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25 de janeiro de 2019, 18h01

“É uma omissão. Quase nada foi feito desde Mariana”, diz biólogo da região de Brumadinho

Ricardo Coelho relatou à Fórum como o rompimento de uma nova barragem da Vale vem em meio à omissão do poder público no monitoramento das dezenas de empreendimentos de mineração na área principalmente após a tragédia de Mariana há 3 anos

Foto: Divulgação/Corpo de Bombeiros
A omissão do poder público no sentido de monitorar, fiscalizar e fornecer informações sobre riscos pode ser um dos fatores que contribuíram para que, em um intervalo de pouco mais de 3 anos, cidades de Minas Gerais fossem cobertas por lama do rompimento de uma barragem de mineração. A opinião é de Ricardo Coelho, biólogo que estuda os reservatórios de Minas Gerais, mora e atua próximo ao complexo de barragens do qual faz parte a de Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, que rompeu nesta sexta-feira (25). De administração da Vale, a mesma mineradora responsável pela barragem do Fundão,...

A omissão do poder público no sentido de monitorar, fiscalizar e fornecer informações sobre riscos pode ser um dos fatores que contribuíram para que, em um intervalo de pouco mais de 3 anos, cidades de Minas Gerais fossem cobertas por lama do rompimento de uma barragem de mineração. A opinião é de Ricardo Coelho, biólogo que estuda os reservatórios de Minas Gerais, mora e atua próximo ao complexo de barragens do qual faz parte a de Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, que rompeu nesta sexta-feira (25).

De administração da Vale, a mesma mineradora responsável pela barragem do Fundão, que inundou de lama a cidade de Mariana, há 3 anos, a barragem de Brumadinho pertence à Mina do Feijão, próxima a inúmeros povoados, muitos deles já evacuados. Equipes dos bombeiros e da Defesa Civil resgatam feridos e procuram por vítimas na região.

De acordo com Ricardo Coelho, a barragem que rompeu faz parte de uma mina em plena atividade e, pelo fato de não estar abandonada, a omissão do poder público na prevenção pode ter o papel relevante na tragédia. “Não se trata de uma mina abandonada. Estava em plena operação. Temos que aguardar, inclusive, a manifestação da empresa [Vale] sobre toda a base legal, quais os laudos de certificações dessas barragens etc. Agora, como especialista e também como habitante, porque moro na região, estou apreensivo com relação ao seguinte: depois da tragédia de Mariana, a sensação é de que pouca coisa foi feita para aumentar a segurança dessas barragens. Deveria haver uma comunicação. Se perguntar para mim quais são as barragens que tinham risco, eu não sei. Isso deveria ser público e notório. As autoridades deveriam divulgar isso amplamente para a sociedade, e não ficar retendo esse tipo de informação”, disse.

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O biólogo revela ainda que em Minas Gerais há inúmeras outras barragens, muitas delas de administração da Vale, que apresentam riscos de rompimento e que nada é feito no campo preventivo e nem mesmo para alertar a população para se reduzir o risco de impactos. Ele usa como exemplo a barragem Casa da Pedra, que recorrentemente apresenta instabilidades dependendo do volume de chuvas. Bombeiros e estudiosos já alertaram para os riscos que um eventual rompimento traria, dado o fato de que a barragem fica próxima à cidade de Congonhas. Coelho alerta para o fato de que a barragem em questão é quatro vezes maior que a do Fundão, que provocou a tragédia de Mariana – considerada o maior desastre ambiental do Brasil – há pouco mais de três anos. “Rio acima você tem barragens muito maiores. Em Congonhas tem um reservatório da Casa da Pedra quatro vezes maior que a barragem de Fundão. E ele está do lado de Congonhas, uma cidade de 60 mil habitantes. Se você vai lá [em Congonhas], ninguém tem informações sobre a segurança da barragem. Esse eu considero o caso mais grave”, alertou.

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Para Coelho, o trabalho de prevenção consiste, principalmente, na divulgação de informações sobre os riscos e no treinamento da população. Ele chama a atenção para o fato de que há, por exemplo, na região Sul de Belo Horizonte, três barragens abandonadas e um lago de extrema profundidade em situação de desbarrancamento. “É uma situação de risco, mas não há trabalho de informação”, pontuou.

“É muito cedo para dizer o que aconteceu, mas é mais um caso de rompimento de barragem e está ficando uma triste rotina no estado. Todo mundo sabe que o desastre de Mariana não teve as consequências que deveria ter tido de melhoria e controle do processo de impacto ambiental de mineradora no estado de Minas Gerais. Isso é público e notório. Uma série de aspectos no acompanhamento dessas tragédias, se for olhar, vai se descobrir falhas. Isso sinaliza fortemente para a omissão do Estado. Deveria ter feito uma série de coisas e não fez. Se fosse feito da maneira como deveria, não estaríamos falando hoje de mais um desastre”, completou o biólogo.

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Expectativa é de grande número de vítimas 

À Fórum, Ricardo Coelho explicou ainda que o volume de lama que está se espalhando com o rompimento da barragem de Brumadinho é bem menor que o da barragem do Fundão, que destruiu a cidade de Mariana. O biólogo chama a atenção, no entanto, para o fato de que a região próxima à barragem rompida hoje é bem mais habitada que a última tragédia.

“É menor [que a de Mariana], evidentemente, mas é uma região sensível, mais densamente habitada que Mariana. Há uma série de condomínios em ao menos três distritos próximos. É uma região complexa do ponto de vista da habitação humana”, explicou. “Estamos praticamente dentro da Grande Belo Horizonte. Isso muda bastante o cenário do desastre”.

Para além da densa habitação, que pode ocasionar em muitas vítimas, Coelho ressalta que a tragédia poderá trazer “contratempos de ordem fundiária”, uma vez que há muitas chácaras e sítios na região e o preço da terra é valorizado. “Tem um monte de gente que mora ali e trabalha em Belo Horizonte”, pontuou.

A região de Brumadinho compreende ainda a um dos maiores polos de cultivo de bergamota do estado.

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