Fórumcast #20
17 de agosto de 2018, 18h29

Eleições 2018: Especialistas respondem o que é ser de esquerda hoje?

Historiadores Daniel Trevisan Samways e Rodrigo Perez Oliveira decifram a questão, analisam os desafios da esquerda e apontam quais os candidatos à presidência que defendem pautas progressistas

Foto: Ricardo Stuckert

Com a proximidade das eleições presidenciais e o quadro político ainda indefinido, principalmente porque o campo progressista não tem certeza se poderá contar o ex-presidente Lula na disputa, pesquisas mostram que boa parte do eleitorado está em dúvida sobre em quem votar. Há, claramente, lados antagônicos. Por exemplo, é fácil identificar o que representa a direita em Jair Bolsonaro, aliás, a extrema-direita. Alguns defendem que Henrique Meirelles e Geraldo Alckmin também pertencem ao espectro ideológico da direita. Outros chamam de centro-direita. Do lado progressista, quem realmente incorpora as agendas de esquerda? Enfim, o que é ser de esquerda hoje e quem são os candidatos com pautas de esquerda? A Fórum convidou dois historiadores e estudiosos da política para responderem a essas indagações.

Doutor em História, professor do Instituto Federal do Triângulo Mineiro e colaborador da Fórum, Daniel Trevisan Samways, questionado sobre o que é ser de esquerda hoje, respondeu: “Acredito que ainda significa a busca pela igualdade e o combate aos privilégios de uma minoria. Se tomarmos o termo nascido na Revolução Francesa, a esquerda é o segmento que almeja uma sociedade mais justa e igualitária. Isso passa, por certo, pelo combate às estruturas que mantêm a desigualdade e que colocam milhões à margem. Mas ser de esquerda, hoje, também inclui pautas que não estavam presentes no passado, como a questão identitária, a defesa do feminismo, o combate ao racismo e à homofobia. Não existe socialismo possível se mulheres, negros, indígenas e toda a comunidade LGBTQI continuarem sofrendo preconceito e excluídos. Isso ainda é um problema dentro dos principais partidos de esquerda no país”.

Daniel Samways: “Ser de esquerda significa a busca pela igualdade” – Foto: Arquivo Pessoal

Rodrigo Perez Oliveira, historiador, professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia, pesquisador da história do pensamento político brasileiro e colunista da Fórum, explica: “O termo esquerda política pode ser pensado sob várias perspectivas e é uma ideia que está sempre em disputa. Como fenômeno político, a esquerda nasce na conjuntura da Revolução Francesa, como símbolo daqueles que não tinham vínculo de nobreza. Ao longo dos séculos XIX e XX, foi se transformando e o pensamento marxista representa um importante capítulo dessa mudança, quando ela deixa de representar, apenas, aqueles que não tinham privilégios para representar uma ideia universal de proletariado, de uma classe trabalhadora que estaria vocacionada à ação revolucionária. E, no século XXI, nós temos mais uma reorientação da ideia de esquerda política. Aquela ideia de uma classe trabalhadora universal parece ter perdido a força como metanarrativa, capaz de organizar essa esquerda”.

Agendas mais amplas

Em relação às pautas da esquerda, Daniel avalia que são mais amplas do que no passado. “Antes, a simples tomada dos meios de produção e o fim da exploração guiavam os partidos e movimentos de esquerda. Atualmente, as pautas são mais amplas, algumas vindas de um discurso mais liberal, como a questão identitária, a descriminalização das drogas e do aborto, meio ambiente, feminismo, democratização dos meios de comunicação, acesso à tecnologia”.

Na opinião de Daniel, alguns movimentos, “infelizmente, ainda rechaçam muitas dessas bandeiras e acreditam que a única coisa que importa é o recorte de classe. Mas o próprio conceito classista, com a oposição “burguesia” e “proletariado”, tornou-se muito mais complexo. Hoje, não podemos pensar apenas na industrialização sem levar em conta os impactos ambientais. Para alguns segmentos da esquerda, o que importa é industrializar, criar fábricas que gerarão emprego e renda. Mas e as populações indígenas? Que mundo estamos deixando para as futuras gerações? Basta socializar os meios de produção e não se preocupar com o consumo? Por isso, o ecossocialismo é importante dentro das lutas das esquerdas, assim como as pautas identitárias e o fim de todo e qualquer preconceito”, destaca.

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Rodrigo tem uma opinião convergente: “Hoje, as agendas ligadas à esquerda política estão muito mais pautadas no campo do comportamento, evocando os princípios, liberais até, da liberdade do corpo. A esquerda brasileira está mais associada às pautas ligadas ao comportamento. Todas elas legítimas, claro: as militâncias LGBT, feminista, racial. Portanto, está mais associada às agendas identitárias do que ao marxismo tradicional. Não estou querendo colocar nenhuma valoração moral nisso, estou só pontuando as transformações”.

Diferenças

Para Daniel, a passagem de um discurso centrado, exclusivamente, na questão de classe para outras formas de emancipação humana, a preocupação com o meio ambiente e também um olhar para a tecnologia definem o pensamento da esquerda de hoje. Contudo, em sua análise, parte dela ainda não aprendeu a utilizar muitas das ferramentas digitais, seja para se comunicar ou simplesmente para fazer propaganda. “Ainda temos preconceito e machismo dentro de muitos partidos e movimentos. Persiste certo centralismo nesses mesmos grupos, com a manutenção de uma burocracia partidária, se distanciando da própria base e da sociedade. Isso não explica tudo, mas ajuda a entender por que muitos desses partidos perderam apoio popular ou desapareceram. Outras experiências, contudo, ainda demonstram que um discurso de esquerda se faz presente, com movimentos mais horizontais, com a inclusão de novas pautas. A defesa de uma democracia mais radical vem ganhando cada vez mais força”.

Rodrigo, por sua vez, faz questão de ressaltar que a ideia de ser de esquerda é uma forma de estar no mundo, de se relacionar com o outro, partindo sempre do princípio da igualdade social. “Outro debate é quando a gente traz essa discussão para a esfera da prática política. É impossível que exista um governo de esquerda na democracia liberal-burguesa. Para se ter um governo, efetivamente, de esquerda é necessário que exista a ruptura revolucionária e nós não vivemos um momento revolucionário há algum tempo no Brasil e no mundo. Então, governo viável na democracia liberal-burguesa nunca será um governo de esquerda. Refiro-me ao Poder Executivo, que é uma parte muito modesta do Estado. O que é possível é um governo progressista, que utilize seu quinhão ocupado no Estado burguês para remediar a pobreza e amparar a vida dos mais pobres. Ao longo da história do Brasil, há algumas experiências de governos progressistas: Miguel Arraes, em Recife; os governos de Brizola, no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro; Getúlio e João Goulart, já na presidência da República; Juscelino Kubitschek e, claro, os governos petistas”, analisa.

Rodrigo: “Para se ter um governo de esquerda é necessária a ruptura revolucionária” – Foto: Arquivo Pessoal

Dilemas e desafios

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Segundo Daniel, o principal dilema das esquerdas brasileiras é a criação de uma linguagem minimamente comum e a criação de uma frente ampla, para que o país possa sair da crise, mas também enfrentar discursos de grupos reacionários, alguns com claro viés fascista. Mesmo com o avanço de grupos de extrema-direita, com Jair Bolsonaro em primeiro lugar nas pesquisas sem Lula, vamos para a eleição com três candidaturas de esquerda. PT-PCdoB, PDT e PSOL, apesar de lançarem um manifesto meses atrás, optaram por suas próprias candidaturas, cada uma com um programa dito de esquerda e que afirma ser o melhor para o país”.

A partir desse raciocínio, surge a questão: não seria possível uma única candidatura, que abarcasse os principais pontos de cada programa? “Claro que seria. Mas quem abriria mão de sair como cabeça de chapa? Enxergo nessa desunião o principal dilema da esquerda, atualmente, e sua incapacidade de caminhar junto não apenas na eleição, mas na defesa do país. Isso não é uma novidade, claro. Basta lembrar as infinitas organizações que tínhamos durante a ditadura, com a dissidência da dissidência e a fragmentação de todo o campo. Infelizmente, no curto prazo, não vejo muita possibilidade de união no nosso campo”, critica Daniel.

Rodrigo acha fundamental um esclarecimento: “Prefiro chamar de campo progressista. No Brasil, essa distinção faz todo o sentido, pois somos uma sociedade de modernização incompleta. O Brasil ainda tem bolsões de atraso. E esse atraso se manifesta, também, na forma de uma elite arcaica, aquilo que o Jessé Souza chama de “elite do atraso”. Então, o grande desafio do campo progressista é superar as forças do atraso, o que o campo progressista brasileiro vem se propondo. Tanto naquilo que se refere ao combate à pobreza extrema quanto no que se refere ao confronto com essa elite arcaica. Com uma prática de governo inspirada em valores de esquerda”.

Para ele, o desafio mais contemporâneo, no entanto, é mobilizar as pessoas. “Cada vez mais as pessoas se mobilizam menos. Cada vez mais as agendas coletivas são menos capazes de afetar as pessoas. O que mobiliza são agendas ligadas a demandas subjetivas, mais particulares. O desafio é encontrar uma narrativa que aproxime as pessoas, que fomente uma cultura do encontro e que seja capaz de acolher uma parcela da população brasileira, que, por essa razão de modernização incompleta, ainda é marcada por valores patriarcais atrasados, como o machismo e a homofobia”.

Candidaturas de esquerda

Dentro desse cenário, quais são, efetivamente, os candidatos com pautas de esquerda? Na opinião de Daniel, os principais nomes são Lula, Ciro e Boulos. “Contudo, o mais provável é que a candidatura Lula seja impugnada e a chapa seja composta com Haddad e Manuela. Essa chapa tentará repetir o feito das últimas quatro eleições e trabalhar com a lembrança dos governos petistas (Lula e Dilma) e como eram as condições de vida. Pleno emprego, crédito mais fácil, renda subindo acima da inflação, acesso ao mercado de consumo, universidade, espaços de lazer… Acredito que a campanha do PT-PCdoB caminhará por esse sentido, trabalhando muito mais por uma perspectiva de retomar algo que foi paralisado com o golpe de 2016”.

Foto: Ricardo Stuckert

Em relação à candidatura de Ciro, ele aposta que também tende a caminhar por esse aspecto e trazer bandeiras desenvolvimentistas. “Mesmo que muitos acreditem que Ciro não seja propriamente de esquerda, entendo que ele se posiciona mais à esquerda, dialogando com o centro. Mas esse mesmo movimento o PT também fez a partir de 2002. Ciro, agora no PDT, vai reforçar o discurso do trabalhismo e a herança de Brizola, com uma gestão mais eficiente da máquina pública”.

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Em relação ao candidato do PSOL, Daniel diz: “Boulos traz um discurso mais diversificado para as esquerdas, com novas pautas, como mobilidade urbana e direito à cidade (que também deverão entrar na campanha de Haddad), questão indígena e dos sem-teto, combate mais incisivo aos privilégios e ao chamado 1% da sociedade, e pautas que se relacionam aos costumes e aos direitos das minorias. Boulos e Ciro vão tentar se distanciar do PT, mas também não podem ir tão longe, já que a memória de que a vida era melhor nos governos petistas ainda é muito forte. Vão se colocar como simpáticos a Lula, mas afirmando que podem ir muito além e que não vão construir as mesmas alianças. E não vão mesmo, mas o PT também se afastou dos antigos aliados, com o chamado “centrão” indo para a campanha de Alckmin. A presença de Manuela também confere um ar de novidade para o PT, dialogando mais com a juventude. Acredito que a campanha desses partidos caminhe dessa forma. Mas a crítica que faço é: essas pautas todas não caberiam numa única candidatura?”, questiona.

Rodrigo faz uma avaliação semelhante em termos de chapas de esquerda, ou do campo progressista, conforme ele prefere: “Dentro das candidaturas sérias e não caricatas, eu colocaria a candidatura lulista, com Fernando Haddad e Manuela D’Ávila. Em relação a essa candidatura, o grande desafio vai ser saber se o lulismo é forte o bastante para a transferência de votos, ainda que Lula esteja fora da campanha, porque é óbvio que ele não vai estar nos palanques. Não teria o menor sentido as forças do golpe terem chegado onde chegaram se fosse para deixar o Lula livre, leve, solto e faceiro fazendo campanha”.

Ele destaca, ainda, Guilherme Boulos. “É um quadro social muito qualificado, talvez ninguém tenha feito um trabalho de base no Brasil nos últimos tempos melhor do que o MTST. Mas o que eu vi até agora é que o Boulos ainda tem uma dificuldade muito grande de fugir da pecha de radical de esquerda. E isso até pela forma como ele se comunica. Boulos era o único homem que não estava vestindo terno no último debate. Isso pode parecer algo menor, mas não é. O traje e a estética sinalizam algo, e o eleitorado brasileiro, até mesmo os mais pobres, é conservador. Boulos, às vezes, fala como líder de movimento social, o que ele é, claro, algo que qualifica sua biografia, mas agora ele é um presidenciável. Eu acho que a campanha do PSOL deveria atentar mais para isso”, acredita.

Foto: Reprodução/YouTube

Para completar, Rodrigo cita a candidatura de Ciro Gomes. “Apesar de ser um candidato controverso, com uma biografia política cheia de idas e vindas, me parece que ele adotou uma agenda muito ligada à soberania nacional e a um desenvolvimentismo, que eu até acho meio anacrônico, mas é uma candidatura progressista”.


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