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21 de janeiro de 2020, 00h17

Abrimos as alas e estamos passando, por Sol Massari

"Amedrontar os espaços públicos conservadores é nosso papel. Para tanto, não podemos ser condizentes com candidaturas-laranjas, nem nos permitir ser usadas nesse jogo patriarcal, antidemocrático, de verdadeira trapaça eleitoral", diz a ativista

Foto: Luiz Macedo/Agência Câmara

Por Sol Massari*

Em 2020, teremos eleições para Prefeituras e Câmaras de Vereadores. Quantas mulheres serão candidatas? E dessas, quantas de fato têm projeto político e não apenas projeto para cumprir cotas dos partidos? Quantas mulheres serão pressionadas a deixarem suas campanhas para apoiar campanhas de homens que não nos representam? Precisamos debater sobre isso. Essa é uma pauta cara para nós.

Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que a cada dez candidatos para as eleições de 2018, apenas três eram mulheres. Essa proporção de 30,7% não evoluiu desde as últimas eleições presidenciais – em 2014, havia 31,1% de mulheres com candidaturas.

Dessa maneira, não é de se espantar que há duas propostas tramitando na Câmara dos Deputados, ambas tratando da cota de 30% para candidaturas de mulheres – Projetos de Lei (PL) 4130/2019 e 2996 do mesmo ano.

O que deveríamos pautar não é a cota, mas o porquê de aceitar essas cotas pré-estabelecidas pelo próprio patriarcado. Por que não podemos ter 50% mulheres e 50% homens? O simples fato de oferecerem menos vagas garantidas a mulheres já é indício do preconceito e da discriminação culturais prevalecentes. Por que essa tentativa de barrar a presença feminina na vida política?

O PL, além de reduzir a participação de mulheres candidatas, também demonstra querer a redução do financiamento das candidaturas. Em um ato no mínimo maquiavélico, o PL alterou o artigo 16-E, visando que mulheres recebam o valor proporcional ao número de candidatas – já que a tendência é de ser drasticamente menor – garantindo, assim, a desobrigação dos partidos de preencherem a chapa para candidaturas femininas.

O que tem causado incômodo nas diversas instâncias políticas e partidárias não é apenas o aumento do número de mulheres. O incômodo vem de quem quer causar a disrupção do status quo. Daquelas que não se importam de quebrar paradigmas com as próprias unhas. Daquelas que lutam por mudanças, alteram a agenda, rompem com o perfil de anos de quem faz a política, bem como lutam para que haja outra relação com a sociedade.

Sabemos que nem todas as candidatas eleitas representam os interesses de uma sociedade que clama por justiça, igualdade e direito – há mulheres que estão alinhadas com uma política machista de manutenção dos interesses do estabelecimento. No mundo político atual, se alguma mulher tiver que ser cortada nessa lógica nefasta, não serão as que mantêm a ordem patriarcal, mas as que trazem a força revolucionária ao mundo da política.

Para nós, mulheres, o jogo político é árduo. Nos foi negado por muito tempo participar da vida pública, tendo nosso lugar determinado pela sociedade, somente cabendo a nós cuidar da casa e dos filhos, sem ter voz ativa para decidir o rumo da vida em família. Mas agora, além de participarmos das decisões no seio familiar, também lutamos para decidir os rumos da sociedade. Se estivéssemos num jogo de xadrez, seríamos a rainha e, nesse tabuleiro, precisamos de mais aliadas para igualar o jogo.

Amedrontar os espaços públicos conservadores é nosso papel. Para tanto, não podemos ser condizentes com candidaturas-laranjas, nem nos permitir ser usadas nesse jogo patriarcal, antidemocrático, de verdadeira trapaça eleitoral. Manter-nos na política é um direito e uma necessidade democrática. Para isso, devemos caminhar para a paridade e sermos cada vez mais a força que denuncia a desigualdade e as injustiças, pois somos mulheres com sangue nas veias para conquistarmos maturidade do sistema político e ampliarmos nossos braços na representação das vozes do contraditório, além da reconexão entre o legislativo e as demandas sociais.

Até onde teremos que recuar para entendermos que já recuamos muito? Quantas mais mulheres teremos que abrir mão para homens, para que entendamos que já o fizemos demais? Em 1899, Chiquinha Gonzaga compôs a primeira marcha carnavalesca, “Oh, abre alas, que eu quero passar” e, apesar do sucesso reconhecido, a maestrina era julgada por comportar-se de maneira liberal demais para as mulheres de sua época. Entretanto, Chiquinha passou, e nós, assim como ela, devemos abrir alas e continuar passando.

*Sol Massari é mulher, assistente social, ativista pelos direitos humanos e militante na defesa dos direitos das mulheres.  

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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