Caso Henry não é isolado: mais de 100 mil crianças e adolescentes morreram após agressões nos últimos 10 anos

Levantamento feito pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) revela que, entre 2010 e 2020, 2 mil crianças com até 4 anos, como Henry, foram vítimas fatais de agressão física, o que representa cerca de 200 óbitos por ano

O Brasil segue chocado com os desdobramentos do caso Henry Borel. A criança de apenas de 4 anos foi encontrada morta na madrugada do dia 8 de março no apartamento em que morava com a mãe, a professora Monique Medeiros, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Ela e o namorado, o vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho (Solidariedade), levaram a criança ao hospital alegando que ele teria sofrido um acidente e que estava “desacordado e com os olhos revirados e sem respirar”.

As investigações apontam, no entanto, que Henry foi assassinado e, por isso, o casal foi preso. O inquérito aponta ainda que Dr. Jairinho agredia o enteado com chutes e golpes na cabeça e que Monique sabia disso pelo menos desde fevereiro. O casal também é suspeito de atrapalhar as investigações e de ameaçar testemunhas para combinar versões.

Apesar da morte do menino Henry ter chamado a atenção de toda a população brasileira, não se trata de um caso isolado. Levantamento feito pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgado nesta quarta-feira (14) aponta que, entre 2010 e agosto de 2020, 103.149 crianças e adolescentes entre o nascimento e 19 anos foram mortas após agressões físicas.

Os números foram retirados do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, que trata, em seu capítulo 10, de causas externas de morbidade e mortalidade.

Para se ter uma ideia de como o caso Henry se repete Brasil afora, no período analisado, foram registradas mortes de 2 mil crianças com até 4 anos, como o menino do Rio de Janeiro, após agressões físicas, o que representa cerca de 200 óbitos por ano.

“O caso do menino Henry não pode ser ignorado e deve ser apurado com todo o rigor que a lei exige. Tal barbárie deve alertar, ainda, para a existência de outras crianças e famílias que vivem dramas semelhantes, mas poucas chegam à mídia. O Brasil precisa estar preparado para, por meio da efetiva implementação das políticas de prevenção à violência na infância e na adolescência, garantir ações articuladas entre educação, saúde, segurança e assistência social”, afirma a presidente da SBP, Luciana Rodrigues Silva.

Pandemia e isolamento

Segundo especialistas da Sociedade Brasileira de Pediatria, o isolamento social, uma das principais medidas para conter a disseminação do coronavírus, pode ter contribuído para a alta incidência de violência contra crianças em casa.

“De maneira similar, trabalhos nacionais e internacionais destacam que, diante de um cenário de risco e vulnerabilidade social, o isolamento domiciliar expõe crianças e adolescentes a maiores conflitos e tensões e à piora da violência intrafamiliar, sem que tenham condições de denunciar esta violência ou ser ela percebida pelos outros meios que estaria frequentando, como a escola”, afirma Marco Gama, presidente do Departamento Científico de Segurança da SBP.

O especialista chama a atenção, no entanto, para o fato de que a violência doméstica contra crianças e adolescentes é um problema “crônico”, e não estritamente ligado à pandemia.

“As situações de violência doméstica que levam à morte crianças e adolescentes costumam ser casos crônicos, repetitivos, de violência progressiva, onde a vítima não recebeu a assistência e as medidas de proteção que deveriam ter sido tomadas para mantê-la viva, tanto dos outros familiares, como da sociedade e do Estado”, completa.

Confira a íntegra do levantamento da SBP aqui.

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Ivan Longo

Jornalista e repórter especial da Revista Fórum.