sábado, 31 out 2020
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Professor da Unip denunciado por racismo é filiado ao PSB

Enzo Fiorelli Vasques, coordenador-geral do curso de Relações Internacionais da Unip, chegou a ser candidato a vereador pelo PSB em 2012

O professor Enzo Fiorelli Vasques, coordenador-geral do curso de Relações Internacionais da Universidade Paulista — Unip, foi recentemente denunciado por ofender uma aluna em razão dela ser negra. Diante da omissão da universidade em apurar o ocorrido e, ainda, demitir dois professores citados como testemunhas, a questão veio à público em reportagem do site The Intercept Brasil. À época da veiculação da matéria, em 1º de outubro, nem o professor e nem a universidade deram posicionamento ao Intercept sobre a denúncia publicada.

Com a reportagem, o silêncio se tornou ainda maior por parte da instituição, mas outras vítimas surgiram, inclusive depondo publicamente em sessão extraordinária da  Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Vereadores de Campinas, interior de São Paulo, cidade onde reside Vasques. Um fato que agora vem à tona é que Vasques é filiado regular ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), legenda de figuras históricas da esquerda, como Miguel Arraes, e que também é o partido de Márcio França, ex-governador e candidato a prefeito de São Paulo.

Em nota enviada à Fórum, o PSB informou que não compactua com práticas de discriminação e que vai pedir explicações ao professor filiado ao partido sobre o caso. Leia a íntegra ao final da matéria.

Novas denúncias

Em depoimento à Comissão de Direitos Humanos de Campinas, a professora Camila Costa narrou que era ofendida por Vasques de forma recorrente por ser nordestina, com comentários pejorativos sobre seu sotaque, e tratada como “louca”, tendo sido pressionada a abafar casos de racismo e até mesmo um suicídio ocorrido no campus.

Depois de chegar a um grau de esgotamento psicológico, marcado por depressão, ansiedade e síndrome de burnout, Camila chegou a tentar suicídio, mas fugiu de São Paulo para a casa de sua família no Ceará.  Ela não foi demitida e, atualmente, sem aulas, se encontra em um limbo jurídico, a exemplo do professor Fabio Maldonado, citado em matéria do The Intercept Brasil, que também não teve sequer suas verbas rescisórias pagas.

Um dos casos de racismo que a professora Camila lutou para que fosse enfrentado pela Unip, sem sucesso, foi o da estudante Gabriela Nunes, que também falou à Comissão. Ex-representante de classe, Gabriela foi vítima de um caso de racismo em 2017 por parte de uma colega de sala que disse que “quem gosta de preto é a polícia”. A estudante, inclusive, teve um tio assassinado possivelmente pela polícia, o que é uma causa de trauma permanente.

Depois de registrar Boletim de Ocorrência contra a colega, Gabriela passou a ser ameaçada pela denunciada, com suposto acobertamento da Unip, que não teria tomado providências. O caso, então, piorou: Gabriela passou a ser vítima de bullying por parte de outras colegas, o que a fez ter um grave caso de depressão, que quase culminou em suicídio, motivo pelo qual ela largou o curso na Unip, deixou o estado de São Paulo e foi morar no Paraná.

Nos bastidores, seria o coordenador-geral Enzo Fiorelli Vasques que pressionava a professora Camila para que o caso de Gabriela não tivesse nenhuma resposta institucional da Unip. A ordem seria dizer que nada aconteceu.

Enzo Fiorelli Vasques filiado ao PSB

Segundo dados do site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o professor Enzo Fiorelli Vasques é filiado regular ao PSB, desde 08 de setembro de 2011, e foi candidato derrotado ao cargo a vereador em 2012, por um partido nominalmente socialista.

O fato acende um sinal amarelo não apenas na maneira como as instituições de ensino superior privadas lidam com a questão racial, mas também como partidos em tese de esquerda acomodam quadros sem relação com seu nome e suas tradições.

Partido histórico da esquerda, o PSB representava uma terceira via no campo progressista brasileiro na breve experiência democrática do pós-guerra, foi fechado pela ditadura militar (1964-1985) e reaberto nos anos 1980 – tendo um nome do porte do ex-governador pernambucano Miguel Arraes como sua liderança maior.

Recentemente, defensores da campanha de Márcio França (PSB) para a prefeitura de São Paulo chegaram a afirmar que o ex-governador está “à esquerda de Boulos”, abrindo uma polêmica nas redes com os entusiastas da candidatura do líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) – apesar do recente, e até o presente momento malsucedido, aceno de França a Bolsonaro ou da aliança entre o mesmo PSB e o PSL em Sorocaba, município do interior paulista.

O caso particular da Unip, e as múltiplas denúncias que eclodem no seu curso de Relações Internacionais, parecem expressar mais do que a crise educacional e racial brasileiras, mas também revelam detalhes assombrosos sobre nossa realidade partidária e, inclusive, um partido importante que se pretende do campo progressista – o que implica, no micro e no macro, na capacidade de se fazer frente à escalada autoritária do Brasil.

Nota do PSB

“O PSB não compactua com quaisquer práticas de discriminação, sejam elas de raça, gênero ou orientação sexual. O próprio estatuto do partido, em seu artigo 3º, inciso VI, estimula em seus filiados valores morais e comportamentos culturais que contrários à discriminação e à marginalização de indivíduos e grupos sociais. O partido pedirá explicações ao responsável pela declaração.”

Redação
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