20 DE NOVEMBRO

Sem consciência: Trabalhadores negros estão acorrentados à baixos salários

Resultado da pesquisa Dieese aponta que o mercado de trabalho ainda é um espaço de reprodução da desigualdade racial.

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Sem consciência: Trabalhadores negros estão acorrentados à baixos salários
Marcha das Mulheres Negras no Rio de Janeiro. ânia Rêgo/Agência Brasil

Como ferramenta de reflexão para este feriado de 20 de Novembro, o  Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), divulgou uma pesquisa que aponta para as dificuldades enfrentadas pela população negra no mercado de trabalho. Os dados analisados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PnadC-IBGE) e referem-se ao 2º trimestre de 2023.

Especialistas em economia afirmam que o PIB deste ano deve fechar com alta de 3%, o que significa que os vários setores que mantêm o mercado estão bem e produzindo mais.  Este fato, porém, não implica automaticamente em um bem estar social e  apesar das boas projeções sobre a circulação do dinheiro no país, o mercado de trabalho ainda é espaço de reprodução da desigualdade racial. Tanto a inserção quanto às possibilidades de ascensão são desiguais para quem deseja  construir uma carreira sólida - o que prova que mesmo em circulação as mãos que balançam o mercado ainda são as brancas.

Alguns destaques:

  • Um em cada 48 trabalhadores negros ocupa função de gerência, enquanto entre os homens brancos, a proporção é de um para 18 trabalhadores.
  • Entre os desocupados, 65,1% são negros. A taxa de desocupação das mulheres negras é de 11,7% - mesmo percentual de um dos piores momentos enfrentados pelas pessoas brancas, no caso, a pandemia. A taxa de desocupação de pessoas brancas está em 6,3% no 2º trimestre de 2023.
  • Quase metade (46%) dos negros estava em trabalhos desprotegidos. Entre os não negros, essa proporção era de 34%.

Pedro Vieira, tem 25 anos, trabalha como repórter e é morador do bairro Jd. Ofélia, na zona Sul de São Paulo e conta que ser negro no mercado de jornalismo é muito dificil.  “Nós negros temos que provar que somos bons muito mais e muitas vezes acabamos não sendo escolhidos nas vagas de emprego”, conta.

A necessidade seja livre ou imposta de  “mostrar trabalho” é algo que atinge coletivamente os profissionais negros que estão em busca da estabilidade profissional e financeira.

“Eu sempre fui mais cobrado que meus colegas mesmo entregando um desempenho  melhor, além disso sempre que me impunha contra algo absurdo e sem sentido recebia punições. Cheguei até ser demitido por reclamar de um diretor que era branco, engraçado que meses depois ele foi demitido pelos argumentos que eu usei na reclamação”, finaliza.

A pesquisa revela ainda que o maior índice de discriminação está na primeira etapa da busca profissional e na transição para o primeiro emprego. Embora representem 56,1% da população em idade de trabalhar, os negros correspondem a mais da metade dos desocupados, 65,1%.

Thila de Moura é estudante de jornalismo e prestes a se formar revela o receio em disputar uma vaga em grandes veículos e revela que a defasagem no ensino é um fator importante em uma área que exige uma boa base de conhecimento sobre tudo, o que para ela, não pode ser alcançado sem uma formação de qualidade.

“Comecei um curso complementar de repórter de TV. Fiquei meio sem graça quando  cheguei na sala e só tinha pessoas brancas. Eu era a única negra da turma e me bateu o pensamento de não  pertencer àquele ambiente, e fora que eram jornalistas de universidades da elite, me senti intimidada” disse.

Enquanto estudantes como Thila enfrentam barreiras como a falta de reconhecimento, representatividade e equidade em espaços de poder como as universidades, o número de trabalhadoras em subempregos continua crescendo. Segundo o estudo, uma em cada seis (15,8%) mulheres negras ocupadas trabalha como empregada doméstica – uma das ocupações mais precarizadas em termos de direitos trabalhistas e reconhecimento. As trabalhadoras domésticas negras sem carteira recebem, em média, R$ 904 por mês – valor R$ 416 abaixo do salário mínimo em vigência

Apesar do recorte sobre as empregadas domésticas, a pesquisa revelou que independentemente do posto de trabalho ocupado, os profissionais negros ganham menos que profissionais brancos em todas as posições. em média, 39,2% menos.

Neste ano o Governo Federal implementou ações de equidade como a lei 14.611/2023, que garante a igualdade salarial entre homens e mulheres, a criação do Ministério da Igualdade Racial e alterou o Estatuto da Igualdade Racial para inserir informações sobre raça e etnia de trabalhadores nos registros administrativos de empregados dos setores público e privado.

“Infelizmente, o povo negro ainda sofre muita discriminação, sobretudo mulheres negras e ainda mais se tratando de mães Solo. Acredito que estamos caminhando para uma mudança real, muitas empresas estão empenhadas e trabalhando em ações que de fato viabilizam o protagonismo negro em cargos de liderança”, conta Silmara Santos, que possui vivências na área da publicidade e acompanha de perto as mudanças realizadas no mudanças neste mercado.

Nesta segunda-feira, o Governo Federal lança um pacote pela igualdade racial que conta com ações de titulação de territórios quilombolas, lançamento de programas nacionais e editais de fomento, a criação de grupos de trabalho interministerial, acordos de cooperação, entre outras ações para garantir a redução das disparidades sociais e econômicas que mantém o povo negro no fim da fila.

Apesar disso, os números mostram que mais da metade da população brasileira está acorrentada a uma realidade de baixos salários e condições exploratórias porque antes de tentar reparar historicamente os danos causados pelo racismo a sociedade precisa deixar de cometê-lo. 

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