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31 de março de 2012, 15h24

Ederaldo Gentil (1943-2012): O Brasil perde um de seus grandes sambistas

Ederaldo Gentil em 1975, época de "Samba, canto livre de um povo"

Em geral estou online nas madrugadas, mas não foi o caso ontem. Andava lendo Manuel Zapata Olivella com o computador desligado. Como li até quase de manhã, acordei tarde e, só depois de ler os jornais do dia (todos os três “grandes”), vi os tuítes de Franciel Cruz, anunciando a morte de Ederaldo Gentil, ocorrida no começo da noite de ontem. Estupefato, voltei aos jornais. Com certeza, deveria ter sido alguma distração minha. Eu não vira nenhuma linha registrando a morte do gigante que, reitero, acontecera no início da noite. Nada. Fiz uma busca detalhada, desta vez nos grandes portais noticiosos destes mesmos diários, para ver as notícias que saem em tempo real. Já eram 16h de Brasília, quase 24 depois do falecimento de um dos nossos maiores sambistas. Nada.

Como assim? Como era possível? Ederaldo Gentil, o autor de “Samba, canto livre de um povo” (1975), um dos melhores discos da década de 70, compositor gravado por Elza Soares, Beth Carvalho, Riachão, Batatinha, homenageado por uma miríade de artistas que vão de Gilberto Gil a Carlinhos Brown a João Nogueira, morrera, e não se encontrava uma linha na mídia do Sul Maravilha? Era verdade. Mesmo para quem já a conhece de longa data, a amnésia brasileira conseguia surpreender.

Ederaldo Gentil nasceu em 07 de setembro de 1943, no Largo 02 de julho, em Salvador, e foi sepultado em 31 de março de 2012. Com estas três datas, você compõe a alegoria. Nascido no dia da nossa independência nominal, epidérmica, no Largo nomeado pelo dia da nossa independência real, conquistada com o sangue dos baianos, ele calhou de morrer na véspera do aniversário do golpe que marca em definitivo a nossa característica mais própria, a desmemória, a amnésia. Até na morte ele inventou alegorias cheias de sentido.

Ederaldo sintetizou as duas grandes tradições do samba, a baiana e a carioca. Como afirma seu parceiro Nelson Rufino, “aqui em Salvador, quando se faz uma roda de samba, cantam-se 10, 15 ou 20 músicas do Ederaldo”. Sua música ia do dedilhar mais lírico do samba canção até o batuque mais intenso herdado do candomblé. Deixou mais de 200 músicas gravadas e cantou como poucos a vida do povo trabalhador. De toda a sua imensa obra, me emociona mais o grande samba “Identidade”, que diz:

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05342635 é o meu número o meu nome
Minha identidade
Minimo salário é o meu ordenado
12 horas de trabalho
Que felicidade, que felicidade

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Também no disco de 1975, Ederaldo gravou “O ouro e a madeira”, pérola cantada em inúmeras rodas de samba na Bahia, e cujo refrão é uma das minhas coleções de metáforas favoritas da língua portuguesa:

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O Ouro afunda no mar
Madeira fica por cima
Ostra nasce do lodo
Gerando pérolas finas

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Graças ao amigo Franciel, pude conversar com Denise Gentil, irmã de Ederaldo. Suas dores no abdômen começaram na quarta-feira. Foi medicado e cuidado pela família, mas não resistiu. A morte aconteceu um pouco depois das 15h de sexta-feira. Apesar da ausência da imprensa e dos representantes dos governos municipal, estadual e federal, o povo não esqueceu seu grande poeta e entoou os sambas de Ederaldo. No lindo depoimento de César Rasec, dá para se ter uma ideia da importância de Ederaldo para a música brasileira.  Nesta foto, da jornalista Olivia Soares, você vê o povo reunido cantando as obras de Ederaldo no velório:

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Este obituário não é o que Ederaldo merece, mas é o que consegui escrever, devido à minha raiva pela forma como o Brasil trata seus poetas e sua memória. Mas aqui está registrado. A grande imprensa do Sul Maravilha ignorou, mas na Revista Fórum ele não foi esquecido. Vai na fé, Ederaldo!