Entrevista – Bielorrússia na mira do Ocidente (II)

Confira a segunda parte da entrevista com Paulo Henrique Tavares, ativista e doutorando que vive atualmente na Bielorrússia, país a quem o Ocidente atribui uma grave crise política.

(Continuação da entrevista com Paulo Henrique Tavares)

YMF: A economia da Bielorrússia se manteve em grande medida planificada depois do fim da Era Soviética. Você poderia detalhar algo sobre esta planificação? Em que áreas ela é mais impactante (Educação, Saúde, energia, água)?

PHT: O fato de a tentativa de golpe aqui ter sido mal sucedida se deu exatamente porque a maior parte da economia, especialmente dos setores estratégicos, está nas mãos do Estado. Para se ter uma ideia, todos os bancos são necessariamente estatais. As principais pautas de exportação aqui são tratores, metalurgia, indústria química, refinarias, energia e indústria nuclear. E tudo está sob controle estatal. Esse é o principal conflito com os liberais. Ou melhor, neoliberais.

O aluguel de um apartamento mediano, custo que no Brasil atola até mesmo a classe média, sai por uns 800 reais em Gomel, enquanto em Minsk sai por uns 1.200. Mas, a maior economia da população está mesmo nos subsídios do Estado a todas as demais despesas essenciais, como luz, água fria e quente, aquecimento (vital nestas terras geladas) e condomínio, que não passam de 120 reais (enquanto no Brasil, com este dinheiro, você paga apenas água e um botijão de gás).

Os ensinos Fundamental e Médio são totalmente gratuitos e de qualidade. As universidades são gratuitas, dependendo das notas dos exames, mas, mesmo quando pagas, são bastante baratas. A Saúde também é gratuita e muito mais abrangente que o nosso Sistema Único de Saúde, ainda que tenha seus problemas, como por exemplo, você ter que pagar pela injeção tomada.

Foto: Estação Ferroviária na Bielorrússia (Paulo Henrique Tavares).

Andar pelas cidades bielorrussas, especialmente Minsk, para brasileiros, como nós, é como passear no paraíso. Tudo limpo, bem cuidado. Aqui o Estado cuida até das fachadas dos prédios. O transporte público funciona extremamente bem, pontual, rápido e barato. Uma passagem de metrô em Minsk custa R$ 1,50 e o ônibus R$ 1,20. Já o ônibus ou trem de longas distâncias custam uns 30 reais, para percorrer 300 km.

O salário médio aqui deve estar por volta de uns 2400 reais (1200 rublos bielorrussos, ou 400 euros). Já o salário mínimo é de aproximadamente 850 reais.

Quanto à alimentação básica, fator que alguém de esquerda, progressista e que clame pela “democracia” não deve se esquecer de considerar, por aqui, é bem barata. A cesta básica é assim. Ela não passa por arroz e feijão, mas como é costume na Europa. Se come batata (ingrediente de diversos pratos), além de legumes, laticínios, sopas. Naturalmente, que num país temperado, os preços dos alimentos oscilam. Em outubro começa o frio, que vai firme até abril. O preço do quilo da batata vai de 1 a 2 reais. Mas a alimentação do dia a dia [1], de modo geral, é mais barata, até mesmo em relação ao Brasil, quanto mais se comparada à caríssima Europa Ocidental.

O tomate e o pepino, por exemplo, saem por uns dois reais o quilo. Com eles, se faz uma conserva em vasilhas de vidro com água salgada, que se come durante o inverno. Um quilo de carne de porco custa o mesmo que no Brasil, uns 20 reais. O mesmo se dá com o frango, 10 reais. As frutas daqui, como a maçãs e a peras, saem uns 5 reais o quilo, como no Brasil. Mas o pão é muito mais barato: cerca de 2 reais. Há também a smetana, comida típica daqui, que é um tipo de laticínio denso e gorduroso, que o povo mistura na sopa. Se come bastante iogurte com a comida salgada. E também é bastante barato.

YMF: Quem são os manifestantes? De que classes sociais é a maioria deles? E em linhas gerais, o que estão reivindicando?

PHT: O que percebi do perfil dos manifestantes é que são pessoas em geral de classe média e jovens. Por isso, é que esses protestos quase que se limitam somente a Minsk. Mas na Bielorrússia, diferentemente do Brasil, não se consegue distinguir a classe social das pessoas pelo rosto ou pele, ou como no caso dos países ricos ocidentais, pelo contraste étnico com os estrangeiros serviçais. Aliás, em parte, aqui, a baixa desigualdade é expressa exatamente pelo fato de você não conseguir distinguir isso. Veja esta história: um parente de minha companheira foi preso por usar drogas sintéticas. Um garoto de 20 anos e que deve pegar muitos anos por essa bobagem. Fui visitá-lo na cadeia e notei que simplesmente todos os presos se parecem àqueles atores dos filmes comerciais de Hollywood, ou das novelas da Globo. Todos loirinhos de olhos azuis – e em cana. Aliás, muitos deles presos pela mesma bobagem.

Quanto às demandas da oposição, se parecem com os discursos lavajatistas. Oficialmente, só batem na tecla do “fim da corrupção” e de “eleições sem fraude”. Veja a página da Svetlana Tsikhanouskaya [2], só há aquelas propostas abstratas, demagógicas, sem projeto nem planejamento, com frases de efeito como “melhorar a educação”, “lutar pelas crianças”, “pela justiça”, transformar a Bielorrússia em “uma nação amiga de todos”, “acabar com a corrupção” e outras superficialidades. Claro que nas questões que interessa, ela não entra, se esquiva, se esconde. Enfim, o projeto dela, até agora, é ser esposa de um blogueiro reacionário financiado pelo Ocidente.

Foto: Ativista Paulo Henrique Tavares (Arquivo pessoal).

Já seus seguidores quem são… Na prática, a classe média insatisfeita, sobretudo em tempos de crise mundial do capitalismo, iludida com o suposto “padrão europeu”. Conversei com alguns e o argumento deles é que “o salário médio na Europa” (qual “Europa”, para começo de conversa?) é de 1200 euros, enquanto aqui é entre 300 e 400 euros. Mas eu sempre pergunto a estas pessoas: quanto custa uma passagem de metrô, uma conta de luz, os impostos, aluguel, etc, em euros? Em resumo, eles querem ter salários em euros, mas que as contas milagrosamente continuem em rublos (1 rublo local vale 2 reais).

Ocorre que muitos destes jovens, aliciados por gente irresponsável e gananciosa, não sabem que há duas décadas o governo Lukashenko salvou a Bielorrússia de ser um país em guerra, rachado, dominado por mafiosos, cheio de prostitutas, sofrendo de fome, perdendo população com a imigração em massa.

YMF: E os trabalhadores, os partidos socialistas, trabalhistas, como têm se posicionado?

PHT: Não existem muitos apoiadores entusiastas de Lukashenko, pois a situação econômica não está fácil (como no mundo inteiro). As pessoas veem o Lukashenko como um mal menor. Só que ele comete um erro mortal, que é tentar agradar a gregos e troianos (UE e Rússia). Ele sempre tentou tirar o máximo de proveito tanto do Ocidente, quanto da relação com os russos.

Além disso, ele tem um aspecto nacionalista e costuma boicotar os movimentos e partidos que desejam uma maior integração com a Rússia. No conflito russo-ucraniano pela Crimeia, Lukashenko não reconheceu a península como russa e sempre criticou os separatistas ucranianos, que não aceitaram o golpe, de orientação neoliberal e mesmo fascista. Ainda reconheceu o governo golpista de Poroshenko, em troca de alguns trocados nas transações comerciais com a Ucrânia (o que aumentou bastante após o golpe, dado o afastamento com a Rússia).

A única salvação que vejo para a Bielorrússia é aumentar a integração com a Rússia. Porém, Lukashenko não respeita uma série de acordos com Moscou, e volta e meia a Rússia interrompe as fronteiras. Ele a meu ver exagera um pouco neste seu ideário de independência. Exige uma série de contrapartidas da Rússia, que Putin não está mais a fim de conceder, especialmente porque percebeu que tais facilidades dadas aos aliados bielorrussos estavam se convertendo em benefícios à traidora Ucrânia, hoje nas mãos da OTAN.

Mas depois deste “susto”, quem sabe o Lukashenko entenda que não existem caminhos intermediários neste contexto político. Ou ele busca uma maior integração com a Rússia, ou tende à ucranização neoliberal (se não fascista, que afinal, não é muito diferente hoje em dia). Isto porque a dependência energética da Rússia é total. Apenas a Bielorrússia paga a Moscou um preço subsidiado pelo gás e petróleo (como se fosse parte do próprio território russo), algo bem abaixo do preço de mercado. Aí, o que fazia era pedir muito mais gás e petróleo do que efetivamente o país consumia, para depois revender para os vizinhos (como a Ucrânia), a preço de mercado. A Rússia fazia vistas grossas, mas agora se levantou contra isso. Não porque a Bielorrússia se beneficie, mas porque estava beneficiando a Ucrânia.

Quanto aos trabalhadores, eles não saem às ruas em defesa do Lukashenko porque, na política, o jogo é bruto e a crise mundial segue fazendo suas vítimas. Como eu dizia, tudo que Lukashenko fez nestas duas décadas pelo país, perdeu muito de seu valor, principalmente para as novas gerações. As pessoas sempre querem mais, especialmente quando elas não são suficientemente politizadas, não discutem política, não praticam política, não estudam história.

Agora, essa política de tentar agradar ao Ocidente e à Rússia entrou em colapso, porque o Ocidente quer alguém que afaste definitivamente Minsk de Moscou. E a qualquer custo. O povão não se anima em ir às ruas, mas faz o cálculo: “eu não quero mais o Lukashenko, mas menos ainda essa direita que quer colocar o país em guerra, como na Ucrânia”.

Mas acredito que domingo (25/10) foi o último suspiro dos liberais pró-Ocidente. Com as ameaças ingênuas de Svetlana de parar o país caso ele não “entregasse o poder”, parece-me que Lukashenko ficou politicamente maior do que já era. Saiu fortalecido. Só acho curioso que ele não tenha convocado protestos a seu favor. Se ele fizesse isso, muita gente iria agora para as ruas. Nos meios populares, há muitas críticas aos protestos, que podem dividir o país e mergulhá-lo numa guerra de todos contra todos. Por isso, a situação da oposição, na prática, ficou muito pior. Sua rejeição aumentou e a de Lukashenko diminuiu.

Referências

[1] https://evroopt.by/redprice/vse-tovary

[2] https://tsikhanouskaya2020.by/moya_programma

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Yuri Martins-Fontes

Filósofo e doutor em história econômica pela Universidade de São Paulo, pesquisa o pensamento e literatura latino-americanos, os movimentos sociais, a ética marxista e os saberes originários. Exerce atividades também como professor, escritor, tradutor e jornalista. Coordena projetos de educação popular e formação política do Núcleo Práxis da USP. É autor do livro “Marx na América: a práxis de Caio Prado e Mariátegui”, dentre outros. Desde 1999 colabora com a mídia independente; é colunista da Revista Fórum e da Agencia Latinoamericana de Información.