5 ANOS DO PIX

Quem criou o Pix? Veja como Lula e os governos do PT gestaram o sistema

Da inclusão financeira iniciada em 2003 aos fóruns do SPB em 2015, decisões dos governos do PT criaram o terreno para o Pix dominar o país.

Lula desmente fake news sobre o Pix.Créditos: Reprodução de vídeo / Instagram
Escrito en ECONOMIA el

O Pix virou o principal meio de pagamento do país e, ao mesmo tempo, um campo de batalha política. Enquanto Jair Bolsonaro insiste em se vender como “pai do Pix”, o sistema é hoje alvo de uma investigação comercial do governo Donald Trump, e o governo Luiz Inácio Lula da Silva se vê obrigado a defendê-lo como infraestrutura pública estratégica.

Por trás da disputa de narrativa existe uma pergunta concreta: de que projeto de país o Pix é filho? Quando se observa a linha do tempo completa, dos primeiros movimentos de inclusão financeira em 2003 aos fóruns do Sistema de Pagamentos Brasileiro em 2015 e ao grupo de trabalho de pagamentos instantâneos em 2018, a resposta aponta para os governos do PT e, em especial, para Lula como o “pai político” do Pix.

A Linhagem dos Fatos: Do "Fome Zero" ao QR Code

A narrativa bolsonarista se apoia no fato de que o Pix foi lançado em seu governo (2020) e que o Grupo de Trabalho (GT) que o desenhou foi formalizado em 2018. O que eles omitem é a infraestrutura política, legal e institucional que levou décadas para ser construída e que tornou esse GT possível.

1. O Pilar Político (Lula, 2003-2010): A Inclusão como Política de Estado

A resposta começa no primeiro dia do governo Lula. Pela primeira vez, a "inclusão financeira" e a "bancarização" da população de baixa renda entraram sistematicamente na agenda econômica federal. Políticas de microcrédito e o fortalecimento de cooperativas deixaram de ser nicho de mercado e viraram instrumentos de combate à desigualdade.

Ao mesmo tempo, os bancos públicos (Caixa e Banco do Brasil) foram reorientados para atuar como motores dessa inclusão, especialmente no pagamento de programas sociais como o Bolsa Família. Isso forçou a abertura de milhões de contas e criou a base material para um futuro sistema de pagamentos em massa.

Essa visão foi formalizada pelo Banco Central. Em 2010, no final do governo, o BC publicou o primeiro Relatório de Inclusão Financeira (RIF) e realizou o II Fórum sobre o tema, com a presença de Lula. Ali, o sistema de pagamentos deixou de ser um negócio bancário e passou a ser tratado como política pública, um pilar da cidadania. Na sabatina de Alexandre Tombini (servidor de carreira indicado por Lula e mantido por Dilma) no Senado, ele foi claro: a inclusão financeira seria prioridade.

2. O Pilar Legal (Dilma, 2013): A Lei que Permitiu o Pix

Com a agenda política definida, o governo Dilma construiu o pilar legal. Em 2013, foi sancionada a Lei nº 12.865/2013.

Essa lei é a "mãe" de todo o ecossistema de fintechs e pagamentos digitais no Brasil. Antes dela, o sistema era engessado e dominado pelos grandes bancos. A nova legislação deu poder explícito ao Banco Central para "disciplinar os arranjos de pagamento" (o Pix é um arranjo público) e as "instituições de pagamento" (as fintechs), quebrando o monopólio bancário. Sem esta lei, o Pix seria legalmente inviável ou acabaria restrito aos cinco maiores bancos.

3. O Pilar Institucional (Dilma/Tombini, 2015): A "Incubadora" do Pix

Com a visão de Lula e o pilar legal de Dilma, a gestão de Tombini no BC criou a "incubadora" institucional do Pix. A Portaria nº 85.478, de 23 de junho de 2015, criou os "fóruns temáticos relacionados ao Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB)".

O mais importante deles foi o "Fórum para assuntos relacionados a Arranjos e Instituições de Pagamento (Fórum AIP)". Esta foi a "sala de reunião" oficial onde os técnicos do BC e a sociedade começaram a desenhar um sistema de pagamentos instantâneo, barato e público.

4. O GT de 2018: O Fruto da Árvore

É aqui que a narrativa bolsonarista desmorona. O Grupo de Trabalho (GT) que efetivamente desenhou o Pix foi criado pela Portaria nº 97.909, de 3 de maio de 2018 (Governo Temer).

O que eles omitem é o Artigo 1º desta mesma portaria. O texto é explícito ao afirmar que o GT estava sendo instituído "no âmbito do Fórum Arranjos e Instituições de Pagamento (Fórum AIP), de que trata a Portaria nº 85.478, de 23 de junho de 2015".

A linhagem é irrefutável. O GT de 2018 foi um fruto direto do Fórum criado em 2015 (Governo Dilma), que foi uma consequência da Lei de 2013 (Governo Dilma), que por sua vez foi uma consequência da agenda de inclusão iniciada em 2003 (Governo Lula). Em dezembro de 2018, o GT entregou o documento “Requisitos fundamentais para o ecossistema de pagamentos instantâneos brasileiro”, com todas as linhas mestras do Pix.

O lançamento e a apropriação no governo Bolsonaro

Do ponto de vista operacional, o Pix ganha corpo a partir de 2019, já com Roberto Campos Neto na presidência do Banco Central. Em fevereiro de 2020, o BC lança oficialmente a marca Pix e, em 16 de novembro, o sistema é liberado para toda a população.

Diante do sucesso, Bolsonaro tenta se apropriar do resultado. Durante a campanha de 2022, ele repete em entrevistas que seria o “pai do Pix”. A resposta vem dos próprios servidores: em nota, o Sinal (Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central) denuncia o uso eleitoral do Pix, lembra que o projeto começou antes de 2018 e reafirma que a autoria técnica pertence aos analistas e técnicos do BC, não ao governo de plantão. Reportagens da própria Revista Fórum e, mais recentemente, uma reconstrução detalhada da linha do tempo do sistema em matéria especial já haviam desmontado a narrativa bolsonarista.

Ao mesmo tempo, a escolha do Banco Central de manter o Pix como infraestrutura pública, gratuita para pessoas físicas e com regras isonômicas, reforça a natureza de política de Estado do sistema. É isso que vai incomodar, alguns anos depois, interesses poderosos fora do Brasil.

Trump tenta atacar o Pix, Lula o defende

Em julho de 2025, já em seu novo mandato na Casa Branca, Donald Trump determina a abertura de uma investigação comercial formal contra o Brasil, com base na seção 301 do Trade Act norte-americano. O documento do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) coloca o Pix entre os exemplos de supostas “práticas desleais” brasileiras, ecoando pressões de gigantes como Visa e Mastercard.

A ofensiva é recebida no Brasil como ataque direto à soberania tecnológica e financeira do país. O governo Lula reage oficialmente, defendendo o Pix como infraestrutura digital pública que aumenta a concorrência. Reportagem da Revista Fórum registrou o tom firme da resposta, resumido na frase dirigida a Trump: “O Pix é nosso, my friend”.

Esse embate internacional evidencia o que já estava implícito na disputa doméstica: o Pix é mais que um app de pagamentos. É um bem público digital, resultado de uma escolha política de colocar a infraestrutura do sistema de pagamentos sob coordenação do Estado, e não sob controle de conglomerados financeiros globais.

Por que faz sentido chamar Lula de “pai político” do Pix

Quando se junta a linha do tempo institucional, o desenho fica nítido. Entre 2003 e 2016, os governos Lula e Dilma reorientaram bancos públicos, colocaram a inclusão financeira como objetivo estratégico do Banco Central, aprovaram o marco legal (2013) e criaram os fóruns institucionais (2015) que desembocaram no Pix.

Do ponto de vista estritamente técnico, o mérito é dos servidores do Banco Central. Mas, do ponto de vista político e histórico, faz sentido falar em Lula como “pai do Pix” e nos governos do PT como “pais” do sistema. Foi esse ciclo que decidiu usar o sistema financeiro como instrumento de inclusão e desenvolvimento e que bancou a transformação do tema em política de Estado.

Enquanto Bolsonaro tenta se apropriar de uma obra que não fez e Donald Trump tenta enquadrar o Pix como ameaça, Lula encarna o papel de fiador de um projeto que nasce do trabalho de servidores públicos e da decisão política de colocar o Estado a serviço da maioria. Se hoje milhões de brasileiros pagam e recebem por Pix, sem tarifa e em segundos, é porque, muito antes do QR code na maquininha, houve um governo disposto a tratar a inclusão financeira como direito e o sistema de pagamentos como política pública.

 

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