Fórumcast #20
21 de dezembro de 2018, 18h09

Eleição de Bolsonaro é o “maior êxito” do plano contra governos progressistas nas Américas, diz Manolo Pichardo

Para presidente da Copppal, Sérgio Moro "desempenhou com mestria o papel que lhe foi atribuído nesse jogo conspiratório regional de múltiplas variantes". Apesar de tudo, ele crê que o momento é oportuno para que o campo progressista da América Latina se una e faça uma autocrítica.

Reprodução/Twitter

Presidente do Conselho Permanente de Partidos Políticos da América Latina e Caribe (Copppal), Manolo Pichardo aprendeu com o avô materno, Manuel – um carpinteiro com ideias progressistas, que presenciou a intervenção estadunidense na República Dominicana no início do século XX -, a desconfiar das políticas que eram ditadas pelo vizinho do norte.

VÍDEO: Político dominicano denunciou “Plano Atlanta” para derrubada de governos progressistas na América Latina

Denzel Washington (no detalhe) no filme O Vôo, gravado no Atlanta Marriot Marquis

Jornalista, envolveu-se com a política em 1979, foi deputado em seu país e o primeiro dominicano a presidir o Parlamento Centro Americano (Parlacen). Nutrindo relacionamentos nas mais diversas esferas políticas, Pichardo participou, em 2012, de uma reunião com ex-presidentes latino-americanos em uma suíte do Hotel Marriot Marquis – o mesmo onde foi gravado o filme O Voo (2012), com Denzel Washington -, onde ouviu de um ex-presidente sul-americano, em linguagem típica da Guerra Fria: “Como não podemos ganhar desses comunistas no processo eleitoral, compartilho o que segue”.

“Então, os detalhes foram resumidos em duas etapas. O primeiro visava iniciar uma campanha de descrédito contra presidentes de orientação de esquerda ou progressista para minar sua liderança. Para isso, ele alegou contar com parte da mídia. A segunda era transformar as manobras midiáticas em processos judiciais, que acabariam com mandatos presidenciais sem ter que recorrer ao voto popular que os instalou na administração dos Estados”, conta Pichardo, em artigo onde denunciou o que chamou de Plano Atlanta.

O que parecia uma teoria da conspiração foi ganhando a cada dia mais elementos da realidade que se impunha sobre os países da América Latina. A “joia da coroa”, segundo Pichardo, seria a prisão e a interdição eleitoral do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ocorreu neste ano de 2018.

Bolsonaro durante evento nos EUA (Reprodução/Youtube)

Em entrevista exclusiva à Fórum, Pichardo afirma que a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) para a Presidência do Brasil é “o maior êxito do Plano Atlanta” e representa “um triunfo das forças conservadoras alcançado, como já denunciado, através de uma aliança com a mídia e setores do judiciário”, em uma nova forma de fraude eleitoral, com aparente legalidade.

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Para Pichardo, a já anunciada falta de prioridade do governo Bolsonaro nas relações com a América Latina está alinhada à dinâmica da Casa Branca de “dinamitar os processos de integração, enfraquecer nossas economias e reduzir a influência do Brasil na arena internacional”, especialmente no campo multilateral.

Testemunho ocular sobre o levante de extrema-direita contra os governos progressistas das Américas, Pichardo acredita que Sérgio Moro “desempenhou com mestria o papel que lhe foi atribuído nesse jogo conspiratório regional de múltiplas variantes”. E, apesar de tudo, crê que o momento é oportuno para que o campo progressista da América Latina faça uma autocrítica.

“Devemos ser criativos e entender de uma vez por todas que se governa pelo capitalismo e que nossas ações devem ser direcionadas para a grande maioria com este sistema socioeconômico como ferramenta.”

Leia a entrevista de Manolo Pichardo à Fórum na íntegra.

FÓRUM: Você disse que a prisão de Lula era a “joia da coroa” do Plano de Atlanta. O que então representa a eleição de Jair Bolsonaro?
Manolo Pichardo: A eleição de Bolsonaro é um duro golpe para as forças progressistas, tanto para os que estão no governo quanto para aqueles que estão na oposição, pois acaba enfraquecendo a luta individualmente e como um todo. É o maior êxito do Plano de Atlanta, pois a concretização do objetivo com a “joia da coroa” (a prisão do ex-presidente Lula) fortaleceu os conspiradores no Brasil, com a intenção de estrangular o PT e seus aliados no país que possui a maior economia da região. E, como consequência do tombamento de alguém com esse peso político, houve um efeito dominó para derrubar a liderança de atores e partidos do campo progressista na América Latina e no Caribe. (A vitória de Bolsonaro) É um triunfo das forças conservadoras alcançado, como já denunciado, através de uma aliança com a mídia e setores do judiciário. A primeira a desenvolver uma matriz de opinião negativa sobre o governo de Dilma e sobre Lula e o último, manobrando para tirar do poder a então presidenta, antes do crescimento de sua popularidade nas faixas mais baixas, e excluir o nome de Lula da disputa presidencial, em uma nova forma de fraude eleitoral com aparente legalidade.

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FÓRUM: Qual papel está reservado ao Brasil nesta onda de extrema-direita na América Latina e no mundo?
Manolo Pichardo: Há um novo processo para saquear e entregar nossas empresas, como o caso da Embraer, e drenar nossos recursos naturais para o controle das grandes multinacionais, política que havia sido brecada com as novas regras impostas pelos governos progressistas na região, no intuito de favorecer interesses nacionais.
Há indícios de que essa política conservadora queira destruir o Mercosul e também aniquilar a Unasul, após a mudança da correlação de forças na região. Faz parte da estratégia dos Estados Unidos manter-nos separados como nação, pois com a união da Grande Pátria (latino-americana) não se faz a mesma coisa – com 600 milhões de produtores de riqueza e potenciais consumidores – do que com pequenos países tentando sobreviver ao “darwinismo” econômico que emerge de uma economia globalizada, mercados abertos e licitações controladas.
Nesse contexto, o Brasil seria o líder, a peça do xadrez para manter nossas economias sob controle, para que volte a dependência econômica e, como consequência, a dependência política. Então, como região, nos tornaremos um chip do conselho geopolítico dos EUA. O México, no entanto, pode fazer agora essa diferença. Então eu acredito que nós temos que seguir de perto o governo do presidente Andrés Manuel López Obrador.

Para Pichardo, Steve Bannon enfrentará “forças vivas” da esquerda na América Latina.

FÓRUM: Você acha que Bolsonaro pode levar a América Latina aos braços de Steve Bannon e da aliança ultra-liberal O Movimento?
Manolo Pichardo: A informação de que tenho a respeito d’O Movimento, é que esse caráter ultraconservador não tem tido muito sucesso na Europa e, provavelmente, terá dificuldades de penetrar na América Latina. Pois, embora a direita tenha alcançado algum sucesso em nossa região, as forças de esquerda estão vivas, elas têm simpatia da população, elas têm força.
A questão é fazer uma nova articulação, assumir a autocrítica, corrigir os erros, que existem. Devemos ser criativos e entender de uma vez por todas que se governa pelo capitalismo e que nossas ações devem ser direcionadas para a grande maioria com este sistema socioeconômico como ferramenta.

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FÓRUM: Como avalia o alinhamento de Bolsonaro com as ideias de Donald Trump e a política dos EUA?
Manolo Pichardo: Era esperado. Como candidato ele manifestou suas posições ultraconservadoras, compradas eleitoralmente pelos mais ricos, ajudado por um distorcido processo judicial midiático. Com um discurso afinado com a mídia e gerenciando de forma mais eficiente que o PT as redes sociais – um instrumento que pode nos ajudar a furar o cerco da mídia, mas que não temos entendido – ele conseguiu atingir, convencer, manipular e enganar muitos eleitores.

Paulo Guedes (Reprodução/Youtube)

FÓRUM: O futuro ministro da Economia, Paulo Guedes já disse que não dará prioridade às relações com a América Latina. Qual a sua opinião sobre isso?
Manolo Pichardo: Não nos surpreende. Está alinhado com a dinâmica de dinamitar os processos de integração, enfraquecer nossas economias, e reduzir a influência do Brasil na arena internacional, alcançada durante as administrações petistas não só pelo crescimento econômico, mas também pela aposta no multilateralismo – que o presidente americano, Donald Trump, culpa pela decadência de seu país.
O protecionismo e as barreiras são a aposta da direita no mundo. Mas tudo medido com dupla visão: a aposta tradicional dos grandes controladores dos mercados que querem abrir fronteiras comerciais para suas mercadorias, enquanto fecham para outros. Isto é o que a Inglaterra fez quando era dona dos mares.

O presidente eleito Jair Bolsonaro e o futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro, durante visita ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Foto José Cruz/Agência Brasil

FÓRUM: Quanto à prisão de Lula, qual a sua opinião sobre o juiz – e o principal algoz do ex-presidente brasileiro -, Sérgio Moro, junto ao governo Bolsonaro?
Manolo Pichardo: Penso que Sérgio Moro desempenhou com mestria o papel que lhe foi atribuído nesse jogo conspiratório regional de múltiplas variantes, cada uma adaptada à realidade política, econômica e social dos países à vista. Um exemplo disso é que forças conservadoras ganharam o poder com votos progressistas. Vejamos o Equador. É tão complexo que às vezes não conseguimos identificar o inimigo, por isso insisto que temos que ser criativos e até mesmo nos reinventar.


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