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19 de outubro de 2018, 19h50

Frei Betto: “Bolsonaro é um avatar respaldado pelas igrejas evangélicas de perfil conservador”

Uma virtual vitória de Bolsonaro, segundo Frei Betto, representará a “volta dos militares ao controle total do país, com criminalização dos movimentos sociais, repressão à arte e à cultura, militarização das escolas, luz verde para as milícias. Serão anos de muita turbulência”

Fotos: Reprodução/YouTube

Aos 74 anos, Carlos Alberto Libânio Christo, mais conhecido como Frei Betto, demonstra a mesma disposição para lutar em favor da democracia e pelos movimentos sociais de base. Frade dominicano e um dos principais responsáveis pela divulgação da Teologia da Libertação, corrente cristã nascida na América Latina, que parte da premissa de que o Evangelho impõe a opção pelos mais pobres, Frei Betto é dono de uma longa e intensa militância política.

Justamente por isso, foi preso duas vezes durante o período da ditadura militar (em 1964, por 15 dias, e entre 1969 e 1973). Com a retomada da democracia, depois da eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, colaborou e foi um dos coordenadores do Programa Fome Zero, além de ter trabalhado como assessor especial de Lula entre 2003 e 2004.

Apesar da longa relação de amizade com o ex-presidente, ele jamais se absteve de criticar o PT quando achou que devia. “O PT, embora tenha feito o melhor governo de nossa história republicana nos dois mandatos de Lula e no primeiro de Dilma, não cuidou de promover a alfabetização política da população”, afirmou.

Autor de mais de 60 livros, Frei Betto conversou com a Fórum a respeito do atual cenário político, analisou como será o Brasil, em caso de vitória de Jair Bolsonaro, comentou sobre a crescente onda de violência protagonizada pela extrema direita e comparou a ascensão de Bolsonaro à trajetória de Adolf Hitler: “Hitler chegou ao poder nas eleições democráticas de 1933, na Alemanha. A partir daí iniciou o processo que transformou o Estado de direito em Estado nazista. O perfil de Bolsonaro é bem “L’État c’est moi (O Estado sou eu)”, destacou.

Fórum – Como o senhor analisa o atual cenário político nacional e, especificamente, as eleições presidenciais?
Frei Betto:
São eleições atípicas. Destaco três fatores: o vácuo político no qual o Brasil mergulhou após as manifestações de junho de 2013, com acentuada descrença na política e nos políticos; a partidarização moralista da Lava Jato, centrada no desmonte do PT; o crescimento mundial da onda direitista, capitaneada por Donald Trump. Acresce-se a isso a importância das redes digitais nas campanhas eleitorais e a manipulação que sofrem por parte das corporações que as controlam.

Fórum – De que forma avalia o “fenômeno” Bolsonaro?
Frei Betto –
Assemelha-se ao de Collor, “caçador de marajás”. Agora é o xerife convocado a botar ordem na casa, no pleno uso da lei do talião, ignorando os mais elementares princípios da democracia. Bolsonaro é resultado de nossa omissão de não ter levado à barra dos tribunais os responsáveis pelos crimes cometidos pela ditadura, ao contrário do que fizeram outros países da América do Sul. Surge como um avatar respaldado pelo único setor da sociedade brasileira que, nas últimas décadas, se organiza sistematicamente para abocanhar fatias de poder: as igrejas evangélicas de perfil conservador.

Fórum – A que o senhor credita essa verdadeira onda de manifestações de extrema direita, inclusive com agressões físicas nas ruas por parte de apoiadores de Jair Bolsonaro?
Frei Betto –
O sinal verde à violência foi dado pelos discursos dele. Tudo se parece muito ao que ocorreu na Alemanha em 1933, quando um oficial de baixa patente do Exército foi democraticamente eleito para dirigir o país, Adolf Hitler. Temo que o assassinato de Marielle Franco tenha sido o primeiro de uma série que virá.

Fórum – Por que o antipetismo tomou proporções gigantescas, inclusive fazendo com que a maioria da população opte por um candidato que defende tortura, violência, homofobia, misoginia, racismo em detrimento de uma pauta com um viés de direitos humanos e programas sociais?
Frei Betto –
Porque o PT traiu os seus próprios princípios originários, ao permitir que alguns de seus líderes se corrompessem sem sequer terem sido submetidos à comissão de ética do partido. E em 13 anos de governo, o PT não cuidou da alfabetização política da população, nem valorizou os movimentos sociais, que estão na sua origem, como base de governabilidade. Assim, a direita logrou deslocar a pauta do social (que não trabalhamos bem em termos ideológicos, embora tenha havido políticas sociais de grande alcance) para o pessoal, cedendo ao moralismo individualista e preconceituoso.

Fórum – Segundo pesquisas, Fernando Haddad tem mais força entre os católicos e Jair Bolsonaro entre os evangélicos. O panorama mostra que os evangélicos têm mais representatividade do que os católicos?
Frei Betto –
Nas últimas décadas, o número de católicos se reduz e o de evangélicos se multiplica. Nos últimos 20 anos, os católicos passaram de 90 milhões para 70 milhões, e os evangélicos, em 10 anos, subiram de 26 milhões para 46 milhões. E eles são muito mais organizados do que nós, até porque não admitem diversidade ideológica e atuam decididamente para confessionalizar a política.

Fórum – Como o senhor acha que será o governo de Bolsonaro, em caso de vitória?
Frei Betto –
De volta dos militares ao controle total do país, com criminalização dos movimentos sociais, repressão à arte e à cultura, militarização das escolas, luz verde para as milícias e desmonte do que resta do Estado em benefício do capital privado, sobretudo estrangeiro. Serão anos de muita turbulência.

Fórum – O senhor foi uma das muitas vítimas da ditadura militar, defendida por Bolsonaro. O que pensar quando ele fala sobre isso e homenageia o coronel Ustra, por exemplo?
Frei Betto –
Penso no grave erro que cometemos ao não nos empenhar na punição dos torturadores e criminosos da ditadura, obrigando os militares a se recolherem aos quartéis e não mais interferirem na vida política, como se conseguiu na Argentina e no Chile. A tal “anistia recíproca”, conceito esdrúxulo que atenta contra o Direito, funciona como salvo conduto a quem manteve o Brasil 21 anos sob ditadura.

Fórum – O senhor já declarou que não vê semelhanças entre o momento atual e o golpe militar de 1964, mas, sim, com a ascensão de Hitler na Alemanha, pelo voto democrático, em 1933. Quais seriam essas semelhanças?
Frei Betto –
Hitler chegou ao poder nas eleições democráticas de 1933, na Alemanha. A partir daí iniciou o processo que transformou o Estado de direito em Estado nazista. O perfil de Bolsonaro é bem “L’État c’est moi” (O Estado sou eu).

Fórum – A imprensa, personalidades intelectuais internacionais e até mesmo a ONU reafirmam quase diariamente a injustiça na condução do processo e a consequente prisão do ex-presidente Lula. Como o senhor observa essa questão?
Frei Betto –
Não há provas de que o triplex do Guarujá algum dia pertenceu à família de Lula. Por que não mostram a escritura? Por que o suposto crime foi cometido em São Paulo e Lula se encontra preso no Paraná? Ora, Lula é um preso político, como Mandela, e toda essa farsa foi montada para impedir que ele voltasse pela terceira vez à presidência do Brasil.

Fórum – O senhor é amigo de Lula há muitos anos, mas nem por isso se abstém de fazer críticas ao PT. Acredita que faltou autocrítica ao partido e o senhor já falou sobre isso com Lula e, se falou, o que ele acha disso?
Frei Betto –
Não só falei como escrevi dois livros críticos aos governos do PT: “A mosca azul – reflexão sobre o poder” e “Calendário do poder”, ambos editados pela Rocco. Nem por isso Lula torceu o nariz para mim. Continuamos amigos, pois verdadeiros amigos se criticam. Já o inimigo se denuncia. E continuo com a opinião de que é um erro o PT não fazer um balanço autocrítico e recalibrar suas estratégias políticas, principalmente retomando o trabalho de organização e mobilização da base popular. Fora do povo não há salvação.

 

 


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