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26 de Maio de 2017, 16h34

Na Cracolândia tem famílias, tem crianças…

TP, de 21 anos, teve sua moradia invadida por policiais no fatídico domingo (21). A jovem foi expulsa de casa pelos PMs com seu bebê de apenas três meses. Apesar da tentativa de resistência, ela não conseguiu ficar. Quando retornou à noite, só havia um colchão. “Nem meus documentos deixaram. Não sobrou nada”

Foto: Ivan Longo

Por Ivone Silva

“Ajuda, amor e carinho”. Um apelo de uma mulher forte, que superou o vício, deixando para trás também a prostituição, sensibilizou os participantes da audiência realizada, na quinta-feira, 25 de maio, pela Comissão Extraordinária Permanente de Direitos Humanos, Cidadania e Relações Internacionais da Câmara Municipal de São Paulo, coordenada por seu presidente, o vereador Eduardo Suplicy (PT).

Num grito de desespero, de quem realmente precisa ser ouvida, JC, moradora da Cracolândia, bem lembrou: “Lá moram famílias, mulheres e crianças. Não tem só traficante, não”. Ela reconheceu que conseguiu mudar de vida com o apoio do programa de Braços Abertos, implantado na administração de Fernando Haddad, e também com o respaldo religioso.

E são muitas história de vidas atravessadas pela truculência governamental e pela repressão policial, de homens de ternos e blusas de marcas, que querem a qualquer preço “limpar” a cidade (ou determinados espaços), atendendo a interesses meramente comerciais. Uma delas é a história de TP, que teve sua moradia invadida por policiais no fatídico domingo, 21. A jovem foi expulsa de casa, pelos PMs, com seu bebê de apenas três meses. Apesar da tentativa de resistência, ela não conseguiu ficar. Quando retornou à noite, só havia um colchão. “Nem meus documentos deixaram. Não sobrou nada”, desabafou.

O sentimento de quem participou da audiência – representantes do legislativo, do Ministério Público, de entidades do serviço social, da saúde e da psicologia, entre outros – era de indignação, de vergonha, de constrangimento diante da política higienista praticada pelos gestores municipal e estadual, que teve seu ápice quando mais de 500 policiais civis, militares e de operações especiais passaram feito um rolo compressor, expulsando a todos, sem qualquer possibilidade de pegarem seus pertences, sem qualquer respeito aos direitos humanos.

Para o vereador Toninho Vespoli (PSOL), a situação foi (é) desastrosa. “Tentaram justificar a ação com o argumento de que prenderam traficantes. Mas sabemos que os verdadeiros traficantes estão transportando mercadorias por meio de helicópteros – helicópteros que não têm donos, que ninguém sabe nada. Mas, parece que desvendar esses mistérios não é prioridade”. E não é mesmo, pois, ao que tudo indica, o ato (o transporte) foi praticados pelas tais ‘pessoas de bem’. Sempre a máxima do dois pesos, dois medidas.

“Há uma destruição das políticas públicas para os cidadãos”, disse a vereadora Juliana Cardoso (PT), vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, completando que há um projeto em comum nas esferas governamentais. Para ela, a mesma força que colocou o exército em Brasília para atacar manifestantes que pediam a saída de Michel Temer, também atacou a população da Cracolândia.

A estratégia de João Doria e Geraldo Alckmim de enfrentar à bala pessoas que já são desprovidas de praticamente tudo na vida e da internação compulsória para os usuários de drogas angariou críticas de segmentos importantes como os da Saúde e da Psicologia. “Estão promovendo uma verdadeira caçada humana”, disse Aristeu Bertelli, presidente do Conselho Regional de Psicologia. Bertelli alertou que o Conselho não admitirá qualquer tipo de intervenção compulsória, que desrespeite a individualidade das pessoas.

Da mesma maneira, Mauro Aranha, presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), mandou claro recado aos profissionais: “Médicos que fizerem internação em massa serão convocados pelo Cremesp”. Aranha criticou a internação compulsória, destacando que não cabe ao judiciário determiná-la. “O juiz deve ser orientado pelo médico, e não o contrário.”

Truculência médica

Outro médico, reconhecido por sua atuação na política de redução de danos, o psiquiatra Dartiu Xavier, destacou que o uso de drogas é consequência da situação de exclusão, nas quais pessoas são privadas de moradia, trabalho, educação, alimentação etc. Atuando há 28 anos com dependentes químicos, Xavier considera a internação compulsória uma “truculência médica” e garante que o sucesso desse tipo de intervenção é baixíssimo. Ele também alfinetou o poder militar: a polícia deveria ir atrás dos grandes traficantes, que vivem em seus amplos e confortáveis apartamentos”, concluiu.

E como diz a música da Legião Urbana – “se tua voz tivesse força igual a imensa dor que sente, seu grito acordaria não só a sua casa mas a vizinha inteira”. Sim. Maria, Joana, Das Dores… Sim José, Paulo, Antônio… Suas vozes estão sendo ouvidas por nós que temos na essência o respeito à vida. Continuaremos na luta incessante, na fé e no amor. Vocês não estão sozinhos.

 


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