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29 de setembro de 2019, 12h08

“Para as mulheres, sexo sempre foi trabalho”, diz Silvia Federici

Historiadora autora de “Calibã e a Bruxa” fala sobre como a caça às bruxas existe ainda hoje e é parte do sistema econômico que oprime as mulheres

Foto: Wiki Commons

Por Helena Bertho, para a Revista AzMina

O que é preciso para acabar com a opressão às mulheres? Para a historiadora Silvia Federici, precisamos de uma revolução. Depois de se dedicar à história das mulheres desde o feudalismo, ela concluiu que o controle do corpo feminino, por meio da violência, é uma das bases do capitalismo e que isso não vai acabar enquanto as relações econômicas seguirem as mesmas.

Nascida na Itália e hoje com residência nos Estados Unidos, onde é professora emérita da Universidade de Hofstra, em Nova Iorque, Silvia ajudou a fundar o Coletivo Feminista Internacional e participou do movimento por remuneração do trabalho doméstico na década de 70. Ela é autora do livro “Calibã e a Bruxa” (Editora Elefante), que já vendeu mais de 20 mil exemplares e está disponível para download online.

Silvia está no Brasil para o lançamento de dois livros: “O Ponto Zero da Revolução” (Editora Elefante) e “Mulheres e Caça às Bruxas” (Editora Boitempo). Em conversa com a Revista AzMina, Federici fala sobre história, como a caça às bruxas acontece hoje em dia, a apropriação do corpo feminino pelo sistema e sobre a possibilidade de resistência.

Lendo “Calibã e a Bruxa”, tive uma sensação de estar lendo uma nova história do mundo, muito diferente da que estudamos na escola. Porque o que você faz é uma releitura da história incluindo as mulheres. E isso me fez pensar: como podemos confiar na história que conhecemos? 

Silvia Federici: Quem tem o poder de transmitir a história? É um senso comum dizer que a história foi escrita pelos vencedores. E uma quantidade tremenda de documentação e a voz de populações inteiras foram sufocadas. Além disso, a escrita, que é o meio de comunicação, esteve nas mãos de pessoas com poder. Então, precisamos ser bem cautelosos com a história oficial. E com o que aprendemos na escola, porque o sistema de educação segue dando um ponto de vista particular. Eu fui para a escola e tive vários anos na universidade e, por muitos anos, não aprendi nada. Eu aprendi sobre o feudalismo, os reis, rainhas, batalhas e castelos. Mas nunca me ensinaram sobre as vidas dos servos, camponeses, artesãos. Foram os movimentos sociais dos anos 60 que permitiram falar da história a partir de baixo, a história dos camponeses, a organização do dia a dia, da reprodução. O mesmo foi com as mulheres, que estiveram ausentes da história até o movimento das mulheres.

Você diz em seu livro “Mulheres e Caça às Bruxas que há novas bruxas hoje. Quem são elas?

Silvia Federici: É importante dizer que nunca existiram bruxas. Elas são uma criação. Primeiro da Inquisição, depois dos magistrados e dos poderosos na Europa. Mas aquelas que são rotuladas como bruxas hoje são primeiramente as mulheres acusadas de bruxaria na África, América Latina e Índia. As “curandeiras” acusadas de curar com poderes sobrenaturais. Essa recriação da imagem da bruxa tem a ver também com a presença, em boa parte do mundo, das seitas fundamentalistas evangélicas. Eles falam de Satã e direcionam a energia das pessoas para longe do problema econômico e sua causa, focando na ideia de que na comunidade há pessoas malvadas. É conveniente que, no momento em que essas comunidades estão empobrecendo, elas direcionem a raiva para pessoas específicas. Há ainda uma outra caça às bruxas, mas essas não são chamadas de bruxas. São as mulheres que estão usando sua assertividade, buscando mais poder social, as feministas.

Você diz que a nova caça às bruxas está muito ligada à apropriação pelo capital dos espaços de abundância natural. Considerando que a Amazônia hoje é um dos principais palcos de enfrentamento em relação aos recursos naturais, você acha que as mulheres indígenas brasileiras estão em risco? 

Silvia: Claro. Estamos todos em risco por causa da queima da Amazônia. Ainda mais as mulheres indígenas. Essa é a terra delas, sua forma de sobrevivência, a fonte de subsistência. É sua cultura. Quando você perde a terra, a água, o contato com os animais, sua vida acabou. Não é que elas perdem apenas a terra, elas perdem todo um modo de viver, todo um mundo cultural e histórico. É uma tragédia.

Uma das grandes bandeiras que se vê no feminismo atual é a da inserção da mulher no mercado de trabalho e também pela igualdade salarial. Mas se você considera que o problema central do machismo é a posição da mulher dentro do capitalismo, acha que essa luta faz sentido? 

Silvia: Faz todo sentido. Não há razão para o mesmo tipo de trabalho ou um tipo comparável de trabalho receba diferente. Hoje a luta não é só por salários iguais, mas por salários iguais para trabalhos comparáveis. Mas essa luta não é suficiente. Primeiro, porque não há trabalho igual. Mulheres vão para casa e ainda têm que fazer o trabalho doméstico. Pode ser que alguns homens estejam dividindo, mas fundamentalmente as estatísticas mostram que as mulheres estão fazendo as bases do trabalho reprodutivo. Então a gente não pode lidar com a posição da mulher no trabalho fora de casa, se a gente não lida com a questão do trabalho reprodutivo. A situação da mulher não é a mesma do homem.

Veja entrevista completa no site da revista AzMina


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