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28 de setembro de 2018, 20h33

Isabela Del Monde: “Ter mulher na política é trazer um novo olhar sobre políticas públicas”

Em entrevista exclusiva para a Fórum, a advogada Isabela Del Monde, explica o trabalho feito pela Rede Feminista de Juristas e comenta a mobilização em torno da hashtag #EleNão

A Rede de Juristas é uma articulação com cerca de 200 juristas desde advogadas, estudantes de direito, pesquisadoras na área do direito, juízas, promotoras e defensoras, composta por mulheres cis, trans e homens trans. 

“Começamos a receber individualmente uma demanda de mulheres vítimas de violência. Então, percebemos que unidas nós temos muito mais potência, unidas, organizadas e articuladas. Hoje, a rede de juristas atende mulheres vítimas de violência, que podem entrar em contato via Facebook ou e-mail que nós recebemos o caso, damos as primeiras orientações e encaminhamos os casos para advogadas que possam atender. Todo atendimento feito pela rede é gratuito, não tem nenhum custo, e claramente estamos cobrindo uma lacuna do poder público que não tem esse atendimento, porque além do atendimento jurídico, essas mulheres precisam de empatia e de compreensão, compreensão de que elas não são responsáveis pelas violências que sofreram. Tudo junto com parcerias com psicólogas e psiquiatras para fazermos esse trabalho de acolhimento”, explica Isabela. 

A rede também faz um trabalho junto ao poder legislativo de criação e implementação de leis para garantir e expandir os direitos da população vulnerável, como por exemplo a implementação de placas em ônibus da cidade de São Paulo informando que mulheres e idosos podem descer fora do ponto de ônibus das 22h00 às 05h00 da manhã, que já era lei em São Paulo, mas os motoristas não cumpriam por desconhecer a lei. 

A Rede Feminista trabalha junto com mídias para expandir e democratizar o acesso aos direitos pelas mulheres, LGBTS e por demais grupos vulnerabilizados e minorizados na sociedade brasileira, sem vínculo algum com qualquer partido político. 

Confira a entrevista completa:

Fórum-  Qual é a expectativa com a #EleNão e o que isso representa?

Isabela- Acredito que essa movimentação é fruto de toda a emergência feminista que a gente tem visto nos últimos anos,não só no Brasil, mas em vários países do mundo. Também é fruto da maior mobilização e participação política das mulheres. A gente ainda tem uma subida de representatividade das mulheres nos órgãos legislativos, seja em esfera municipal, estadual, federal. É algo que a gente tenta combater há bastante tempo e queremos combater mais ainda nas eleições, como por exemplo a determinação de 30% do fundo partidário de candidaturas de mulheres, o  combate a candidaturas laranjas, que também é bastante comum. Essa mobilização é fruto da emergência feminista e também a maior preocupação das mulheres de ocuparem um espaço público de maneira ativa, de maneira emancipada, com suas próprias agendas, das suas próprias bandeiras, independentemente de seguir ou não a instrução do seu companheiro, do seu partido. Então, sem dúvida alguma eu vejo com muito bons olhos e vou estar no dia 29 de setembro no Ato em São Paulo junto com a rede feminista de juristas atuantes no campo progressista.

Fórum- As mulheres são maioria na sociedade brasileira. No entanto, são sub-representadas nos cargos eletivos. Como você vê essa questão e o avanço desse pensamento misógino, machista, representado pelo Bolsonaro?

Isabela-  Nós temos Marielle Franco como o maior exemplo da impossibilidade de permanência da mulher na política com a sua execução no Rio de Janeiro. Realmente é muito para uma mulher permanecer, o assédio moral e sexual que uma mulher sofre ocupando um cargo eletivo é altíssimo e a mulher, cada vez mais sozinha nessa situação, fica cada vez mais enfraquecido. Então, é muito importante ter mais mulheres e vários tipos de mulheres, mulheres brancas, negras, trans, toda a gama. Nós não somos um bloco único de pessoas, somos diversas entre nós. Temos que estar representadas tanto lá dentro como para dar voz às mulheres que estão nas ruas que compõem a população brasileira. A ausência de mulheres no legislativo e em cargos executivos é um reflexo do machismo estrutural, estruturante que norteia sociedade brasileira e de outros países do mundo. O que surpreende é a ausência de mulheres num país que tem mais mulheres eleitoras e compondo a política. Outro dado muito importante é que todos os países do mundo que têm mais mulheres na política, mais igualdade de gênero na política, são países com maiores índices de desenvolvimento humano, maior IDH. Ter mulher na política significa ter mais representatividade, significa que a população se vê ali representada, tendo suas pautas apresentadas, as mulheres são mais afeitas a pautas de saúde, educação, segurança, porque elas são diretamente afetadas. Além delas serem afetadas pela ausência de políticas públicas nessas áreas, seus filhos são diretamente afetados. Quando não tem vaga em creche é a mãe que precisa se organizar para ficar com o filho em casa ou para designar alguém para cuidar dele. Quando ela precisa sair para trabalhar, ou quando um filho sai e sofre uma violência policial, a mãe diretamente é a mais atingida. Então, ter mulher na política é trazer um novo olhar, uma nova epistemologia. A gente tem um olhar mais diverso sobre as coisas.

Fórum- O que mais pode ser feito para avançar no sentido de construir algo, além das mulheres na política?

Isabela- É muito importante a gente ter a percepção de quem são, e quem compõe um terço do eleitorado. São homens no geral brancos heterossexuais com ensino superior completo e renda salarial de 5 a 10 salários mínimos. Ou seja, são pessoas que não representam a realidade brasileira. É mportante a gente dar cor, orientação sexual, corpos a essas intenções de voto para entender o que esse momento representa. Como eu disse anteriormente, a gente vem de emergência feminista e com certeza isso é histórico, não é original desse momento que a gente está vivendo. Isso aconteceu em outros momentos e tem uma revanche, um contra-ataque do setor conservador que não admite que privilégios sejam questionadas, que não admite que direitos sejam conquistados, que não admite que avanços sejam feitos e que novas pessoas figurem como centrais no debate político, no debate legislativo, seja no Brasil ou em outro país do mundo. Essa emergência do Bolsonaro é um reflexo e é bom porque incomoda e a gente percebe que está incomodando porque está avançando. O que nós precisamos fazer é investir em políticas públicas, educacionais e debates de gêneros. Precisamos falar de gêneros, falar de estereótipos, precisamos de orientação de sexualidade nas escolas. Hoje, por exemplo, a maior parte dos estupros no Brasil acontece com meninas com menos de 13 anos que se recebessem orientação nas escolas seriam mais bem preparadas para identificar o que está acontecendo com elas. Então, precisamos combater uma estrutura patriarcal branca e masculina. 


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