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24 de maio de 2019, 18h05

É preciso falar aos empresários, por Evilazio Gonzaga

Quem é contra o projeto de reforma da Previdência deveria levar em conta essa multidão de empresários e profissionais liberais, que serão duramente prejudicados, mas não percebem

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Por Evilazio Gonzaga* Os debates sobre a reforma da Previdência se resumem ao argumento único do governo – “se não for aprovada a economia entra em colapso” – e o alerta das esquerdas de que a proposta é injusta, cruel e penaliza a maioria mais pobre da população. O argumento de Guedes, seus assessores e demais defensores da reforma da Previdência é frágil e falso. É frágil, ao não apontar os verdadeiros problemas da economia que, com a extinção da indústria produtiva e do mercado interno, continuará disfuncional; e falso porque a sua aprovação, da maneira como querem seus defensores,...

Por Evilazio Gonzaga*

Os debates sobre a reforma da Previdência se resumem ao argumento único do governo – “se não for aprovada a economia entra em colapso” – e o alerta das esquerdas de que a proposta é injusta, cruel e penaliza a maioria mais pobre da população.

O argumento de Guedes, seus assessores e demais defensores da reforma da Previdência é frágil e falso.

É frágil, ao não apontar os verdadeiros problemas da economia que, com a extinção da indústria produtiva e do mercado interno, continuará disfuncional; e falso porque a sua aprovação, da maneira como querem seus defensores, levará a situação econômica ao colapso, pela violenta diminuição das atividades que geram riqueza e renda, o que praticamente extinguirá a atividade empresarial no Brasil, com exceção dos bancos e agiotas.

O discurso dos adversários da reforma da Previdência, apesar de correto, é incompleto, pois exclui de sua atenção boa parte da população: os empresários e profissionais liberais.

Esses setores de classe média serão duramente afetados pela reforma proposta para a Previdência, porque ela resultará em uma impressionante drenagem de dinheiro da sociedade para os bancos. O impacto da transferência de bilhões de dólares do mercado de consumo para os cofres dos bancos, onde ficarão parados, para gerar juros, provocará uma avassaladora queda nas vendas, ainda maior do que ocorre atualmente.

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Os principais atingidos pelo colapso do consumo – que certamente acontecerá com a transferência de imensos recursos para as tesourarias bancárias – serão os milhões de brasileiros que labutam como empresários de micro, pequenas e médias empresas, além dos profissionais liberais, que precisam do mercado interno ativo e aquecido para sobreviver e prosperar.

Os críticos da reforma da Previdência injusta e equivocada precisam estender o discurso para essa imensa população, que já foi iludida pelos discursos moralizantes, que defendera, a Lei do Teto de Gastos e a reforma trabalhista. Essas duas medidas tomadas no governo golpista, quando Temer ainda não tinha a sua reputação arrasada pela conversa com Joesley Batista, estão diretamente ligadas à crise atual do mercado interno, que é provocada essencialmente pela brutal queda no consumo: as lojas não vendem, as indústrias não produzem, o desemprego e a informalidade aumentam, o dinheiro escasseia e ninguém compra produtos ou serviços.

Isso afeta do fabricante de peças para a indústria automobilística, passando pelo dono de uma rede de lojas, ao médico, e até o motorista de Uber. Todos veem o consumidor minguar.

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O teto de gasto reduz drasticamente as compras do setor governamental e a reforma trabalhista, vendida como “a salvação da lavoura”, para os empresários e profissionais liberais, se revelou um “tiro no pé”.

Se muitos empresários e profissionais liberais puderam se livrar de alguns encargos trabalhistas, isso significou também que eles destruíram grande parte de seu público consumidor. Os milhões que perderam o emprego estável, graças às políticas de austeridade e de redução dos direitos trabalhistas, deixaram de ter dinheiro e tranquilidade para consumir. Compram apenas o essencial.

Essa dinâmica criou um paradoxo terrível para o mercado, os empregadores economizam alguma coisa com a flexibilização das regras trabalhistas, mas em decorrência seus consumidores – que são os trabalhadores – deixam de comprar, por falta de recurso e de segurança, até para fazer um crediário. Quem compra a crédito, sem saber se amanhã terá um emprego?

Dessa forma, se a reforma da Previdência for somada às medidas anteriores; teto de gastos e a reforma trabalhista, estará formada a convulsão perfeita: o mercado interno de consumo caminhará para entrar em processo terminal de extinção no Brasil.

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Como tudo que é ruim pode piorar, a política suicida de privatizações será a “pá de cal” no mercado interno brasileiro, pois as estatais vendidas para companhias estrangeiras irão girar as suas compras para fornecedores internacionais, como ocorre hoje no caso das multinacionais. Desde as agências de propaganda, até os parafusos comprados pelas empresas internacionalizadas, tudo virá de fora do país, levando à virtual extinção as figuras do empresário brasileiro e do profissional liberal no país.

Quem é contra o projeto de reforma da Previdência deveria levar em conta essa multidão de empresários e profissionais liberais, que serão duramente prejudicados, mas não percebem.

*Evilazio Gonzaga é jornalista, publicitário e empresário do setor de comunicação e marketing

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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