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22 de setembro de 2018, 10h20

É possível derrotar o golpe neoliberal e o neofascismo ao mesmo tempo?

Em novo artigo, Julian Rodrigues discorre sobre as estratégias do PT e os desafios para enfrentar a escalada neofascista e liberal

Foto: Ricardo Stuckert

O golpe deu errado.

Não há apoio popular para que as políticas neoliberais implementadas pelo governo Temer sejam referendadas nas eleições de 2018.

As elites golpistas acreditavam que derrubando Dilma e prendendo Lula  abririam um novo período na história brasileira, onde a hegemonia do programa pró-mercado  estaria assegurada. Apostaram que o governo Temer seria uma “ponte para o futuro”, e que o golpe ganharia as eleições e se legitimaria com uma candidatura como a de Alckmin.

Nessa operação anti-PT se valeram de todas as armas e estimularam discursos de ódio, autoritários, neofascistas. Bolsonaro cresceu com o apoio da grande mídia e da direita “liberal”, que  antes se colocava como democrática, “limpinha”, mas abandonou seus pudores.

Mas, Lula, o PT, a esquerda e o campo progressista não morreram. E o povão   entendeu o que aconteceu. Tiraram Dilma e prenderam Lula para tirar direitos dos trabalhadores e impor uma política econômica que só gera desemprego.

Lula encarou a perseguição judicial e a prisão.

De uma cela fria em Curitiba, continuou a lutar e comandou a resistência ao golpismo. Muita gente  boa achava que a tática do PT estava errada, que era preciso lançar um candidato alternativo no primeiro semestre ou apoiar Ciro Gomes.

Nada disso. Lula estressou o judiciário golpista e desmontou a farsa que foi  sua prisão. A decisão da ONU marcou o ápice dessa resistência. As massas entenderam a perseguição e o motivo da prisão do Lula. A indicação de Haddad, como representante do ex-presidente na disputa eleitoral coroou uma tática ousada e correta.

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Haddad disparou nas pesquisas e continua a crescer. O povão rapidamente entende que votar 13 é trazer Lula e as políticas sociais de volta. Os candidatos ligados ao golpe derretem.

E Bolsonaro?

Antes de mais nada é preciso situar o “fenômeno”. Há uma crise internacional do capitalismo neoliberal, e, por todo canto, cresce o neofascismo e os discursos de ódio. A eleição de Trump e a votação dos partidos de extrema-direita na Europa são parte dessa conjuntura.

O ex-caricato deputado se agigantou – para além do nicho eleitoral natural, dos ultra-conservadores.  Cavalgou o antipetismo, aparece como “anti-sistema”, como alguém que tem coragem, que não é corrupto, que não tem o “rabo preso”.

A Globo, o PSDB e o tal mercado são responsáveis por essa desgraça.  O neofascismo ganhou base de massas. E não adianta assobiar e olhar para o lado. Eles são agora vítima dos monstros que tiraram da cela.

Vencer o neoliberalismo e o neofascismo

Bolsonaro tenta se vender agora não só como um fascistoide, mas também como  um ultra-liberal, confiável. Só que não tem estofo nem equipe, muito menos condições de governar.

O  inominável – ao  mesmo tempo que atiça as Forças Armadas (que vão retirando as máscaras ao se mostrar prontas para um golpe)  e vai ganhando apoio entre os mais ricos, também preocupa o núcleo sensato das classes dominantes. Os dirigentes mais cerebrais  sabem o risco de um eventual governo do capitão. Pode ser muito ruim para os negócios um eventual governo extremista – além do militar ser também muito frágil para derrotar o PT no segundo turno.

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Todo mundo sabe que Haddad, ao herdar o apoio de Lula e com a estrutura petista,  irá ao segundo turno – votação beirando os 30% dos válidos. E deve ir com Bolsonaro, que depois do atentado ampliou sua base eleitoral.

Bolsonaro é a direita na economia, mas também é um ícone do machismo, da homofobia, do racismo, da intolerância. Haverá confusão na classe dominante. Uma parte já aderiu e vai se somar ao militar no segundo turno. Outra parte está em dúvida ou já começou a tentar cooptar e domesticar Haddad, para tentar  influir no possível futuro governo.

O candidato do PSL mudou de patamar. Não é um adversário que será facilmente batido em um segundo turno. Por outro lado, cresce sua rejeição. Os setores médios centristas terão muita dificuldade em  sufragá-lo na segunda volta, a começar pelas mulheres.

Nós precisamos derrotar tanto os neoliberais  de sempre, quanto o capitão neofascista.

Por isso, no primeiro turno não é hora para nenhum gesto ao centro.

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Vamos consolidar o voto popular e o voto à esquerda. Sem bater em Ciro, que será nosso apoiador no segundo turno e um ministro importante em futuro governo do PT.

Haddad está muito bem. Soma às suas qualidades pessoais, uma fidelidade absoluta a Lula e o compromisso com o programa do PT – o melhor e mais radical que já apresentamos desde 1989.

Então, vamos nessa jornada. Levar Haddad ao segundo turno, sem vacilações e sem acenos ao “mercado”.

No segundo turno, é preciso vincular Bolsonaro não só ao  neofascismo, mas, sobretudo, ao governo Temer e às políticas neoliberais. Mostrar que o capitão votou a favor da reforma trabalhista e que seu guru, Paulo Guedes, é sinônimo de políticas anti-povo, uma caricatura  privatizante.

Vamos mostrar que o neofascista,  além de ser homofóbico, racista, misógino e autoritário é também defensor das políticas de Temer. Um representante dos banqueiros que chegou a  votar contra a PEC das domésticas.

Hadddad vai andar no fio da navalha.

No segundo turno,  acenaremos ao centro, mas sem abandonar nosso programa de reformas estruturais. Vamos derrotar Bolsonaro aglutinando o eleitorado anti-Temer e todas e todos que repudiam o neofascismo.

Temos tudo para começar a derrotar o golpe em 28 de outubro. Depois, não nos enganemos. Começará  a luta pela posse de Haddad e pelo seu governo.

Entretanto, primeiro é preciso garantir a vitória. Vamos às ruas!