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17 de junho de 2018, 02h43

Argentina já marcou gol antes mesmo de estrear na Copa

Ao cancelar um amistoso preparatório para a Copa do Mundo contra Israel, a seleção argentina demonstrou que o futebol tem, sim, o poder de influenciar no âmbito político: se jogasse, estaria passando ao mundo uma mensagem de “normalidade” em Israel. Ao negar a partida, deixa um recado de que a comunidade internacional não está alheia ao massacre de palestinos

Crianças palestinas agradecem Messi e a seleção por cancelarem jogo contra Israel em Jerusalém (Foto: Reprodução/Twitter)

A Copa do Mundo da Rússia já começou e a seleção da Argentina, antes mesmo de estrear, já marcou um gol. Palestinos comemoram mais que uma final de campeonato o fato de a Associação dos Esportes da Argentina (AFA) ter cancelado, no último dia 5, um amistoso preparatório para a Copa contra Israel que seria realizado no dia 9 de junho em Jerusalém. Esta seria a última partida da Argentina antes da estreia mas, para Israel, que não está no mundial, o jogo representaria muito mais: seria usado como comemoração do “70º aniversário do Estado de Israel” e, mais do que isso, seria uma arma política do estado israelense para passar uma sensação de normalidade com relação às atrocidades que cometem contra palestinos há décadas.

Mais do que isso, o jogo seria realizado em Jerusalém que, recentemente, foi reconhecida pelos Estados Unidos como a capital de Israel. A cidade é alvo de disputas entre israelenses e palestinos e representa o local onde centenas de palestinos foram mortos quando Israel começou a ocupar seus territórios. Uma dessas manifestações contra o jogo partiu de 70 crianças palestinas, que assinaram uma carta endereçada ao atacante argentino Lionel Messi, ídolo na região.

Chargista Vini representa criança palestina ao lado de Messi, ídolo na região. (Reprodução/Twitter)

“É lógico que Messi, o herói, venha a jogar em um estádio construído sobre os túmulos dos nossos antepassados? Nós, em nome de nossos amigos, oramos a Deus para que atenda nosso desejo de que Messi não parta nossos corações”, diz a carta.

A pressão contra a partida também ganhou as redes. Com a hashtag #NothingFriendly (em português, “não é nada amistoso”), centenas de ativistas, que não se restringiam aos palestinos, expressaram o seu repúdio contra a realização do “amistoso”.

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Entre as personalidades que endossaram os protestos contra o jogo está Yousef Munayyer, analista político palestino-americano que é diretor da Campanha dos Estados Unidos contra a Ocupação Israelense. Pelo Twitter, Munayyer escreveu: “Israel governa milhões de palestinos. Nega a eles direitos básicos e mantém esse regime com uso de força letal enquanto diz aos seus cidadãos: está tudo certo, isso é normal, vá a um jogo de futebol, um show… Bem, adivinhem. Não está certo e não é normal”.

Se jogo fosse realizado, Argentina se mancharia com o sangue dos palestinos

O ápice da campanha contra a realização da partida entre Argentina e Israel se deu no dia 4 de junho, na véspera do anúncio da AFA cancelando o “amistoso”. Dezenas de manifestantes pró Palestina encamparam um protesto em frente ao centro de treinamento onde estava a seleção argentina em Barcelona (Espanha). Eles carregavam camisetas da seleção de Lionel Messi manchadas de vermelho, representando o sangue de palestinos que morrem graças ao massacre promovido pelo estado de Israel.

O protesto foi incentivado pelo presidente da Associação Palestina de Futebol, Jibril Rajoub, que, dias antes, enviou uma carta a Messi pedindo para que o jogador não aceitasse jogar em Jerusalém. “O governo israelense transformou uma competição esportiva comum em uma ferramenta política. Agora a partida será disputada para comemorar o ’70º aniversário do Estado de Israel’, e será realizada em um estádio construído sobre Al Malha, um dentre pelo menos 418 vilarejos palestinos que foram destruídos por Israel 70 anos atrás”, escreveu Rajoub na carta endereçada ao ídolo do futebol.

Ativistas pró Palestina realizaram protesto com camisetas da Argentina manchadas de vermelho, simbolizando o sangue dos palestinos (Reprodução/Twitter)

Inúmeros relatos de jornalistas argentinos dão conta de que os próprios jogadores da Argentina não queriam participar do “amistoso”, incluindo o próprio Messi. Embora o jogador não tenha se manifestado diretamente sobre o caso, no entanto, palestinos e argentinos pró Palestina acreditam que os atletas tiveram peso na decisão da AFA, o que representa um balde de água fria ao estado israelense, que usa de shows de artistas globais e partidas de futebol para ser aceito como um membro regular da comunidade internacional, invisibilizando as atrocidades que comete contra o povo palestino.

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Se por um lado Messi não se pronunciou, de outro seu colega, o jogador e líder da seleção argentina, Gonzalo “Pipa” Higuaín, não teve receio de desmentir a Embaixada Israelense em Buenos Aires, que alegou, em um comunicado, que os jogadores argentinos decidiram cancelar o jogo por conta de ameaças vindas de palestinos à seleção como um todo e, mais especificamente, a Lionel Messi. A suspensão do jogo, de acordo com a embaixada, ocorreria por motivos de “segurança”. Higuaín, no entanto, refutou, chegando classificar como “apartheid” a maneira como Israel trata os palestinos.

“Ninguém ameaçou Messi, nem a Argentina. Os palestinos pleitearam o boicote, uma tática positiva, ética e efetiva para desafiar o apartheid e a opressão estatal de Israel. Não ir era coisa certa a se fazer”, disse à ESPN espanhola.

Carreira interrompida pela violência: o apelo de Muhammad Khalil Obeid

O gol marcado pela Argentina ao suspender a partida “amistosa” contra Israel se torna ainda mais importante na medida em que a opressão israelense contra palestinos se cruza, diretamente, com o futebol.

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Um dos apelos mais contundentes para que a partida não fosse realizada partiu de Muhammad Khalil Obeid, atleta palestino que, por conta da violência das forças israelenses, agora é um ex-jogador de futebol.

Com uma carreira promissora, Obeid, de 23 anos, defendia a equipe local do Al-Salah, mas teve que abandonar o futebol depois de ser alvejado por tiros durante um protesto pacífico.

No dia 30 de março, o atleta fazia um vídeo-selfie com o celular em uma manifestação de civis contra a ocupação de terras por parte de Israel na Faixa de Gaza, quando foi baleado, nos dois joelhos, por um soldado israelense. A ação foi filmada pelo próprio jogador.

Em 31 de maio, deitado na cama com os dois joelhos enfaixados, Obeid gravou um vídeo pedindo para que a seleção argentina, mais especificamente Lionel Messi, não realizassem a partida em Jerusalém.

Jogador palestino que teve a carreira encerrada por conta da violência das forças israelenses. (Foto: Eletronic Intifada)

“Eu peço à seleção argentina, especialmente ao capitão Lionel Messi, porque ele é muito popular na Palestina, na Faixa de Gaza, a ficar junto com os palestinos e boicotar o amistoso contra Israel, que está ocupando nosso território”, disse.

O vídeo, que choca pelo depoimento e pelas imagens da violência, viralizou e foi um dos grandes motes para a campanha #NothingFrindly, que culminou no cancelamento da partida.

Para o jovem Obeid, assim como para milhares de palestinos, não há dúvidas. Independente do resultado dos jogos da Copa do Mundo, a Argentina, com a atitude, já começou ganhando.


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