o colunista

por Cleber Lourenço

19 de junho de 2019, 07h35

Entre melindres, Moro e um “Report”

Cleber Lourenço: “Existem dois nomes que, ao longo dos anos, se empenharam para acabar com a Lava Jato: Deltan Dallagnol e Sérgio Moro”

Foto: Eduardo Matysiak

Primeiro, gostaria de registrar uma queixa. Eu tinha um texto pronto para hoje, quando o The Intercept Brasil decidiu anunciar que teria mais um episódio da série mais polêmica de todos os tempos: A Vaza Jato.

Ruim para este que vos fala, bom para o Brasil. Em uma época em que temos uma justiça cada vez mais vesga, a verdade chega como um colírio.

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O vazamento trouxe a revelação (que francamente não me surpreende) de que o então implacável juiz Sérgio Moro não se sentia confortável em ver o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso arrolado na Lava Jato. Ao repreender o procurador Deltan Dallagnol ele disse:

‘Melindra alguém cujo apoio é importante’

A preocupação do juiz era em relação à uma estratégia dos procuradores da Gestapo de Curitiba que se baseava em “investigar“ FHC para dar ares de imparcialidade para a operação, que já era frequente alvo de acusações envolvendo parcialidade nos processos.

Mas a coisa toda não parou por aí. Em determinado momento das articulações, os procuradores decidiram deixar de lado o ex-presidente tucano, pois temiam que a defesa do FHC pudesse ser benéfica para outro ex-presidente, neste caso, Lula.

É de um absurdo sem tamanho! Mais uma vez a Lava Jato aparece trabalhando para acabar com a Lava Jato.

Bem, o diálogo revelado mostra aquilo que sempre falei no meu Twitter, a operação toda se tornou um partido, o Partido Lavajatista, com panfletagem e tudo mais. Tinham até mesmo “coligações” e preocupações com a opinião pública. Onde já se viu uma operação investigativa de combate à corrupção “fingir “que vai investigar alguém só para ficar bem na foto? E o dinheiro público empregado nessas operações de fantasia? Não seria corrupção de alguma forma? Queima de dinheiro dos contribuintes para sustentar um faz de conta!

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Antes fosse apenas a imparcialidade o problema, acontece que a LJ é um partido e o diretório é no prédio do MPF em Curitiba. E que por muito pouco não se tornou, de fato, um partido com a suposta fundação da Lava Jato que iria abocanhar os bilhões da Petrobras.

É tudo de uma precisão impressionante: prende-se o primeiro colocado nas pesquisas eleitoras e o juiz responsável pela prisão torna-se ministro do segundo colocado, que foi diretamente beneficiado pela decisão do juiz. Se isso não é política, então devo fechar esse blog.

Desafio os procuradores! Saiam do MPF! Se filiem ou criem um partido! Não façam de uma instituição de interesse público um partido.

A operação, que prometia varrer a corrupção do país, cresceu, ganhou apelo popular e, como tudo que ganha fama nesse país, decidiu entrar na política.

Faz anos, desde que trocaram as viaturas pelos palanques. Juízes, procuradores, delegados. Funções hoje secundárias perto do que realmente é feito hoje em dia. Política.

Já vimos isso antes, vazamentos seletivos. Basta pisar no pé da Lava Jato e rapidamente aparecerá uma gravação sobre você em algum lugar. Foi assim com Lula, Dilma, Reinaldo Azevedo e agora Toffoli.

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É uma espécie de Operação Bandeirantes (Oban) em pleno século XXI. Mas não é a primeira, nem a segunda é, tampouco, a terceira vez que a “Oban moderna” atua assim.

A agitação é tanta que o CNMP disse que iria apurar manifestações do procurador sobre a decisão do STF de transferir processos de Curitiba para Brasília, em entrevista à CBN, em agosto de 2018.

Acontece que o Partido Lavajatista entrou em 2019 com o olho em 2022 e, agora, fará tudo que estiver ao seu alcance para montar seu palanque.

O mais interessante é ver que, mesmo preso, eles enxergam Lula como um impeditivo para suas aspirações políticas. Este ano mesmo um delegado resolveu se comportar como uma espécie de Supremo. O policial federal levantou a absurda interdição para que os jornais Folha de S.Paulo e El País não entrevistassem Lula na cadeia.

Onde estão agora Danilo Gentili, revista Crusoé e o forasteiro Mainardi? Bem, pelo visto censura boa é aquela que não os atinge. Uma vez que liberdade de expressão para estes se resume a discursos descabidos de ódio, agitação social e qualquer outro absurdo que não faça bem para a sociedade brasileira.

Ano passado o coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato no Ministério Público Federal (MPF) do Paraná, o procurador Deltan Dallagnol, foi tido, inclusive no meio político do estado, como possível candidato ao Senado. Na ocasião, negou a possível candidatura, mas nunca negou que um dia fosse candidato.

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Vejam só, (MAIS UMA VEZ) se um juiz que prendeu o oponente político do atual presidente do país pode se tornar ministro, que mal há em um procurador que vive da agitação também pleitear uma boquinha na política? Afinal de contas, o país já se tornou uma verdadeira esculhambação.

Já temos o direito penal normal e o direito penal dos inimigos e excluídos do rei. Já temos um presidente que transformou o Palácio do Planalto em um verdadeiro cortiço e um ministro da Justiça que não vê mal em legalizar a barbaridade.

Pelo visto, tivemos até hoje o judiciário usando os tribunais como palanque e trampolim, promovendo o linchamento em praça pública e todo tipo de escrutínio.

Falarei mais uma vez: existem dois nomes que, ao longo dos anos, se empenharam para acabar com a Lava Jato: Deltan Dallagnol e Sérgio Moro.

Para encerrar, deixo algumas reflexões sobre o print a seguir:

Foto: Reprodução

Sobre o que seriam as palavras em inglês? Sobre o que o procurador e com quem o procurador falava sobre o tal “brazilian progressive”?

Deltan ainda disse antes:

Dallagnol – 01:53:59 – segue artigo com atualização dos números de presidentes investigados e presos. Faltam estados do BR, que terei na segunda.

Seria um relatório? Para quem o procurador estaria se reportando? Seria um artigo para onde? Algum texto? Alguma entrevista? Dúvidas no ar.

Qual o sentido de fazer notas/relatórios em inglês? Vale ressaltar que este diálogo é posterior a uma conversa sobre ex-presidentes progressistas.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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