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04 de outubro de 2019, 16h04

Francisco de Assis: Um antecipador da história, por Frei Sérgio Görgen

No dia da celebração de São Francisco de Assis, nesta sexta-feira (4), vale destacar que nosso tempo está conhecendo outro Francisco, com características semelhantes, inspirado na radicalidade do Evangelho e no exemplo do homônimo

Cena do filme "Irmão Sol, Irmã Lua" - Foto: Reprodução

Por Frei Sérgio Görgen*

Olhando com um pouco de atenção para a prática religiosa, social e política de Francisco de Assis e seu Movimento Sócio Histórico, de cunho religioso, de ampla repercussão social e política, datado na idade média, no século XIII, impressiona seu profetismo, sua não acomodação no lugar-comum e nos limites de seu tempo, sua capacidade impressionante de ser contracultural, com sabedoria e habilidade.

Na verdade, um antecipador do tempo histórico, quase um visionário, um homem do seu tempo, mas muito além de seu tempo. Um antecipador do futuro, não no sentido de um oráculo que prevê e se mantém alheio, mas de criador de energias e processos dinâmicos influenciadores e preparadores da construção de formas novas de viver, conviver, crer e organizar a sociedade.

Nem vou me ater ao que já é senso comum, antecipando em 800 anos as intuições que hoje movem a consciência ecológica em nível mundial, reconhecidas pelas pessoas comuns, pelos mais renomados cientistas e consagradas pelo Papa Francisco. O Papa dá ao título de sua Encíclica sobre a Casa Comum e a Ecologia Integral as primeiras palavras do poema emblemático de Francisco de Assis, “O Cântico das Criaturas, Louvado Sejas – Laudato Si”.

Refiro-me a outras três intuições e práticas concretas do Mestre de Assis: a Objeção de Consciência e o Movimento Pacifista, a Diplomacia para resolver conflitos bélicos e a Radicalização da Democracia.

O Movimento Pacifista e a Objeção de Consciência

Objeção de Consciência é o que alegam e fazem os pacifistas, quando, em nome de sua consciência, negam-se ao serviço militar e a participar de guerras. Muitos países europeus já instituíram leis estabelecendo o Serviço Civil obrigatório para objetores de consciência. Alguns países punem com prisão quem se nega ao serviço militar.

Pois bem. Quando o Movimento Franciscano primitivo ganhou densidade e Francisco passou a ser seguido por multidões de leigos – chegou a constituir uma Ordem Religiosa Leiga – o Santo de Assis exigia-lhes um voto: não portar armas. E aí, nos constantes e comuns recrutamentos de reis, príncipes, senhores feudais e papas para constituir seus exércitos, os leigos franciscanos recusavam em nome do voto prestado, do juramento feito à Ordem Franciscana.

Conta a história que gerou crise de falta de combatentes em algumas regiões da Europa. Foi um dos primeiros grandes movimentos pacifistas da história da humanidade e a objeção de consciência como um instrumento prático de recusa à guerra.

Só muito tempo depois na história, a Objeção de Consciência veio a ser adotada na sociedade por movimentos pacifistas, como forma de contestar a estupidez das guerras e da violência.

Diplomacia

Francisco de Assis foi à Quinta Cruzada, organização bélica destinada a retomar os chamados Lugares Santos do cristianismo, onde viveu e foi assassinado Jesus de Nazaré, controladas territorialmente pelos seguidores do profeta Maomé. Muitas vezes, em nome da fé cristã e da Igreja Católica, as cruzadas foram hordas saqueadoras de riquezas dos povos muçulmanos.

Francisco escandalizou-se com o mundanismo e a ambição que constatou na Quinta Cruzada, acampada e se preparando para entrar em guerra contra os muçulmanos entrincheirados na cidade de Damieta, no Egito. Pregou aos cruzados, contra a cruzada. Profetizou sua derrota. Foi desprezado e ridicularizado.

Então, ele e frei Simplício, que o acompanhava, cruzaram a linha divisória entre os dois exércitos prontos para o combate e foi ao encontro dos muçulmanos na cidade de Damieta.

Lá Francisco conseguiu, após muitas peripécias, ser recebido pelo sultão Malik al Kamil, comandante do Exército do Islã.

Cada um tentou converter o outro, sem sucesso. Por fim, o sultão concedeu salvo conduto a Francisco e Simplício para adentrarem à Terra Santa e visitarem os Lugares Sagrados do cristianismo. E estendeu este salvo conduto a todos os que vestissem o hábito marron – veste dos frades franciscanos – a transitar livremente pelos lugares santos da fé cristã, sem serem importunados. E atribui-se ao sultão uma frase lapidar: “Se os cristãos fossem como você, não existiria guerra entre nós”.

A Quinta Cruzada foi fragorosamente derrotada e humilhada e, posteriormente, a Santa Sé confiou à Ordem Franciscana o cuidado dos Lugares Santos, graças à ação diplomática de São Francisco, que continuou a ser respeitada pelos sucessores do sultão de Damieta.

O tempo ensinou à humanidade a lição de Francisco e a diplomacia passou a ser adotada para evitar guerras, e como forma de solução de conflitos entre povos e nações.

Radicalidade democrática

Na tradição apostólica-conciliar, minoritária e contra hegemônica na história do cristianismo, chama a atenção a radicalidade franciscana na forma de organizar a vida entre seus partícipes. Na tradição da Igreja e da Vida Religiosa até então, em sua esmagadora maioria, o poder interno era exercido na forma monárquica e vitalícia. Além do bispo, o prior do mosteiro ou convento, uma vez escolhido, seu mandato era até a morte.

O grupo que se organiza ao redor de Francisco de Assis inaugura formas radicais de igualdade e democracia nas tomadas de decisão interna na organização religiosa em construção. “Todo poder aos Capítulos”, assim poderia se formular a experiência embrionária e profética da democracia franciscana. A própria expressão “Capítulo”, reunião de todos os frades para tomar decisões e escolher os mandatários, fez parte da revolução linguística inaugurada pela Ordem Franciscana.

Os mandatários passaram a ser chamados de “ministros”, os que “ministram”, servem, estão à disposição do coletivo; “guardiães”, que guardam, cuidam. “Prior, superior, chefe”, são expressões não questionadas, mas preteridas e não usadas. E o “Capítulo”, com origem etimológica em “cabeça”, é a Assembleia Geral na qual todos opinam, na qual as divergências se expressam, os conflitos latejam, pugna-se pela formação de laços fraternos, apesar dos conflitos e a decisão tomada coletivamente a todos obriga.

E até hoje, nas tradições franciscanas, ao entrar no Capítulo, “todos os cargos caem”, a assembleia é soberana, as funções têm prazo fixado e reeleições são limitadas.

Onde Francisco e seu grupo se inspiraram, em pleno século XIII, para criar este tipo de organização, embora interna, embrionária e profética, com tal radicalidade democrática, cercado por culturas e instituições baseadas em seu contrário, é para mim, embora com limitados conhecimentos em história franciscana, até hoje, um grande mistério. Tendo a acreditar na inspiração da experiência apostólico-conciliar dos primeiros cristãos.

Retorno ao Evangelho

A vida e a prática de Francisco de Assis e seu Movimento reprisam um sempre presente paradoxo do cristianismo: os que retornam com radicalidade ao Evangelho de Jesus, e ao compromisso com os pobres e humilhados, projetam o futuro e são projetados para frente e contribuem para construir caminhos novos e melhores para o conjunto da humanidade.

Nosso tempo está conhecendo outro Francisco, com características semelhantes, inspirado na radicalidade do Evangelho e no exemplo do homônimo de Assis.

*Frei Sérgio Görgen é frei franciscano, dirigente do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e Vila Campesina, além de autor de “Em prece com os Evangelhos”

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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