Fórumcast #19
20 de julho de 2018, 17h52

Bemvindo Sequeira: “Há uma carência que leva as pessoas a aplaudir certos imbecis”

Em entrevista à Fórum, Bemvindo Sequeira analisou o fenômeno de apresentadores e youtubers que se acham engraçados e influenciam milhões com discursos opressores. Para ele, há uma “carência” na sociedade que vem nos levando à “barbárie”. “Falam merda e depois pedem desculpas porque não sabem o que estão falando”

Foto: Reprodução/Facebook Bemvindo Sequeira

O Brasil vive um período, já há algum tempo, em que praticamente semanalmente uma pessoa influente na mídia tradicional ou nas redes sociais dissemina, sob o escudo do humor e da liberdade de expressão, discursos opressores, que vão do racismo ao machismo, da misoginia à homofobia, do elitismo ao antipetismo.

Mais recentemente, o fenômeno dos “digital influencer” das redes sociais tem gerado um intenso debate acerca do humor e seus supostos limites. São yutubers, tuiteiros, instagramers e outros que já ascenderam nessas plataformas com piadas que chancelam várias das opressões presentes na sociedade. Um exemplo recente, da última semana, é o caso do youtuber Jacaré Banguela que, pelo Twitter, publicou uma foto de Jaden Smith, filho de Will Smith, com a seguinte legenda: “Tenho quase certeza que o filho do Will Smith me pediu dinheiro ontem na esquina da Rua Haddock Lobo [famosa rua de São Paulo] dizendo que estava olhando meu carro”.

Na foto compartilhada o ator de Hollywood estava com seu filho assistindo a um jogo da Copa do Mundo da Rússia. Após a repercussão, Rodrigo Fernandes, conhecido como Jacaré Banguela, apagou a publicação, mas não pediu desculpas. “Bem, o que eu fiz tá feito e apagado. Agora o julgamento é com vocês. Discordo de algumas opiniões, mas o espaço está aberto e o debate sempre será livre. Bom dia.”, escreveu Fernandes.

Ao não reconhecer o racismo embutido em sua “piada”, Jacaré Banguela, que se diz “comediante”, passa uma sensação de que está tudo certo em se comportar desta maneira para seus mais de 500 mil seguidores no Twitter – a maior parte deles adolescentes.

Um caso parecido que aconteceu recentemente,  também relacionado à Copa do Mundo, é o de um outro youtuber, o Júlio Cocielo, que fez uma “piada” racista com o jogador da seleção francesa Mbappé. O jovem, neste caso, a princípio não reconheceu o racismo em sua frase, mas internautas vasculharam o seu Twitter e encontraram inúmeras outras colocações racistas do “influencer”, o que o obrigou a pedir desculpas e fez com que ele perdesse uma série de patrocínios e contratos publicitários.

Essa geração de youtubers tem muito em comum com outra geração de “humoristas”, que inclusive são tão ou mais influentes nas redes sociais, que não vem de hoje. Quem não se lembra de Rafinha Bastos afirmando que “comeria ela e o bebê”, se referindo à gravidez de Wanessa Camargo? Ou ainda de Danilo Gentili chamando uma doadora de leite materno de “vaca leiteira”, a comparando com um ator pornô?

Danilo Gentili faz meme tirando sarro das ameaças de processo (Reprodução)

Rafinha acabou entrando em um certo ostracismo. Já Gentili segue líder de audiência em um programa na TV, com milhões e milhões de seguidores nas redes sociais e com o mesmo discurso opressor. Recentemente, inclusive, a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) venceu na Justiça gaúcha uma ação por danos morais contra o apresentador por ele ter gravado um vídeo em que aparece insultando a deputada e esfregando em suas partes íntimas uma notificação extrajudicial que havia recebido por, também, ofender a parlamentar nas redes sociais. O típico gesto machista de Gentili foi aplaudido por seus seguidores e, em outras ocasiões em que foi processado, seguiu zombando dos ofendidos e da impunidade, já que tem como escudo um grande público que apoia suas ideias.

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Para Bemvindo Sequeira, ator e profissional do humor que acompanhou, ao longo de sua vasta carreira, inúmeras gerações de humoristas, o sucesso desses disseminadores de discurso de ódio vem de uma “carência” de educação e cultura aos jovens que está levando a sociedade brasileira a uma “barbárie”.

“Nós vivemos tempos de barbárie em que há sujeitos incultos que têm sua origem na falta de educação e cultura da nação brasileira. Há uma grande massa que ama esse discurso de ódio, que ama esse humor que é feito para baixo. Não é nem o humor escatológico, pornográfico, porque isso faz parte do humor, mas esse humor que vem dos chakras mais baixos do ser humano, que é fruto de carência total: carência de amor, de comida, de trabalho, de cultura. Há uma carência que leva as pessoas a aplaudir certos imbecis que acham que têm humor só porque falam merda”, disse em entrevista à Fórum.

De acordo com Bemvindo, que atualmente mantém o canal de humor “Sassarico do Bemvindo” no YouTube, muitos dos que hoje influenciam milhões nas redes sociais com discursos opressores se tornaram canais diretos, com o poder de alcance da internet, de discursos que antes ficavam restritos à “mesa do bar” mas que, pela falta de cultura e educação a que eles e outros jovens foram submetidos, sequer sabem sobre o que estão falando. “E aí fala merda e depois vem pedir desculpas (…) Se instaurou a educação pela pedra, em que tomando pedrada que se aprende a ter responsabilidade social”, analisa.

Bemvindo Sequeira em ação no seu canal do Youtube (Reprodução)

No auge dos seus 70 anos de idade, Bemvindo acredita que “não se pode se escudar na liberdade de expressão para humilhar o próximo, se colocar em posições anti-humanistas, quando a função do artista é ser humanista, estar ligado diretamente à elevação da alma, do progresso humano, e não do atraso”.

“O humor deveria agregar, e hoje não está agregando”, pontua.

Confira a íntegra da entrevista.

Fórum – Você já deve ter ouvido essa pergunta algumas vezes mas, acho importante fazê-la para abrirmos nossa conversa. Você acha que, diante de inúmeros casos que vemos de disseminação de ódio através de “piadas”, o humor tenha que ter limites?

Bemvindo Sequeira – Eu acho que deve haver limites para tudo. Na vida, inclusive. Sem limites nós vamos à loucura. Por isso, tem que haver limites no humor. O humor com discurso de ódio, discurso racista, discurso discriminatório, antissocial, tem que ser repudiado. Nós vivemos tempos de barbárie, em que há sujeitos incultos que têm sua origem na falta de educação e cultura da nação brasileira. Há uma grande massa que ama esse discurso de ódio, que ama esse humor que é feito para baixo. Não é nem o humor escatológico, pornográfico, porque isso faz parte do humor, mas esse humor que vem dos chakras mais baixos do ser humano, que é fruto de carência total: carência de amor, de comida, de trabalho, de cultura. Há uma carência que leva as pessoas a aplaudir certos imbecis que acham que tem humor, só porque falam merda.

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Fórum – Muitos desses ditos humoristas que disseminam discursos opressores são extremamente críticos ao conceito do “politicamente correto” e chancelam suas opiniões com o conceito de “liberdade de expressão”. O que você acha disso?

Bemvindo Sequeira – Eu acho que o politicamente correto é um saco, uma invenção americana. O que tem que haver um limite na sociedade. Não adianta passar a chamar tucano de ave aprumada do bico longo, continua sendo tucano. Por exemplo, estou vendo agora que não se pode mais usar o termo mendigo, que agora é morador de rua. Mas tem morador de rua que não é mendigo, e tem morador de rua que vive de mendicância, que não tem trabalho, família, não tem nada. Aí todo mundo vira morador de rua. Mendigo também é morador de rua, mas há uma diferença. Muda um termo. O politicamente correto não muda a essência das coisas, é uma questão de eufemismo tucano, na verdade é um tucanês, à esquerda. A esquerda critica o tucanês e pratica o tucanês à esquerda.

Agora, não se pode se escudar na liberdade de expressão para humilhar o próximo, se colocar em posições anti-humanistas, quando a função do artista é ser humanista, estar ligado diretamente à elevação da alma, do progresso humano, e não do atraso. Então, não faz sentido invocar a liberdade de expressão para fazer porcaria, ir contra a liberdade do outro.

O politicamente correto é muito chato no nosso país porque as pessoas são muito sectárias, você fala uma coisa, você vê gente te aplaudindo e automaticamente vira um magma social porque você usou uma expressão errada. Essa coisa de “lugar de fala” é uma coisa que eu não entendi até hoje. Qual é o lugar de fala? Gay só pode falar do gay. Quem pode falar claramente do gay é o gay. Aí você pega um gay que dissemina ideias do Bolsonaro. Então, esse lugar de fala do gay está correto?

Fórum – Na sua opinião, de onde vem essa geração de humoristas e ‘youtubers’ que ganharam fama com esse tipo de discurso?

Bemvindo Sequeira – Eu acho que isso vem da falta de limites, de vários lugares, de um inconsciente coletivo de vários segmentos. São pessoas que sempre quiseram se expressar dessa forma e não encontravam canal, então algumas pessoas passam a ser canal desse segmento. E tem outro lado que vem exatamente da barbárie que estamos mergulhados. Mas tem um contraponto. A turma do Parafernália, do Porchat, Porta dos Fundos. Então, há um contraponto humanista com relação a isso.

Agora, há uma juventude abestalhada, alienada por completo, que o Estado não lhe deu a cultura e a educação correta. Quando você vê adolescente espancando professor em sala de aula e fica por isso mesmo, você chega na barbárie, no fascismo, querendo ou não. Esse pensamento cresce e aí há segmentos que querem se expressar. Então, cria-se uma uma vocação para Bolsonaro. Então, vamos dizer o cara tem 6 milhões de seguidores, falando merda. Grande parte desses seguidores é de adolescentes que acham interessante falar merda, que acham interessante o discurso de ódio. Essas pessoas vão crescer, trabalhar, formar sua família, vão mudar sua maneira de pensar.

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Fórum – E como o humor pode se expressar no sentido contrário, de incluir e não segregar, de criar senso crítico e não despolitizador?

Bemvindo Sequeira – Eu acho que o humor é emoliente, ou seja amolece, ele amolece a rigidez. Ele integra. Quando você começa com politicamente correto você cria atritos em que você não pode falar nada, não se pode ter senso crítico, inclusive. Quando você não pode fazer piada sobre determinado gueto, aquele gueto está protegido da piada. Por exemplo, é um perigo fazer piada sobre ditadores, porque você acaba tornando eles simpáticos, acessíveis. O humor rompe uma barreira porque o humor agrega, o humor faz reconhecer o outro. Agora, se eu não posso fazer piada por conta do politicamente correto, você não consegue agregar. O humor pode ajudar do ponto de vista humanista, de compaixão pelo outro. É por empatia, é por simpatia. É por aproximação que o humor permite isso. O humor deveria agregar, e hoje não está agregando.

Fórum – Você acredita que é preciso que se estabeleçam mecanismos para coibir esse tipo de discurso no humor ou que basta o julgamento da sociedade?

Bemvindo Sequeira – Tem que haver o julgamento da sociedade, se não, é censura. Aí começam os fascistas na censura, os conservadores, os felicianos, os malafaiais.

Com relação aos processos judiciais, muitas vezes eles trazem ibope. Colocam lá 30 mil, 50 mil, cesta básica, como indenização. Ele [o humorista em questão] ganha muito mais que isso e isso acaba dando “ibope”. A gente vive em uma sociedade que até a propaganda negativa é importante porque dá visibilidade. É como falavam antigamente, “falem mal, mas falem do cinema nacional”. Tem que ter o julgamento da sociedade, quando um pseudo humorista diz que uma mulher é uma vaca leiteira porque ela doa leite para crianças, numa grosseria total, qual foi o resultado disso? Ele tá trabalhando lá nos Estados Unidos, fazendo outras coisas, porque não há lugar para ele aqui. Querendo ou não há um efeito. É uma questão de comportamento da sociedade. Tem que saber a hora de falar. Por exemplo, se eu fizer um show de humor hoje defendendo o Lula, defendendo o PT, ou contra Bolsonaro, vai ter cadeirada, espancamento da plateia. Tem que ter senso do momento do que você deve falar ou não. Querendo ou não, é um compromisso social…

Fórum – Acha que a internet amplifica vozes que antes ficavam restritas a alguns grupos?

Acredito, sim. Isso sempre existiu, acontece que são discursos que ficavam em uma mesa de bar. Agora o cara que falava isso para os amigos abre o Youtube e fala as besteiras que ele quer falar. Ele não tem nenhuma noção, ele não é profissional do humor. O humor é uma escola, uma tradição. Não é só sair falando que você vira humorista. Hoje as pessoas falam algo objetivamente para ser famoso, em 10 minutos, e tem 100 milhões de seguidores. Não é assim, é uma carreira que se constrói. E aí fala merda e depois vem pedir desculpas porque não sabe o que está falando. Se instaurou a educação pela pedra, em que tomando pedrada que se aprende a ter responsabilidade social.


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