Eleição de 2018 é a mais fragmentada desde a redemocratização, dizem cientistas políticos

Muitos concorrentes, um presidente impopular e a economia em frangalhos - cenário armado delineia eleição mais apertada e fragmentada desde 1985, dizem Celso Barros, sociólogo pela Universidade de Oxford e José Álvaro Moisés, professor de Ciência Política da FFLCH/USP

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“A política é a arte da imprevisibilidade”, diz o cientista político José Álvaro Moisés, do Departamento de Ciência Política da FFLCH/USP. A frase de efeito veste bem o cenário das eleições de 2018. Assim como Moisés, Celso Rocha de Barros, doutor em Sociologia pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, enxerga semelhanças entre o pleito de 2018 e a eleição de 1989, a primeira realizada no Brasil desde 1960. “Temos um governo extremamente impopular e uma economia em frangalhos”, completa Barros, ao comparar o governo de Michel Temer e José Sarney - não por acaso, ambos do, hoje, MDB. Moisés acredita que esse cenário de descrença na classe política e condições socioeconômicas ruins pode facilitar o rompimento da polarização PT x PSDB, marca de todas as eleições ocorridas desde 1994. “São 14 candidatos e ao fim do primeiro turno, só três, quatro, serão competitivos. Pela primeira vez, a direita tem um candidato capaz de expressar as ideias que estavam escondidas ou envergonhadas” - o cientista político da USP se refere ao concorrente do PSL, Jair Bolsonaro. Barros diz que “é um erro subestimar Bolsonaro” e que Geraldo Alckmin, o candidato tucano, precisará fazer um embate direto com o ex-capitão do Exército se quiser ir ao segundo turno. “A briga entre Bolsonaro e Alckmin é um jogo de seis pontos - onde um vai tirar ponto do outro.” A metáfora futebolística de Barros é um modo de dizer que esses concorrentes vão brigar pelos tradicionais “30%” que votam na direita nas eleições brasileiras em primeiro turno. Para Barros, o maior desafio de Bolsonaro será conquistar mais 10% a 20% do voto moderado na segunda rodada - “ninguém ganha eleição no Brasil jogando apenas para a própria torcida”, diz o sociólogo. Moisés afirma que a falta de conhecimento de Bolsonaro nos assuntos básicos de uma eleição, como economia, saúde e educação, funcionam como um trunfo perante sua base eleitoral: “essa falta de embasamento de Bolsonaro acaba atraindo eleitores que não entendem bem o que acontece no Brasil desde junho de 2013 e estão descrentes e raivosos com a política”. O professor da USP diz que Alckmin precisará atrair os eleitores de Bolsonaro com propostas para a segurança e usar seus mandatos em São Paulo de modo a convencer que tem mais solidez que o rival.   Geraldo Alckmin fará uso de outra vantagem: o tempo de TV, diz Barros: “Ele montou uma coligação poderosa ao seu redor” -  tem generosos 5m30 de TV - 44% do tempo de horário eleitoral destinado aos candidatos a presidente. Bolsonaro, por sua vez, tem parcos 11 segundos diários e 5 inserções de 30 segundos por semana e aposta na Internet para chegar ao segundo turno. “Esse embate na direita vai nos mostrar quem influencia a eleição, a TV ou as redes sociais”. Pela esquerda do campo Os dos analistas também veem fragmentação do lado esquerdo do campo onde é jogada a eleição de 2018. Barros diz que a manobra do PT em atrair Manuela para a vice na chapa e a obtenção da neutralidade do PSB - tirando os socialistas de Ciro Gomes (PDT) foi bem executada. Mas é ousada e arriscada: “Se der certo, o campo da esquerda ganha a eleição e tudo se ajeita - um golaço. Se der errado, vai deixar o país mais um mandato nas mãos da centro-direita”. Para ele, a escolha da chapa Haddad-Manuela foi acertada: “Se para ganhar a eleição, é preciso conquistar votos também do outro lado do espectro político, essa chapa é mais consistente. Haddad fala mais ao eleitor não-petista. Jaques Wagner é mais um articulador político”, diz. Moisés discorda: "Apesar de Jaques Wagner não ter tanta projeção fora da Bahia, a dobradinha do ex-governador baiano com a deputada gaúcha seria mais atrativa”. Se não Haddad, Ciro é quem pode ir ao segundo turno pelo campo da esquerda, dizem os dois analistas políticos. “Ciro vai tentar se vender como uma esquerda mais moderada que o PT, diz Moisés. Ele flertou tanto com o PSB quanto com o chamado Centrão.” No entanto, o professor da USP diz que o maior inimigo de Ciro é ele mesmo: “Ciro tem propostas e é habilidoso, mas sua fama de destemperado é um tiro no pé”. “Ciro não admite ser coadjuvante - poderia ser vice na chapa do PT e ser cabeça da aliança em 2022, mas é um acordo que ele dificilmente aceitaria. Uma chapa dessa seria imbatível”, diz o docente da USP. Para Moisés, Ciro tem dificuldades em construir pontes e isso dificulta ao pedetista a obtenção do passaporte para o segundo turno. Para Barros, o pedetista torce por um cenário fragmentado. Num cenário com cinco ou mesmo seis candidatos competitivos, o patamar necessário para ir ao segundo turno fica mais baixo - um candidato com 15% poderia chegar ao pleito do dia 27 de outubro nessa circunstância. “Ciro fala bem e gosta do combate típico dos debates - a chance dele é a eleição não ficar polarizada entre PT e PSDB - com dois candidatos com índices acima de 20%, as chances dele são pequenas.” Alternativas Se o eleitor está mesmo cansado da polarização de PT e PSDB, por que uma terceira via, como Marina Silva (Rede), não decola? Para Barros, o impeachment foi danoso para Marina. “Ela sofre para conquistar eleitores fora do seu nicho (evangélicos e ambientalistas) porque é vista como ex-petista pela direita e, por outro lado, não consegue reter o eleitor de esquerda.” Moisés diz que o impedimento da candidatura de Lula por conta da condenação em segunda instância pelo TRF-4 no caso do tríplex e a consequente aplicação da Lei Ficha Limpa pode fazer que parte do eleitorado de Lula migre para Marina Silva. “Ela tem uma trajetória que lembra aspectos da trajetória de Lula - origem pobre, mística de pessoa ética e um recall de 20 milhões de votos." Mas ambos dizem que, assim como Ciro, Marina precisa fazer um esforço de articulação política e de interlocução com o Congresso. “A bancada da Rede é pequena e Marina vai ter que compor com PT e PSDB para evitar a armadilha da composição com o baixo clero da Câmara”, assinala Barros. Barros e Moisés veem com ceticismo as chances das duas outras candidaturas mais destacadas ao Planalto: Alvaro Dias (Podemos) e Henrique Meirelles (MDB). “O Dias criou um Centrão do B com a raspa deixada no tacho pelo Alckmin. Ele só se viabiliza se o Centrão o enxergar como alternativa ao Bolsonaro - uma espécie de voto útil da direita”, diz Barros. Para o professor da USP, Dias enfrenta dois problemas - ele não é uma novidade e está confinado ao Sul do país. “O caso dele me lembra um pouco o do Jaques Wagner, uma excelente liderança regional. Mas tem mais de 30 anos de política e não pode se vender como novidade ou outsider.” Já ao analisar a candidatura de Henrique Meirelles, o professor da FFLCH diz que o candidato do MDB tem o tempo como inimigo. “Ele precisa convencer os formadores de opinião a vendê-lo como opção e tem menos de dois meses para isso. São os formadores de opinião que fazem um candidato como ele se tornar conhecido para a base eleitoral.” Barros enxerga um único trunfo na candidatura de Meirelles - a capilaridade do MDB. “Eles têm 1500 prefeituras e alcançam todo o país. Só o PT chegou perto de rivalizar com isso, em 2003. É um grande ativo, mas Meirelles precisa contar com a diluição do voto da direita entre ele, Alckmin, Dias e Marina para desinflar Bolsonaro e ter alguma chance.”