Enquanto fome avança no Brasil, lucro do Itaú cresce 63,6% e chega a R$6,4 bilhões

Mesmo em meio ao agravamento da pandemia no país, banco lucrou bem mais no primeiro trimestre de 2021 que o mesmo período em 2020; "Crise para quem?", questionou o economista Uallace Moreira

A crise econômica que assola o país, motivada principalmente pela pandemia do coronavírus e agravada com as ações do governo Bolsonaro, não atingiu os bancos. Segundo dados divulgados nesta terça-feira (4), o lucro líquido do Itaú Unibanco, maior instituição bancária da América Ltina, cresceu 63,6% no primeiro trimestre de 2021, chegando a R$ 6,398 bilhões. No mesmo período em 2020, este lucro foi de R$ 3,9 bilhões.

Esse lucro representa um crescimento de 18,7% com relação ao trimestre anterior e está acima das estimativas que vinham sendo feitas por analistas, em torno de R$ 5,82 bilhões.

“Neste primeiro trimestre, evoluímos muito em nosso processo de transformação cultural, para estarmos cada vez mais preparados para os atuais desafios. Conseguimos acelerar a nossa agenda de transformação digital e diversas outras frentes de trabalho fundamentais para melhoramos significativamente a experiência dos nossos clientes”, disse o presidente do Itaú, Milton Maluhy, durante a divulgação dos resultados.

O balanço também mostrou que, neste primeiro trimestre, a instituição aumentou seu patrimônio líquido em 13,5% com relação ao mesmo período do ano passado, chegando a R$ 140,369 bilhões, bem como seus ativos totais, que tiveram elevação de 7,2% e agora atingem R$ 2,124 trilhões.

Os números favoráveis ao banco contrastam com a realidade da maioria da população brasileira, que vem sofrendo a redução de seu poder de compra diante da disparada do preço dos alimentos e, impactada pela redução do auxílio emergencial, já se depara com a volta da fome.

De acordo com o Inquérito Nacional sobre Segurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19, conduzido pela Rede Pensssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional) e divulgado em abril deste ano, a fome atingiu 19 milhões de brasileiros em 2020.

A pesquisa também revelou que 116,8 milhões de brasileiros viveram com algum grau de insegurança alimentar nos últimos meses, o que corresponde a 55,2% dos domicílios.

“Balança comercial em abril com crescimento no saldo de 63%, puxado por exportações que subiram 50%, por alta nos preços da soja e minério de ferro e real baixo. Lucro do Itaú subiu 64% no 1º trimestre. Mas o povo sem renda e muitos passando fome. Voltamos as antigas”, constatou a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR).

O economista Uallace Moreira, professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), também comentou o lucro expressivo do Itaú e questionou: “Crise pra quem?”.

Lucro de R$ 79,3 bilhões após fechamento de agências e demissões

De acordo com estudo do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) divulgado no final de abril, os cinco principais bancos privados brasileiros tiveram lucro de R$ 79,3 bilhões em 2020. O número significa uma queda média de 25,2%. Para tal, foram fechadas agências (quase 1.400, com destaque para o Bradesco) e foram eliminados cerca de 13 mil postos de trabalho.

“Os bancos já estavam em um processo intenso de reestruturação com grande volume de investimentos em tecnologias da informação, tendo como objetivo a melhoria de seus índices de eficiência e a expansão dos negócios com menores custos”, observa o Dieese, e com a pandemia esse processo se aprofundou. “Os balanços divulgados mostraram o crescimento significativo das transações financeiras pelos canais digitais – transferências, operações de crédito e investimentos –, bem como a abertura de grande número de contas de clientes 100% digitais.”

O Dieese lembra ainda que milhares de profissionais do setor foram direcionados ao teletrabalho, ou home office, o que ajudou os bancos a reduzir custos de operação e levou ao fechamento de agências e escritórios. “Esse processo foi acompanhado da extinção de quase 13 mil postos de trabalho, somente em 2020, em plena crise sanitária e econômica, à revelia do compromisso dos bancos de não realização de dispensas, formalizado em acordo de abril de 2020, entre os bancos e o Comando Nacional dos Bancários”, aponta a entidade.

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Ivan Longo

Jornalista e repórter especial da Revista Fórum.