Homem é desclassificado de concurso para o Iphan por não conseguir “provar” que é negro

“Agora estou tendo que lutar contra o sistema: fui desclassificado de um concurso que fiquei em primeiro lugar na vaga reservada para pessoas negras”, disse

O piauiense Rodrigo Santos Cruz, 31 anos, foi classificado no concurso do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), realizado em 2018, mas foi desclassificado do sistema de cotas pelo Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos (Cebraspe) no teste de heteroidentificação.

Ele não conseguiu provar que é negro. Rodrigo prestou concurso para o cargo de analista, concorrendo por meio de cotas para candidatos pretos ou pardos, ficando em primeiro lugar conforme o resultado da classificação.

“Agora estou tendo que lutar contra o sistema: fui desclassificado de um concurso que fiquei em primeiro lugar na vaga reservada para pessoas negras”, disse Rodrigo, que postou um desabafo em suas redes sociais:

“Cá estou segurando uma placa nos idos de 2018 na frente de pessoas brancas em um teste de hetoroidentificação realizado pelo CEBRASPE/CESPE numa das etapas do concurso para provimento de cargos efetivos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional -IPHAN. Se estou aí é porque já fui classificado nas etapas anteriores. Desde então estou empenhado em provar minha situação. Você vive toda a sua infância e parte da juventude em uma família racista por que sua mãe parda casa com um homem preto e está rodeado de primos brancos, então é obrigado a ouvir aqueles velhos insultos carregados de deboche como “neguin” “macaco”, “pila preta”, vindos da própria família. Criança não tem muita noção disso, ainda mais eu que vim de um ambiente social bastante pobre em tudo: bens materiais e apoio emocional. Eu tive que ser alfabetizado embaixo de um pé de manga, pois a escola tinha poucas salas e era muita gente. A duras penas e com boa vontade de um e de outro, fui tentando não largar os estudos, sempre fui curioso, gostava e gosto muito de estudar. Em determinado momento fui tomando consciência de que eu fui e sou discriminado pelo fato de ser negro e vi que muitos são até hoje, inclusive são assassinados nesses tristes trópicos. A luta de uma pessoa pobre e negra nunca acaba, nunca mesmo. Tem que ter disposição física e mental, de outra forma você sucumbe. Agora estou tendo que lutar contra o sistema: fui desclassificado de um concurso que fiquei em primeiro lugar na vaga reservada para pessoas negras/pardas sem qualquer motivo, de uma forma completamente desproporcional. É absurdo e revoltante ter que ler uma sentença de um juiz que simplesmente julga “IMPROCEDENTE” meu apelo. Pessoas pobres e pretas serem injustiçadas permanentemente é isso: a sociedade se prontifica a compensar as desgraças trazidas pela escravidão, o Estado se propõe a aplicar a política pública gerada para isso, no entanto, o próprio Estado se traveste do mais perverso véu do racismo negando de uma maneira completamente absurda e arbitrária o ingresso de uma pessoa negra no serviço público.”

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Julinho Bittencourt

Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.