No rastro do crime ambiental nas praias do Nordeste
24 de agosto de 2018, 17h58

Enquanto grevistas de fome pressionam STF, Cármen Lúcia samba

A greve de fome é uma extrema, solitária e heroica arma usada, quase que invariavelmente, quando foram esgotados todos os recursos para se fazer justiça pelas vias institucionais

Alcione e Cármen Lúcia Sambam. Foto: Reprodução

É difícil precisar a origem da greve de fome como instrumento de luta política. O que se pode dizer com certeza é que se trata de uma extrema, solitária e heroica arma usada, quase que invariavelmente, quando foram esgotados todos os recursos para se fazer justiça pelas vias institucionais.

Uma das mais famosas greves de fome do mundo contemporâneo aconteceu em 1981, na Irlanda do Norte, e nos coloca diante de um fato coincidentemente curioso. Durante o protesto, o militante do Exército Republicano Irlandês Provisório, Bobby Sands, foi eleito membro do Parlamento Britânico apesar de preso, depois de ter sido condenado por posse de armas de fogo.

Ele e outros nove companheiros morreram em decorrência da greve. O funeral contou com a presença de cerca de 100 mil pessoas e desencadeou uma onda de recrutamento e atividade provisória do IRA (Exército Republicano Irlandês).

A vez do Brasil

No Brasil não se tem muitas notícias sobre greve de fome, não é uma prática habitual por essas plagas. No entanto, o extremo da injustiça da condenação e prisão do ex-presidente e candidato à presidência pelo PT, Luiz Inácio Lula da Silva, desencadearam, de uma só vez, várias delas neste mês de agosto. A maior de todas, envolvendo sete militantes em Brasília.

Jaime Amorim, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de Pernambuco e um dos participantes da greve revelou, em entrevista exclusiva à Fórum, que a medida foi adotada porque “todas as vias institucionais de atender a demanda de Lula em ser candidato foram esgotadas”. Para Amorim, o Poder Judiciário está politizado, assim como a política foi judicializada. Desse modo, o clima institucional no país é péssimo, na avaliação do militante do MST.

Ao contrário do movimento irlandês, no entanto, a imprensa brasileira dá de ombros aos manifestantes, como se não existissem ou, pior ainda, como se não fossem dignos do extenso noticiário político capaz de perder preciosos minutos com cafezinhos e outras agendas sem importância com os outros candidatos.

Isso sem esquecer, é claro, que o candidato alvo do sacrifício dos grevistas, apesar de preso sem que o seu processo tenha tramitado em julgado, aparece em todas as pesquisas divulgadas até agora com mais intenções de votos do que todos os outros somados.

Lula

A importância de Lula para o cenário político atual, goste a grande imprensa ou não, é inquestionável. Ao ser perguntado pela Fórum se o ex-presidente valia o sacrifício, o fiscal de renda aposentado do Rio de Janeiro, Richard Faulhaber, que encerrou a sua greve de fome na última terça-feira (21), nem pestanejou, demonstrando pela primeira vez ao longo da conversa entusiasmo e alteração na voz já um tanto debilitada:

“O Lula pra mim é um homem de Deus, iluminado por Deus. É o maior defensor do povo. Desde que eu me aposentei, há dois anos, eu vou pra uma favela do Rio dar aula de apoio de matemática. Eu consigo dar aula pra seis crianças, o Lula consegue incluir milhões. O que ele faz pelo povo em termos de inclusão social, fraternidade, justiça social, oportunidades, ninguém faz, ninguém consegue. A liderança dele, a capacidade dele de organização política, de inteligência, ninguém tem. O Lula junta a economia teórica com a prática da vida. Não há ninguém que faça isso tão bem quanto ele. Ele é fundamental”, desabafou.

Faulhaber também passou, durante a entrevista, uma preciosa informação que dá a exata dimensão do sacrifício que é uma greve de fome e as suas prováveis e indesejáveis consequências. Durante a greve o corpo não pode prescindir, em momento algum de líquidos, um soro infantil composto por sódio, potássio e glicose, para manter o nível destes três elementos no organismo e, após o 15º dia, água com açúcar, pois o soro já não dá mais conta da queda do índice glicêmico o organismo.

Sinais de fraqueza física

Os militantes que estavam em greve em Brasília começaram a dar sinais de fraqueza física a partir do 19º dia de greve. Passaram a fazer uso de camas hospitalares para seu repouso e de cadeiras de rodas nos deslocamentos. Entre eles, vários já haviam perdido 10 kg nestes dezenove dias sem se alimentar. A glicemia sofreu alterações constantes, assim como quedas da pressão arterial e da temperatura corporal. A Equipe de Saúde da Greve de Fome passou, desde então, a ficar em alerta permanente.

A equipe de saúde da Greve de Fome por Justiça no STF é composta por profissionais da Rede de Médicos e Médicas Populares, fitoterapeutas, psicólogos, massagistas, massoterapeutas, acupunturistas, fisioterapeutas e reikianos que acompanham os sete grevistas de forma voluntária.

A única reivindicação dos grevistas é que a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, coloque em pauta o julgamento da Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC) 54. Apresentada pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), a ação tem como objetivo rever a legalidade de prisões a partir de condenação em segunda instância e pode libertar Lula. Mas é bom lembrar que a ADC não se refere apenas ao Lula, mas atinge milhares de brasileiros que foram encarcerados injustamente porque ainda não se julgou até o último recurso.

Por sua vez, sem dar o menor sinal de comoção, no mesmo dia em que a greve ultrapassava os seus 20 primeiros dias e os participantes começavam a entrar em estágio crítico de saúde, Cármen Lúcia sambava ao lado da presidente da Procuradoria Geral da República, Raquel Dodge, com a cantora Alcione, em um evento em Brasília.

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