Fórumcast #20
31 de janeiro de 2018, 19h01

Resumos e críticas sobre a condenação de Lula (ou a do povo?)

“O escárnio televisionado para o mundo me faz pensar e refletir. Quem foi condenado no dia 24 de janeiro de 2018? Será que aqueles três senhores estavam a serviço da justiça ou apenas lendo um texto pronto de crucificação?”. Confira o relato de Eduardo Matysiak, que foi a Porto Alegre e acompanhou de perto as mobilizações em defesa do ex-presidente Lula 

Por Eduardo Matysiak*

Demorei para fazer uma análise sobre a bizarra cena televisionada que presenciamos no último dia 24. Cheguei a Porto Alegre no dia 23 pela manhã — estava colaborando com a revista Fórum —, não fazia sol nem chuva. Era um tempo cinza e seco. Milhares de gaúchos ofereceram suas casas para abrigar os integrantes das várias caravanas que tomaram conta da capital gaúcha e eu fiquei na casa de uma família incrível que me fez sentir o verdadeiro sentido da política e da partilha.

Sobre o julgamento, nunca botei fé nos senhores desembargadores. Por quê? Porque um é compadre do juiz Moro e outro adiantou o processo centenas de vezes. Eles precisavam condenar Lula por pressão, por vergonha e medo.

O dia 23 foi repleto de manifestações em apoio ao ex-presidente Lula: eram cerca de 70 mil pessoas — entre elas, artistas, intelectuais, juristas, autoridades, estudantes, professores e os mais diversos movimentos sociais —, todas com o objetivo de defender a democracia e garantir o direito de Lula ser candidato.

As pessoas que aguardavam a presença do suposto “réu” na esquina democrática empunhavam bandeiras e gritavam palavras de ordem, entre elas, uma frase se destacava: “Cadê a prova?”.

Lula foi ovacionado quando chegou, levado pelos braços do povo enquanto os nobres doutores eram escoltados pela polícia e desacreditados pelo mundo. Eu estava exausto, porém me sentia pleno por estar do lado certo, estar ao lado de Lula me fazia sentir que cumpria o meu papel como cidadão.

Lula fez questão de passar por Porto Alegre para agradecer às milhares de pessoas que tomaram conta das ruas e praças da cidade, depois seguiu para São Paulo, onde iria acompanhar o tal julgamento.

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Na manhã do dia 24, acordei e segui para o Acampamento da Democracia. Lá, várias pessoas participavam de uma vigília e a senadora Gleisi Hoffmann discursava para a multidão, no mesmo momento em que o ator — digo, o desembargador — João Gebran Neto concluía seu voto.

Em seguida, voltei para a hospedagem, onde tomei um bom banho e liguei a TV para acompanhar o pseudo-julgamento. Era encenação pura: os homens da toga seguiam à risca o papel que provavelmente um assessor ruim escreveu. Os olhares e as lições de moral eram de dar náuseas, não tinham contexto algum. Parecia um filme de roteiro ruim, com péssimos atores que não escondiam o combinado, porém algo estava faltando: o clímax.

Não existiam provas materiais de consistência e eles precisavam de alguma coisa para incriminar Lula. Como tentaram de várias formas e não acharam nada, o resultado foi criar esse roteiro ruim sobre o tríplex que, de longe, é um dos piores já vistos no país. O objetivo é apenas impedir Lula de ser presidente, pois essa gente quer um cara fraco, que possa ser manipulado e que sirva apenas ao mercado. O dinheiro manda e o mercado não está preocupado com a saúde, a educação ou qualquer coisa necessária de fundo social.

Os nobres enalteciam o trabalho do juiz de primeira instância — coisa que jamais deveria acontecer, já que é fora da ética tecer elogios ao magistrado, o mesmo magistrado que divulgou conversas do ex-presidente Lula com a chefe de estado, presidenta eleita na época, Dilma Rousseff. Depois disso, o mínimo era ter sido afastado ou suspenso, sendo declarado impedido.

O senhor juiz pediu desculpas e continuou a perseguição voraz contra a sigla do PT. Enquanto Serras, Aécios, Temers e Richas continuam por aí, um homem era posto à prova, mas não um homem qualquer: um nordestino porreta que não se deixa levar. O julgamento terminou e o final todos já sabiam, pois spoilers não faltaram durante as investigações. No decorrer dos depoimentos, sempre ficou claro que o objetivo era condenar Lula, e o PowerPoint do despreparado Deltan Dallagnol já ditava a regra: condenar sem provas.

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Condenaram Lula por crime nenhum. E o povo foi condenado e a justiça fraca e falha, que já é desacreditada, mais uma vez provou a quem serve. Imagine você ser condenado por algo que não fez?

Mais uma vez a Constituição foi rasgada e usada como papel higiênico. A asquerosidade reinou nos jornais e teve até Reinaldo Azevedo, criador do termo “esquerdopata”, criticando a frágil condenação de Lula.

O escárnio televisionado para o mundo me faz pensar e refletir. Quem foi condenado no dia 24 de janeiro de 2018? Será que aqueles três senhores estavam a serviço da justiça ou apenas lendo um texto pronto de crucificação? Será que aquele tribunal julgou crimes ou apenas convicções baseadas em delações sem fundamento? Até que ponto a “justiça” foi feita? Fomos ao extremo abismo.

Agora uma reflexão:

Quem, afinal, foi condenado?

Condenamos a democracia

O pouco que restava dela. Após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, a chama da democracia quase se apagou e agora está frágil, porém resistindo. Para garantir que ela continue acesa precisamos ir às ruas.

Condenamos o Bolsa Família

O subsídio que fez o pobre comer mais de 3 vezes ao dia, que tirou milhões da extrema pobreza e trouxe dignidade ao povo brasileiro. Lembrando que muitos deixam de receber o auxílio por conta própria, e há quem diga que muita gente que recebe não precisa — sim, verdade, mas a fiscalização compete aos municípios. É engraçado que as pessoas critiquem o auxílio de R$100 e fiquem quietas com juiz recebendo auxílio-moradia de R$4500. O senhor justiceiro Marcelo Bretas entrou na Justiça para que ele e sua mulher recebessem o tal auxílio. (Auxílio-moradia é para quem não tem condição de ter teto, e eles podem até ser sem-teto… Sem teto salarial…)

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Condenamos o FIES

O programa que deu oportunidade ao filho do pobre de fazer faculdade, que tornou realidade o diploma de médico, advogado e tantas outras profissões.

Condenamos o Mais Médicos

O maior e melhor programa de saúde que esse país já teve, que trouxe atendimento humanizado ao povo. O objetivo era suprir a carência de médicos nos municípios do interior e nas periferias das grandes cidades do Brasil.

Condenamos o Universidade Sem Fronteiras

O programa que fez o filho do pobre viajar mundo afora para se especializar e trazer conhecimento para o Brasil.

Condenamos a Farmácia Popular

O programa que tinha como objetivo oferecer à população acesso a medicamentos considerados essenciais. O programa cumpre uma das principais diretrizes da Política Nacional de Assistência Farmacêutica.

Condenamos o Luz para Todos

Criado em 2003, o programa levou energia elétrica às regiões rurais e/ou às casas que ainda não a tinham. A iniciativa era coordenada pelo Ministério de Minas e Energia e levou luz para os mais longínquos lugares deste país.

Condenamos o ProUni
O programa que tinha como objetivo oferecer bolsas de estudos em instituições privadas.

Condenamos o Minha Casa, Minha Vida

Reduzir o déficit habitacional, garantir o acesso à casa própria e melhorar a qualidade de vida da população eram os objetivos do projeto. Considerado o maior programa habitacional da história, através de parcerias entre governo e cooperativas que subsidiavam o valor do imóvel, cabendo às famílias o pagamento mensal de um valor simbólico, o programa fez milhões de famílias realizarem o sonho da casa própria.

Eu demoraria anos para escrever todos os acertos dos governos do PT.

Será que somos contra a corrupção ou contra Lula? Alguém, por favor, me diz de onde vem esse ódio?

E, senhores:

Lula

Se preso, vira herói.

Se morto, vira mártir.

Se livre, vira presidente.

*Eduardo Matysiak é fotojornalista e produtor cultural. Colabora para diversos veículos de comunicação entre eles Mídia Ninja, Revista Fórum e Sul21

Foto: Ricardo Stuckert


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