JUSTIÇA CLIMÁTICA

Atingidos de 45 países unificam demanda por justiça climática e direitos na COP30

Movimentos sociais preparam carta que será entregue na Cúpula dos Povos durante conferência em Belém

Grupo de lideranças populares de 45 países durante travessia simbólica pelas águas da Baía do Guajará, em Belém.Créditos: Nívea Magno / MAB
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A mobilização histórica por justiça climática global em Belém ganhou força ainda maior nos dias que antecedem a abertura oficial da Cúpula dos Povos. A agenda incluiu uma série de vivências amazônicas, conectando representantes de centenas de organizações que estarão na Cúpula dos Povos, com suas realidades locais, em um processo de ambientação e troca que antecede a produção política da Carta que será entregue à Cúpula.

Essa imersão ressalta o entendimento central dos movimentos: a crise climática não é uma questão técnica, mas sim política e social. Conforme reiterou Eduardo Giesen Amtmann, porta-voz do Eixo 4 da Cúpula dos Povos e professor de Ecologia Política, em alinhamento com a postura das organizações:

"A crise climática não é um fenômeno natural, mas o resultado de um sistema que explora o planeta e concentra riqueza, o capitalismo extrativista. As temperaturas em média na superfície da Terra são as mais altas registradas na história por culpa deste sistema político e econômico. Por isso, rejeitamos veementemente as 'soluções capitalistas', como os mercados de carbono, e exigimos que a resposta seja focada no valor ético da vida e da natureza, e não em colocar preço sobre ela", afirmou Amtmann.

É neste espírito de urgência e rejeição a soluções falsas que o IV Encontro Internacional dos Atingidos por Barragens e Crise Climática, organizado pelo MAR (Movimento dos Atingidos pelas Renováveis) e o MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), tem mergulhando na consolidação de sua agenda para a Cúpula.

Articulação global para a construção da carta política

O quarto dia do encontro aconteceu nesta segunda-feira (10) com o objetivo claro de produzir a carta política que centralizará as demandas urgentes dos atingidos por barragens e pela crise climática.

Um momento de cultura e política ao som da banda Mistura Popular preparou o público para o Trabalho em Grupos sobre as Lutas de Resistência e Conquistas dos Atingidos. Em uma dinâmica pré-debate carregada de significado, representantes de todos os continentes trouxeram símbolos e objetos de suas lutas, tecendo um mapa vivo de identidades e resistência territorial.

A urgência do debate foi chancelada pela presença de Pedro Arrojo, Relator Especial da ONU para os Direitos Humanos à Água Potável e ao Saneamento. Arrojo, cuja atuação mais recente incluiu a apuração de violações no Peru (entre outros cenários de conflito hídrico e violação de direitos), ecoou a denúncia global feita pelo Movimento contra a sistemática exploração de rios e a violação de direitos humanos promovida por megaprojetos.

Condensando lutas e denúncias globais: a unanimidade das mazelas

O encontro seguiu com a condensação das experiências e lutas do movimento internacional. Representantes de diversos continentes – incluindo delegados da República Democrática do Congo, Tailândia, Palestina, Cuba, México e Indonésia – foram distribuídos em cinco grupos de trabalho para documentar e sistematizar as lutas e estratégias de resistência.

O debate nos grupos revelou unanimidade nas mazelas sofridas, centralizadas na privatização da água, na exploração de minérios e na construção de megaprojetos. Essa "hidro-necropolítica" tem resultados perversos e ironicamente contraditórios. Sobre esse aspecto, Ana Valdez, ativista mexicana atingida, ressalta que em seu país, o povo passa por “um processo de centrifugação de direitos”. Grandes corporações represam os rios que resultam às comunidades escassez hídrica e contaminação, quando não a morte. 

A mesma realidade foi relatada por Malee Hettarakun, da Indonésia, ao descrever a violência corporativa em seu território, enquanto Augustin Louis Lokorbo, da República Democrática do Congo, destacou a importância da troca:

"Nossos opressores atuam globalmente, e nós, os atingidos, temos que responder à altura. É apenas por meio dessa troca intercontinental de saberes e estratégias que podemos combater os mecanismos usados pelas empresas e pelos governos para violar nossos direitos." 

A sistematização dessas denúncias e experiências de luta é a base para a consolidação do Movimento Internacional e para a formulação da Carta que será apresentada na Cúpula dos Povos.

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