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21 de janeiro de 2020, 11h14

Ponte Preta faz história com presidente negro, inédito entre os clubes tradicionais do futebol paulista

"No futebol, não somos notados além das quatro linhas", diz Sebastião Arcanjo, o Tiãozinho, que tem histórico de luta contra o racismo e assumiu o comando do clube campineiro, que também foi o primeiro a escalar um jogador negro, ainda no início do século XX

Sebastião Arcanjo, o Tiãozinho, presidente da Ponte Preta (Foto: reprodução)

Não é de hoje que a Ponte Preta, de Campinas (SP), é uma instituição pioneira em termos de inclusão racial no Brasil, mas agora escreveu mais um capítulo nessa história, ao ser um dos primeiros clubes, entre os tradicionais do país, a ver um negro chegar à presidência.

Se trata de Sebastião Arcanjo, um homem que aliás tem um histórico pessoal de luta política contra o racismo. Antes de assumir o clube, ele foi membro do Sindicato dos Eletricitários de Campinas e militante do PT da cidade por vários anos, chegando a ser vereador em Campinas e até deputado estadual, cargos pelo qual sempre se destacou por projetos sobre a luta contra o racismo e a homofobia e pela defesa dos serviços públicos, do meio ambiente e do direito à moradia.

Tiãozinho assumiu a Ponte Preta após a renúncia do antecessor, José Armando Abdalla, e é consciente da responsabilidade histórica que tem em suas mãos. “Em qualquer organização, nós, negros, estamos a quilômetros das tomadas de decisão. No futebol, não somos notados além das quatro linhas. Vivemos em um país que está acostumado a mandar em nós e não a receber nossas ordens, por isso tenho um grande desafio pela frente”, afirma o mandatário pontepretano.

E Tiãozinho está fazendo jus a essa oportunidade, tanto que já anunciou três novos componentes da sua diretoria executiva, com mais três pessoas negras, e uma mulher, o que também é algo raro de se ver nos clubes brasileiros. “Obviamente a inclusão foi um critério, porque ela é necessária e atual”, explica o presidente.

A Ponte Preta é o clube mais antigo de São Paulo ainda em atividade. Foi fundada em 1900, doze anos depois do fim da escravidão no Brasil. Também foi o primeiro clube do Brasil a contar com um negro em sua equipe de futebol, o atleta Miguel do Carmo, que fez parte do primeiro time pontepretano, daquele mesmo ano de 1900. Por essa razão, alguns torcedores defendem que a Ponte receba o título de “primeira democracia racial no esporte do Brasil”.

Antes de Tiãzinho, quem também fez história foi Roger Machado, um dos poucos técnicos negros que coleciona passagens por clubes grandes do futebol brasileiro, como Grêmio, Palmeiras e Bahia (onde está atualmente). Em outubro de 2019, a histórica partida entre entre Fluminense e Bahia , no Maracanã, pelo Campeonato Brasileiro, marcou o duelo de dos grandes dirigidos por técnicos negros – o tricolor carioca era comandado naquele então por Marcão Oliveira. A partida terminou com vitória do Flu por 2×0. Após o duelo, Machado afirmou que “nós vivemos um preconceito estrutural, institucionalizado. O preconceito que sofri não foi de injúria racial. O que sofro é quando vou a um restaurante e só tem eu de negro. Fiz uma faculdade onde era só eu era negro. As pessoas podem falar que não há racismo porque estou aqui e eu nego: há racismo porque só eu estou aqui”.

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