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11 de setembro de 2019, 17h19

Estudo revela pouca diversidade na tecnologia e iniciativa busca incluir mulheres negras no mercado

Dados da pesquisa Quem Coda o Brasil? mostra que em 21% das equipes de tecnologia do País, não há sequer uma mulher enquanto em 32,7% dos casos não há nenhuma pessoa negra. Para reverter o quadro, a PretaLab lançou ferramenta digital que une profissionais negras a empresas em busca de mão de obra qualificada.

Foto: Safira Moreira/Divulgação

Pouca diversidade e falta de representatividade da composição social do País nas equipes de tecnologia das empresas brasileiras. É o que revelou a pesquisa Quem Coda o Brasil? realizada pela PretaLab – iniciativa que estimula a diversidade no universo das tecnologias – em parceria com a ThoughtWorks, consultoria global de software, lançada em agosto no Rio de Janeiro com dados inéditos sobre diversidade na área de tecnologia.

Embora mais da metade da população do País seja formada por mulheres, sendo que 27% de todos os brasileiros são mulheres negras (IBGE), o mercado de tecnologia é formado predominantemente por homens (68,3%) e pessoas brancas (58,3%). Entre os entrevistados, 21% responderam que em suas equipes não há nenhuma mulher.

Enquanto 54% da população brasileira é formada por pessoas negras/pretas e pardas, somente 36,9% dos profissionais que responderam a pesquisa se declaram neste grupo enquanto 32,7% dos entrevistados disseram não ter nenhuma pessoa negra em sua equipe. O estudo revelou ainda que o perfil das pessoas que trabalham em tecnologia é bastante jovem – 77% dos entrevistados estão na faixa etária entre 18 e 34 anos – e concentrado nas capitais do País (65%).

“A discussão sobre a diversidade na tecnologia é um dos temas mais urgentes para os negócios. Nesse sentido, a pesquisa nos ajuda a entender nosso cenário e nortear discussões e iniciativas futuras”, comenta Juliana Oliveira, recrutadora da ThoughtWorks.

Quanto à condição socioeconômica das equipes de tecnologia, mais uma vez o perfil é diverso da média brasileira: mais de 60% apresenta renda mensal domiciliar a partir de 5 salários mínimos, ou seja, R$ 4.770,00 (valor em 2019). Em 69% das equipes, não há nenhuma pessoa com renda mensal domiciliar abaixo de 2 salários mínimos (equivalente à classe E).

No que diz respeito à formação destes profissionais, chama a atenção que em uma área com amplo campo para a formação autodidata (45% dos respondentes declaram ter tido este tipo de iniciação), 57% das pessoas tiveram formação em centros formais de ensino, sendo que 55,1% têm ensino superior.

No universo da tecnologia, os homens possuem maior índice de escolaridade em comparação às mulheres e pessoas brancas apresentam mais escolaridade que negras/pretas/pardas, amarelas e indígenas. Um dado que ilustra bem este abismo é o levantamento feito pelo Grupo de Estudos de Gênero da Escola Politécnica da USP (Poligen): em 120 anos, a escola – referência na área de exatas no País – formou apenas 10 mulheres negras.

Ao serem perguntados sobre a presença de pessoas com orientação sexual diferente de heterossexual em suas equipes, 50,4% das pessoas disseram não haver nenhuma em seu ambiente de trabalho.

No quesito inclusão de pessoas com deficiência, a situação está longe de ser diferente: em 85,4% dos casos, não há nenhuma pessoa nesta condição na equipe. E em 95,9% dos casos, não há sequer uma pessoa indígena nas equipes de trabalho em tecnologia.

A pesquisa completa pode ser acessada no link: www.pretalab.com/dados

Possibilidades do mercado e inclusão de mulheres negras

De acordo com a Associação Brasileira de Startups (Abstartups), o mercado de tecnologia no Brasil precisará de cerca de 420 mil profissionais até 2024. Isto em um País com 13 milhões de pessoas desempregadas, sendo 13,3% mulheres negras. Automação e robótica devem substituir algumas atividades humanas nos próximos anos e é previsto o surgimento de profissões novas, que ainda sequer existem.

De acordo com o report The Future of Jobs, do Fórum Econômico Mundial (2018), os profissionais mais procurados para os próximos anos serão desenvolvedores de softwares e aplicativos, especialistas em comércio eletrônico, profissionais de automação, machine learning, inteligência artificial, internet móvel, analista de dados, inovação, capacitação e treinamento.

Diante deste quadro, a PretaLab lançou uma ferramenta disponível no endereço www.pretalab.com/perfis que pretende unir profissionais negras e empresas interessadas em preencher vagas: em um ambiente digital, as profissionais cadastram seus currículos e apresentam suas habilidades e experiência em uma espécie de hub de perfis que pode ser consultado por empresas de tecnologia ou departamentos de informática de instituições, ONGs e setor privado.

Além de aumentar a empregabilidade destas mulheres, a ferramenta pretende que mais meninas e mulheres negras se aproximem destas áreas e que elas se conectem entre si para o desenvolvimento de projetos e troca de informações. A ideia é reverter o quadro de pouca diversidade na tecnologia brasileira, apostando que quanto mais diversas as equipes, mais trocas, insights, soluções e conexões são criadas – favorecendo assim a inovação e a produção criativa.

“Sabemos o quanto a tecnologia pode aumentar desigualdades e apostamos que mais diversidade na produção de tecnologia é um caminho para reverter isso”, avalia Silvana Bahia, diretora do Olabi e coordenadora da PretaLab. “Essa ferramenta inédita é um desdobramento de um trabalho iniciado em 2017 com a criação da PretaLab e uma forma de mostrar para o mercado de trabalho que sim, nós existimos!”, finaliza.

Sobre a pesquisa

O principal objetivo da pesquisa foi entender a relação percepção X realidade sobre diversidade nas equipes de trabalho em tecnologia do Brasil. Com a intenção de alcançar o público mais diverso possível, foi criado um questionário online, com uma pesquisa de natureza mista (qualitativa e quantitativa) e divulgação em rede por todo o país. Os dados foram coletados entre os meses de novembro de 2018 e março de 2019, somando um total de 693 respondentes válidos em 21 estados brasileiros, incluindo o DF.

Sobre a PretaLab

A PretaLab é uma iniciativa que reforça a necessidade e a pertinência de incluir mais mulheres negras na inovação e na tecnologia. O projeto é uma realização do Olabi, organização social cujo foco é trazer diversidade para esses setores, como forma de construir um país melhor.

Sobre a ThoughtWorks

A ThoughtWorks é uma consultoria global de software e uma comunidade de pessoas apaixonadas e guiadas por propósitos. A empresa tem como princípio pensar de maneira disruptiva para entregar tecnologia capaz de enfrentar os desafios mais difíceis de suas clientes, ao mesmo tempo em que busca revolucionar a indústria de TI e provocar uma mudança social positiva. Fundada há 25 anos, a ThoughtWorks se tornou uma empresa com mais de 6000 pessoas, incluíndo uma área de produtos que desenvolve ferramentas pioneiras para times de software. A ThoughtWorks tem 40 escritórios em 14 países: Alemanha, Austrália, Brasil, Canadá, Chile, China, Equador, Espanha, Estados Unidos, Índia, Itália, Reino Unido, Singapura e Tailândia.


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