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11 de janeiro de 2019, 07h23

Eduardo Bolsonaro sinaliza revisão histórica sobre ditadura nos livros escolares

À Fórum, Rogério Sotilli, diretor do Instituto Vladmir Herzog, rebate as declarações do deputado federal: "Resistiremos para que possamos retomar o curso da história em um processo de valorização da memória, da verdade e da justiça"

Reprodução
Após anos de luta pela memória dos mortos, torturados e desaparecidos que foram vítimas da ditadura militar do Brasil iniciada com o golpe de 1964, o país corre o risco, com o governo do capitão da reserva Jair Bolsonaro, de ver toda a história sobre os anos de chumbo subvertida por aqueles que estão no poder. O presidente eleito coleciona frases em defesa das atrocidades cometidas pelos militares, nega o golpe e os fatos históricos, além de venerar um torturador reconhecido por inúmeros organismos de direitos humanos, a ponto de parte seus apoiadores pregarem a morte de esquerdistas e clamarem por...

Após anos de luta pela memória dos mortos, torturados e desaparecidos que foram vítimas da ditadura militar do Brasil iniciada com o golpe de 1964, o país corre o risco, com o governo do capitão da reserva Jair Bolsonaro, de ver toda a história sobre os anos de chumbo subvertida por aqueles que estão no poder.

O presidente eleito coleciona frases em defesa das atrocidades cometidas pelos militares, nega o golpe e os fatos históricos, além de venerar um torturador reconhecido por inúmeros organismos de direitos humanos, a ponto de parte seus apoiadores pregarem a morte de esquerdistas e clamarem por uma “intervenção militar”.  A possibilidade de haver um revisionismo histórico da ditadura militar nas escolas já vem sendo aventada por um dos “cabeças” do novo governo: o deputado federal mais votado de São Paulo e filho do presidente, Eduardo Bolsonaro (PSL).

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Nesta quinta-feira (10), em meio à polêmica edição do edital que altera inúmeras regras para a aquisição de livros didáticos, o filho do capitão da reserva sinalizou, via Twitter, que os livros escolares atuais não estão contando a história da maneira correta e que seria preciso “sair do marasmo”.

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“Um povo sem memória é um povo sem cultura, fraco. Se continuarmos no nosso marasmo os livros escolares seguirão botando assassinos como heróis e militares como facínoras”, escreveu o parlamentar, ferrenho defensor da liberação de armas para “cidadãos de bem” e crítico voraz da inexiste “doutrinação marxista” nas escolas.

Em entrevista à Fórum, o diretor-executivo do Instituto Vladimir Herzog, Rogério Sotilli, faz uma análise das declarações do filho de Bolsonaro. O instituto dirigido por Sottili leva o nome do jornalista assassinado pelo aparelho repressor da ditadura e atua junto à Comissão Nacional da Verdade e outras entidades para, através da exposição da memória, trazer reparação e justiça às vítimas do regime militar.

“Se eu não soubesse que era ele [Eduardo Bolsonaro] o autor desta frase eu diria que tenho certa concordância: um povo sem memória, um povo sem história, tende a repetir os erros do passado, que é o que aconteceu um pouco com a gente. Somos um povo, sim, sem memória, e por sermos um povo sem memória, a gente acaba produzindo as mesmas violências que a historia nos proporcionou todo esse tempo. Nós precisamos, sim, conhecer muito mais esse processo e, mais que conhecer, precisamos de um processo de reconhecimento para que a gente possa proporcionar justiça, responsabilizando aqueles que promoveram a violência no Brasil, como na ditadura militar”, analisa Sottili.

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No mesmo tuíte, Eduardo Bolsonaro ainda chamou os militares que atuaram na ditadura militar de “heróis”. “Não. Nossos heróis não morreram de overdose, morreram em combate e isso precisa ser respeitado”, escreveu, sugerindo que os livros didáticos deveriam “respeitar” sua opinião pessoal que nega os fatos históricos.

Sotilli prosseguiu na análise. “Nossos heróis são aqueles que lutaram contra a opressão, que lutaram pela paz, que lutaram pelos valores humanos. São aqueles que lutaram pelos direitos das populações, que reconhecem que a sociedade brasileira é uma sociedade formada de povos indígenas, negros, imigrantes. Não são aqueles que entendem que só existe uma cor nesse país, que só existe um tipo de gente, que esse tipo de gente é o padrão que não é o brasileiro”, pontua.

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Para o diretor do instituto, a fala do deputado federal faz parte de uma “disputa de narrativas” natural desses primeiros meses após a vitória do novo governo. Ele aposta, contudo, que a população começará a “entender mais” o que está acontecendo na medida em que as expectativas não forem atendidas.

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“É bem provável que a maioria da população brasileira que votou nesse presidente não votou nesse presidente porque ele tem como seus heróis os violadores dos direitos (…) É um momento de lua de mel, a população está esperando que ele [o novo governo] dê certo. Então, haverá esse esse momento de ‘lua de mel’ onde as pessoas apoiam, mas quando descobrirem que ele não vai atender as expectativas, começarão a apoiar menos e entender um pouco mais o significado dessas palavras que eles estão jogando ao vento”, explica.

Sotilli não descarta, no entanto, uma investida das forças reacionárias, apoiadas pelo governo de Jair Bolsonaro, contra as conquistas da Comissão Nacional da Verdade com o intuito de subverter a história sobre a ditadura, mas garante que a sociedade civil, junto a organismos internacionais, monitorarão esse tipo de ataque em um gesto de “resistência”.

“Sabemos que não teremos avanços nos Direitos Humanos, mas haverá um momento de resistência para que um dia possamos retomar o curso da historia em um processo de valorização da memória, verdade e justiça.”

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