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06 de dezembro de 2018, 16h37

Andras Uthoff: “Previdência chilena, que deve servir de modelo para Bolsonaro, é um desastre”

Hoje aproximadamente 79% dos chilenos aposentados recebem menos do que um salário mínimo por mês, enquanto 44% deles estão abaixo da linha pobreza

Foto: Reprodução/TV Globo Por Fabio Dorneles Professor da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade do Chile e Conselheiro da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Andras Uthoff, esteve nesta terça-feira (4), em São Paulo, para participar de seminário organizado para uma plateia formada por dirigentes sindicais e representantes dos movimentos sociais pelo escritório Crivelli Advogados. A proposta era que falasse do sistema previdenciário de seu país, que deve servir de modelo para a reforma da previdência proposta por Jair Bolsonaro (PSL). Especialista no tema e um dos principais críticos do modelo, Uthoff explicou que em 1981 o Chile – sob o...

Foto: Reprodução/TV Globo

Por Fabio Dorneles

Professor da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade do Chile e Conselheiro da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Andras Uthoff, esteve nesta terça-feira (4), em São Paulo, para participar de seminário organizado para uma plateia formada por dirigentes sindicais e representantes dos movimentos sociais pelo escritório Crivelli Advogados. A proposta era que falasse do sistema previdenciário de seu país, que deve servir de modelo para a reforma da previdência proposta por Jair Bolsonaro (PSL).

Especialista no tema e um dos principais críticos do modelo, Uthoff explicou que em 1981 o Chile – sob o comando de Augusto Pinochet – dissolveu a previdência pública do país e instituiu a previdência privada para todos, gerenciada por administradoras de fundos de pensões (AFP). Nesse formato, os contratos de contribuição são individuais obrigatórios para os trabalhadores, mas não para as empresas.

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O problema é que – ano após ano – com as instabilidades do país, as crises econômicas e o desemprego fizeram com que as pessoas não conseguissem mais contribuir, ficando sem uma garantia para a velhice. E aqueles que ainda conseguem, chegam ao final da vida com aposentadorias absurdamente baixas.

Uthoff afirma que hoje aproximadamente 79% dos chilenos aposentados recebem menos do que um salário mínimo por mês, enquanto 44% deles estão abaixo da linha pobreza. “O modelo de previdência chileno é um desastre. Quem não tem emprego não tem nada. E o Estado – que deveria se preocupar com a população – só regula e observa a concorrência das AFPs. Não há uma preocupação com o cidadão e nem se ele vai receber uma boa aposentadoria”, explica.

Apesar de se revelar um mau negócio para o povo, a previdência chilena tornou-se um excelente negócio para as empresas financeiras. Segundo Uthoff, 75% do PIB do país são de ativos pertencentes aos trabalhadores e administrados pelas AFPs. Ele destaca ainda que o lucro das AFPs corresponde a 25% dos ativos por ano, o que lhes permite recuperar seus investimentos a cada 4 anos. “As administradoras de fundos de pensões nunca perdem. Todo esse montante é investido no interesse de grandes grupos. Havia a promessa de boas aposentadorias e o que temos hoje são excelentes negócios. No meu país foi criada uma indústria financeira que só se preocupa com o lucro”, pondera.

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Andras Uthoff diz que soube pela imprensa da intenção do presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, copiar o modelo de previdência de seu país. Entretanto, acha improvável. O primeiro ponto, segundo ele, é a alta quantidade de desempregados que há no Brasil, o que inviabilizaria a mudança. Depois, pelo alto custo da transição. Uthoff destaca que até hoje a população chilena está pagando pela troca.

Sócio do escritório Crivelli Advogados, Ericson Crivelli também afirmou não acreditar que o futuro governo possa ser capaz de aplicar um modelo de previdência como o chileno. “Esse não é um modelo para o Brasil. Seria um desastre elevado ao cubo”, destaca.

Ele lembra que no passado o Chile colocou em prática uma forte política neoliberal de privatizações e redução de gastos, o que prejudicou setores sociais. “Pensar que um cenário desses é possível é imaginar que o governo irá trabalhar fora da regra. Por hora eu não acredito nessa mudança, mesmo com todo o excesso de farda e toga que há no primeiro time do governo. Acho que não chegamos nesse ponto”, finaliza.

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