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02 de setembro de 2019, 15h46

Unidade no Xingu: Indígenas e ribeirinhos rivais se unem contra desmandos de Bolsonaro na Amazônia

"Para lutar contra este governo, a gente se junta", afirmou uma das lideranças indígenas em um evento que marcou a reaproximação entre povos de culturas distintas

Kaypós e Panarás | Foto: Lucas Landau/Rede Xingu+

A crescente devastação da Floresta Amazônica, impulsionada por uma política ambiental do governo de Jair Bolsonaro considerada complacente com o desmatamento e as queimadas, fizeram povos indígenas e ribeirinhos historicamente rivais se unirem contra um inimigo em comum: “o governo do Brasil”.

O repórter João Fellet, da BBC News Brasil, acompanhou um encontro que seria impensável há anos atrás. No sul do Pará, 14 etnias indígenas e quatro comunidades ribeirinhas da bacia do Xingu se reuniram em uma espécie de “Assembleia Geral da ONU de povos da floresta xinguanos”.

A aldeia Kubenkokre, da Terra Indígena Menkragnoti, dos kayapós, foi a sede do evento articulado pela Rede Xingu+. Os kayapós são o povo mais numeroso da região, com 12 mil integrantes, e fizeram questão de sediar o evento. “Não vamos repetir o passado, vamos ter união daqui para a frente”, disse Kadkure Kayapó, um dos caciques da Kubenkokre.

A união gerou a criação de um conselho de representantes dos povos participantes, com o objetivo de unificar demandas e agilizar articulação política. “Hoje nós temos um só inimigo, que é o governo do Brasil, o presidente do Brasil, e as invasões de não indígenas”, disse Mudjire Kayapó, outra liderança presente. “Temos brigas internas, mas, para lutar contra este governo, a gente se junta”, afirmou.

Entre as preocupações está o plano do governo de autorizar o arrendamento e a mineração em terras indígenas, além de atitudes que estariam incentivando invasões por garimpeiros e madeireiros e contaminação de rios por agrotóxicos e químicos. Segundo os indígenas, a posição de Bolsonaro fez aumentar o número de garimpeiros que oferecem altas quantias a líderes indígenas para poder explorar o território.

“Depois que eles [líderes indígenas] pegam o dinheiro fácil, viciam e não querem mais trabalhar. É algo humano: acontece com indígenas e não indígenas”, declarou Doto Takakire, um dos anfitriões. Por serem os maiores, os kayapós também são os que mais convivem com esse problema e têm lutado para unificar o pensamento das lideranças em favor da Amazônia. Segundo Takakire, outro problema que faz crescer a atuação de garimpeiros – atividade proibida em terras indígenas – é a diminuição das multas aplicadas pelo Ibama, que acaíram 30%.

O líderes favoráveis ao garimpo não foram convidados, o que foi alvo de algumas críticas daqueles que pregavam a conscientização dessas lideranças. “Vamos continuar brigando pela preservação do território enquanto outros brigam para ter garimpo e arrendamento de terra? Isso nos enfraquece, não dá para continuar assim”, questionou Oé Kayapó, representante da Associação Floresta Protegida (AFP).

Antigo rivais

Um dos momentos mais emocionantes segundo o jornalista foi quando os kayapós convidaram a tribo dos panarás para uma apresentação cultural. Os panarás quase foram dizimados na década de 20 pelos anfitriões. Depois de anos, a devastação promovida pelo governo Bolsonaro fez uma aproximação se concretizar.

“Nós matamos os kayapó, os kayapó nos mataram, nós brigamos com os kayabi, mas não sabíamos ainda o que estava acontecendo sobre o branco, não sabíamos dessa ameaça ainda. […] Então esfriamos a cabeça, nos reconciliamos, voltamos a conversar uns com os outros e não vamos mais brigar. Porque existe um interesse comum para que lutemos juntos, para que os não indígenas não matem a todos nós”,  afirmou Sinku Panará, que destaca que a vitória de Bolsonaro encorajou uma aproximação entre grupos indígenas que eram inimigos.

“Os outros presidentes tinham uma preocupação um pouco maior com as nossas terras (…). Este que chegou agora (Bolsonaro), ele não está preocupado com isso, ele está preocupado em acabar com o que a gente tem e acabar com a gente. Por isso estou com o coração cheio, por isso estamos conversando uns com os outros”, disse ainda.

O encontro ainda marcou uma aproximação entre as tribos e os povos ribeirinhos, que mantinham certo distanciamento. “Eu imaginava, mas não tinha dimensão do que era realmente uma terra indígena. É muito bonito, muito organizado, muito tradicional”, disse a pescadora Rita Cavalcante da Silva.

Para conferir a reportagem acesse a BBC News Brasil


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