Notas Internacionais

por Ana Prestes

25 de fevereiro de 2019, 11h57

EUA, Colômbia e Brasil usaram “ajuda humanitária” como arma política contra Maduro

Ana Prestes, em novo texto, "o dia 23 passou longe do que americanos e a oposição instrumentalizada ao governo venezuelano projetaram para o mundo"

Continua a tensão na Venezuela, mas o dia 23 passou longe do que americanos e a oposição instrumentalizada ao governo venezuelano projetaram para o mundo. Ficou demonstrado que EUA, Colômbia e Brasil usam a “ajuda humanitária” como arma política contra Maduro. Na verdade, o que se formou foi um cerco que de “humanitário” só tem a fachada. Os mantimentos e medicamentos não estão sendo enviados por solidariedade, mas como forma de forçar a entrada violenta em um país soberano. Virou piada nas redes a foto de um precário caminhão brasileiro, com mantimentos mal acochambrados na carroceria e sinalizado com uma pequena bandeira brasileira. Símbolo do arremedo de uma ajuda humanitária “fake”. Toda a imprensa mundial foi obrigada a televisionar o discurso de Maduro em praça pública no sábado, enquanto preferiam estar televisionando um assalto ao palácio de Miraflores.

Breve resumo dos acontecimentos do sábado 23

O dia começou com um “falso positivo” no estado de Táchira, fronteira com a Colômbia, em que dois veículos blindados venezuelanos tomados por infiltrados se dirigiram pela ponte Simón Bolivar em direção à Colômbia. Em seguida a vice-presidente venezuelana Delcy Rodriguez anunciou fechamento total por tempo indeterminado da fronteira com a Colômbia. Enquanto isso, no Brasil, saiam de Boa Vista dois caminhões com mantimentos em direção à fronteira com a Venezuela em Pacaraima. O chanceler Ernesto Araújo também foi para o local. Na noite anterior, via twitter, Bolsonaro havia anunciado o envio dos caminhões.

Ainda pela manhã, secretário geral da ONU se posiciona dizendo estar preocupado com o “uso político” de uma suposta “ajuda humanitária”. Venezuelanos mobilizados pela oposição tentam romper o fechamento da fronteira em Ureña, na divisa com a cidade colombiana de Cúcuta. Presidente boliviano Evo Morales se pronuncia em defesa do multilateralismo e do diálogo. Reunidos em Cúcuta, fantasiados de branco, o autoproclamado presidente encarregado venezuelano Juan Guaidó, o presidente chileno S. Piñera, o presidente paraguaio Mario Abdo, o anfitrião Ivan Duque, o secretario geral da OEA, Luis Almagro e Elliot Abrams, enviado especial dos EUA, dizem que “evitar que chegue ajuda é um crime de lesa humanidade”. Da ponte Tienditas na Colômbia saem 14 caminhões, conduzidos por venezuelanos, rumo à Venezuela.

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Enquanto isso, o chanceler venezuelano Jorge Arreaza está na ONU com representantes de 60 países membros das nações unidas formulando um plano de sete ações concretas para uma solução ao conflito. Às 11h da manhã se iniciou uma marcha pela paz em Caracas. Às 11h40 Guaidó faz um apelo via twitter dizendo que na condição de “Comandante em Chefe da Força Armada Nacional” deixa sem efeito a qualificação de “Traidores da Pátria” aos militares que cruzarem a fronteira. Perto do meio dia, Guaidó escreve no twitter que o primeiro caminhão com mantimentos havia ingressado na Venezuela pela fronteira com o Brasil (o caminhão que virou piada nas redes), mas a informação era falsa. Também perto do meio dia, Diosdado Cabello, presidente da assembleia constituinte, informa que qualquer soldado estrangeiro que cruzar a fronteira será considerado invasor.

Às 13h o presidente Maduro se pronuncia em praça pública de Caracas e toda a imprensa internacional é obrigada a cobrir seu discurso. No início da tarde, um barco vindo de Porto Rico, tenta se aproximar do porto de Carabobo na Venezuela para ingressar com “ajuda humanitária”. Às 14h, o governo russo faz um apelo ao Conselho de Segurança da ONU para atuar no caso da provocação contra a Venezuela. Também por volta desse horário, o governo Maduro anuncia rompimento de relações políticas e diplomáticas com a Colômbia. Durante a tarde, na fronteira com Cúcuta caminhões com carregamento de mantimentos são queimados. Dá-se início a uma controvérsia sobre quem queimou os caminhões. Às 15h43, o vice-presidente americano Mike Pence, vai ao twitter dizer “Para Juan Guaidó e todo o povo da Venezuela que se levanta por liberdade e alívio humanitário: estamos com vocês”. Minutos depois, às 14h59, Jair Bolsonaro vai ao twitter e diz em espanhol: “Força a nossos irmãos venezuelanos! Deus no comando!”.

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Às 17h, o governo colombiano anuncia a retirada de seu pessoal diplomático da Venezuela, após o rompimento de relações anunciado por Maduro e com prazo de 24 horas para que deixassem o país. Também no fim da tarde circula uma foto da ponte Francisco de Paula Santander, na fronteira entre Ureña e Cúcuta desmentindo a informação de que a Guarda Nacional Bolivariana havia incendiado caminhões. Perto das 18h, o Brasil recua com os caminhões posicionados na fronteira com a Venezuela.

Um pouco mais tarde, o chanceler colombiano também anuncia o recuo dos caminhões de “ajuda humanitária” posicionados em Cúcuta, até que recebam “um novo pedido de ajuda do presidente Guaidó”. Perto das dez da noite, Guaidó se pronuncia e diz que vai “apelar à comunidade internacional” que devem estar “abertas todas as opções” com relação à Venezuela, leia-se: intervenção militar. Fracassou pela segunda vez em 2019 a tentativa de golpe.

No domingo (24) houve tensão na fronteira entre Brasil e Venezuela, em Roraima, onde manifestantes venezuelanos protestavam do lado brasileiro da fronteira e membros da guarda nacional venezuelana posicionaram veículos antidistúrbios.  Bombas de gás lacrimogênio foram jogadas atingindo o lado brasileiro. Militares brasileiros estariam dialogando com o lado venezuelano para baixar a tensão. Foi também pela fronteira do Brasil que entraram três militares venezuelanos desertores no mesmo domingo (24).

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O vice-presidente Hamilton Mourão vai participar hoje (25) da reunião do Grupo de Lima na Colômbia cujo tema é a situação da Venezuela. Em entrevista ao G1, o militar disse que o Brasil manterá a linha “de não intervenção” e de “pressão diplomática” sobre Maduro. “Vamos manter a linha de não intervenção, acreditando na pressão diplomática e econômica para buscar uma solução. Sem aventuras”, nas palavras de Mourão. O Grupo de Lima é formado por 14 países, dos quais o México reconhece Maduro.