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23 de janeiro de 2020, 20h32

Médica relata a morte de um jovem negro em seu plantão

"Levou um tiro na cabeça enquanto entrava na casa da avó para visitá-la", relatou a médica sobre o caso de um jovem negro que chegou baleado no hospital e morreu em meio aos comentários preconceituosos de outros pacientes e profissionais de saúde

Foto: Camila Souza/GOVBA

A médica Roberta Lessa, @beruta no Twitter, fez uma sequência de tuítes no último domingo (19) relatando um caso que aconteceu durante um plantão no hospital que trabalha. Trazido pela Polícia Militar, um jovem negro de 20 anos tinha sido baleado e, além de ter que resistir à dor física, ainda enfrentou muitos comentários preconceituosos de pacientes e profissionais de saúde que o atenderam.

Confira:

“Estava eu de plantão na emergência quando entra, trazido pela polícia, um rapaz baleado na cabeça. 20 anos. Negro. Periférico. Vários piercings nas orelhas.

Começa o burburinho: “Se foi trazido pela polícia com ctz mereceu”; “Cara de pirangueiro”; “Esse povo nunca morre ?”.

Fazemos as primeiras medidas para tentar salvá-lo ao som do descaso e do preconceito de algumas pessoas da equipe ao fundo. Ele estava muito grave! Após atendimento inicial, chamamos os policiais que o trouxeram para coletar a história.

Acontece que o rapaz morava em outro bairro e tinha ido para a casa da mãe pegar um documento porque ia começar seu primeiro trabalho na segunda. Levou um tiro na cabeça enquanto entrava na casa da avó para visitá-la, confundido por um traficante com um cara da facção inimiga.

A família chamou a ambulância. Que nunca foi pegá-lo. Foi trazido ao hospital pelos policiais, que diziam: “Ele é inocente, doutora”. A mãe do lado de fora estava destruída.

Enquanto o rapaz lutava por sua curta vida, um colega médico e uma técnica de enfermagem teciam comentários: “Pai de família sempre morre, bandido nunca morre”; “Se fosse bandido, eu fazia justiça e deixava morrer”. Entre outras frases que não vale a pena repetir aqui.

Respondi apenas que fiz medicina pra ajudar pessoas. Independente de quem fosse. Se eu quisesse julgar, tinha feito direito e concurso pra juíza. Sai da sala com os risos de chacota dos colegas de trabalho em relação à minha postura. Pq é um ABSURDO uma médica pensar assim.

No fim, o rapaz infelizmente não resistiu.

Foi morto pela violência.

E não só pela violência física. Mas pela violência estrutural. Pela violência social. Pela violência racial. Seu único crime foi tentar viver sua vida.

Que descanse em paz”.

PS: Contatada pela reportagem da Fórum, a médica preferiu não localizar o hospital em que isso aconteceu para preservar os colegas.

 


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