iniciais se resumem à necessidade de iniciar um Processo Constituinte Democrático e na criação de ferramentas para impulsionar a participação popular; auditorar a dívida pública e privada para não pagar suas parcelas ilegítimas; recuperar o controle público dos setores estratégicos da economia e criar uma renda básica para todos os cidadãos a partir de uma reforma do sistema fiscal. Em relação à agenda internacional, o Podemos quer promover um referendo vinculante sobre a saída da Espanha da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), como também o abandono do Tratado de Livre Comércio entre os Estados Unidos e a União Européia.

“Vamos atrás deles”

O novo movimento político de participação popular surgiu com um pressuposto claro, do qual dependeria seu sucesso: utilizar como representantes públicos pessoas com projeção midiática. Pablo Iglesias é a principal delas.

Um dos eixos centrais de seus discurso é a denúncia em relação à existência de uma casta política, composta pelo PP e pelo PSOE, alheia aos interesses populares, oposta à criação de uma democracia participativa e intrinsecamente vinculada ao poder financeiro. Em sua mira, estão os consensos existentes entre ambos os partidos para levar a cabo receitas neoliberais (sustentadas sobre privatizações, ajustes de salário ou direitos sociais), assim como para fazer da política um caminho para o enriquecimento pessoal.

Qual é o objetivo principal do Podemos, desde seu nascimento? Em fevereiro, diante da Assembleia de Cidadãos de Valladolid, Pablo Iglesias o apresentou assim: “Se estamos de acordo no ponto fundamental  que somos governados por uma casta, que essa gente não serve, que é necessário fazer coisas diferentes, que as políticas de austeridade não servem, que se está cedendo soberania (…), se estamos de acordo com isso, vamos tirá-los, vamos atrás deles”.

Primeiros resultados de um objetivo ambicioso 

Desde sua aparição pública, começou a vertigem. O Podemos se dispôs, entre seus primeiros desafios, a somar o apoio de 50 mil pessoas em um mês, feito que alcançaria em apenas 24 horas. Menos de dois meses depois, já estava também inscrito como partido político habilitado para concorrer às eleições.

Em março, foram realizadas primárias abertas para escolher as candidaturas, nas quais votaram 33 mil pessoas. Em seguida, com uma campanha eleitoral desenhada minuciosamente, em que se gastaram somente 200 mil euros (arrecadados via crowdfunding), sua página no Facebook passou de 100 mil a 600 mil likes entre maio e junho, e o partido realizou diversos comícios massivos pelo país. O fôlego tomado pela agremiação liderada por Iglesias teve como resultado 1,25 milhão de votos nas urnas em maio, além de cinco eurodeputados eleitos.

Os 7,98% obtidos nas eleições para o Parlamento Europeu colocaram o Podemos como a quarta força política da Espanha. Desde então, os principais programas de televisão convocaram compulsivamente seus representantes, e os jornais tradicionais passaram a publicar inúmeros artigos e reportagens sobre o movimento.

Os partidos do establishment, PP e PSOE, quebraram o silêncio que impuseram para tentar reduzir a nova potência, suspenderam sua eterna guerra verbal e decidiram, por fim, redirecionar seus ataques. “Populistas”, “chavistas”, “castro-comunistas” e “pró-iranianos” são algumas das acusações que, com a ajuda da mídia, passaram a fazer os cada vez mais exaltados políticos do regime. O objetivo de se colocar no centro das atenções midiáticas começava a ser cumprido.

O Podemos conta atualmente com 260 mil integrantes registrados. Seus espaços de participação popular, os chamados “Círculos Podemos”, já ultrapassam os 500 e estão presentes não somente na Espanha, como também no Brasil, Estados Unidos, China, Argentina e outros 28 países. No último mês, mais de cem mil pessoas participaram da Assembleia Cidadã do movimento e votaram documentos ideológicos, políticos e organizacionais. Com mais de 95 mil votos, elegeram Pablo Iglesias como secretário geral.

Mas a melhor notícia de novembro para o Podemos chegou quando saíram as primeiras pesquisas eleitorais. O novo partido lidera as intenções de voto na Espanha pouco antes de 2015, ano em que ocorrerão as eleições municipais, regionais e gerais.

(Foto de capa: Reprodução/Facebook)