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18 de maio de 2018, 16h53

Fuser: “Maduro é o único empenhado em resolver a crise e proteger as conquistas sociais do chavismo”

Em análise sobre a eleição na Venezuela, professor de Relações Internacionais diz: “No atual contexto latino-americano, a disputa política transcende o contexto interno para assumir dimensão regional e até global”

“Nicolás Maduro conta com um partido político muito bem organizado, com a grande maioria das prefeituras e governos estaduais, dezenas de milhares de militantes. O chavismo marcha unido para as urnas, enquanto a oposição se encontra dividida e desgastada com o fracasso da estratégia de deflagrar uma insurreição no ano passado”. Este é o resumo do cenário político da Venezuela feito por Igor Fuser, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC).

Em meio a uma gravíssima crise econômica e institucional, o país realiza neste domingo (20) sua quarta eleição em menos de um ano. As anteriores foram para a Assembleia Nacional Constituinte, prefeitos e governadores. Outro dado significativo é que este será o pleito de número 25 ao longo dos 19 anos de governo revolucionário, que teve início no primeiro mandato de Hugo Chávez.

Hoje, o país está polarizado por duas forças antagônicas. Pela situação, Nicolás Maduro, do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), tentando a reeleição, e pela oposição, Henri Falcón, do Partido Avanzada Progresista. Uma parte da oposição, composta pelos três maiores partidos direitistas – Ação Democrática, Primeiro Justiça e Vontade Popular –, decidiu não participar do pleito, justificando que não existia garantias de que o processo seria justo e democrático. Na avaliação de Fuser, em entrevista à Fórum, “há outros candidatos na disputa, mas Maduro e Falcón são os únicos com possibilidades de ganhar”.

Confira a entrevista.

Fórum – Em linhas gerais, qual a sua visão do atual quadro político e econômico da Venezuela e quais suas expectativas para essa eleição?

Igor Fuser – A Venezuela vai às urnas em meio a uma crise econômica gravíssima e a um cenário de intensa polarização política. Os atores externos empenhados em desestabilizar o governo venezuelano – em especial, o governo dos Estados Unidos – não reconhecem a validade das eleições e afirmam que não vão reconhecer os resultados. Essa atitude é seguida pelo setor majoritário da oposição venezuelana, que está boicotando o pleito e defendendo a abstenção ou o voto nulo ou branco. Espera-se um acirramento do conflito e da crise após a eleição, especialmente no caso de se confirmar o favoritismo de Nicolás Maduro. Os efeitos das sanções e do boicote implantados pelos Estados Unidos devem agravar as condições de vida da população, que já está sofrendo enormemente com a crise. A oposição e os norte-americanos esperam com isso fomentar a rebelião de setores da população e/ou um levante militar contra o governo de Maduro. Por outro lado, o governo chavista pode sair relegitimado, caso vença por uma margem significativa.

Fórum – O que está em jogo nessa eleição seriam dois modelos de economia, uma vez que Maduro quer aprofundar bases do socialismo e Falcón já avisou que vai recorrer ao FMI? Você acredita que Maduro tem apoio popular suficiente para conseguir uma nova vitória?

Igor Fuser – Maduro representa a continuidade do chavismo, de um modelo político com foco nas políticas sociais em benefício da maioria da população e no controle soberano das riquezas naturais pelo Estado. Falcón representa a volta ao neoliberalismo e à submissão da Venezuela aos Estados Unidos. Maduro é o único que se mostra seriamente empenhado em resolver a crise e proteger as conquistas sociais do chavismo. Ele conta com um partido político muito bem organizado, com a grande maioria das prefeituras e governos estaduais, dezenas de milhares de militantes. O chavismo marcha unido para as urnas, enquanto a oposição se encontra dividida e desgastada com o fracasso da estratégia de deflagrar uma insurreição no ano passado. Por outro lado, o sofrimento dos venezuelanos é imenso, o que favorecerá a votação de Falcón.

A Constituinte foi uma vitória política de Maduro, que conquistou o apoio da maioria para sua política de buscar uma solução para a crise – Foto: Freddy Zarco/ABI/Fotos Públicas

Fórum – Quais as diferenças fundamentais que você observa entre os governos de Chávez e Maduro?

Igor Fuser – Hugo Chávez governou em condições mais favoráveis, com altos preços do petróleo. Maduro enfrenta o agravamento da crise econômica, a ofensiva política opositora e o recrudescimento do intervencionismo dos Estados Unidos.

Fórum – Maduro recebeu muitas críticas da comunidade internacional por ter convocado a eleição de uma Assembleia Nacional Constituinte, a qual, aliás, ele tem maioria. Como avalia esse cenário? E você caracteriza como tentativa de golpe a ação do Legislativo, que buscou afastar Maduro, depois que ele fez uma viagem sem pedir autorização para o Parlamento?

Igor Fuser – A Constituinte foi uma vitória política de Maduro, que conquistou o apoio da maioria dos venezuelanos para a sua política de buscar uma solução para a crise, rejeitando a via violenta defendida pela maior parte dos opositores. Já a Assembleia Nacional foi declarada em situação irregular pelo Judiciário, o que dispensa Maduro de pedir a ela permissão de se ausentar do país. Ninguém levou a sério a tentativa dos deputados de decretar impeachment por este pretexto.

Para Fuser, Henri Falcón representa a volta ao neoliberalismo e à submissão da Venezuela aos Estados Unidos – Foto: Divulgação/Henri Falcón Twitter

Fórum – A Venezuela é um dos principais produtores de petróleo do mundo. Como explicar a atual crise econômica do país? O empresariado local tem responsabilidade sobre isso, sabotando a economia e se transformando no maior culpado pela escassez de produtos e pelo êxodo da população?

Igor Fuser – A queda abrupta dos preços do petróleo em 2014 prejudicou fortemente a Venezuela, que depende desse produto para financiar as importações. A crise tem ainda outras causas. De um lado, a sabotagem econômica praticada pelo empresariado, que diminuiu a produção e passou a esconder produtos e a desviá-los para o mercado clandestino e para o contrabando. Do outro lado a economia sofre os efeitos de uma política cambial equivocada, que favorece o mercado ilegal do dólar e a hiperinflação. A situação tem se agravado com as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos com o objetivo de depor Maduro.

Fórum – Efetivamente, qual a interferência dos Estados Unidos no conflito interno venezuelano?

Igor Fuser – Os Estados Unidos gastam milhões de dólares anualmente para financiar a oposição venezuelana, o que já é uma forma de interferência. Nos últimos anos, o governo estadunidense tem utilizado sua influência nos organismos internacionais para isolar politicamente a Venezuela, dificultar seu comércio exterior e bloquear investimentos naquele país e a renegociação de suas dívidas. Os Estados Unidos também ameaçam usar a força militar contra a Venezuela.

Fórum – A grande imprensa internacional bombardeia o público diariamente com informações que classificam o governo venezuelano como sendo uma ditadura. No entanto, desde que Hugo Chávez assumiu o poder em 1999 ocorreram 24 eleições. Sendo assim, como considerar uma ditadura?

Igor Fuser – Maduro foi eleito em eleições livres e sempre se manteve dentro dos limites da Constituição da Venezuela. Vigora no país a mais ampla liberdade de expressão, os partidos opositores atuam com liberdade, protestos contra o governo ocorrem quase todos os dias e só são reprimidos quando se tornam violentos. Nesse cenário, é preciso muita má-fé e desonestidade para dizer que Maduro é um ditador.

Na avaliação de Fuser, vigora na Venezuela a mais ampla liberdade de expressão, protestos contra o governo ocorrem quase todos os dias – Foto: María Mora/Wikimedia Commons

Fórum – Em que medida as eleições em vários países da América Latina, como Venezuela, Brasil, Colômbia, México e até mesmo Cuba, com a substituição de Raúl Castro por Miguel Díaz-Canel, podem influenciar o cenário político no continente? É possível uma retomada da esquerda?

Igor Fuser – No atual contexto latino-americano, a disputa política transcende o contexto interno de cada um dos países para assumir uma dimensão regional e até global. Na realidade, estão se confrontando dois grandes campos políticos, que se expressam de forma distinta em cada país, mas que representam interesses similares em âmbito mais amplo. De um lado, estão o governo e as classes dominantes dos Estados Unidos e de outros países imperialistas, como Espanha e Canadá, aliados aos governos direitistas latino-americanos e às classes dominantes de cada país da região, que agem em bloco, sob o comando de Washington, em favor do neoliberalismo e do alinhamento incondicional aos Estados Unidos. Do outro lado estão os governos progressistas, como os da Venezuela e da Bolívia, juntamente com os de Cuba e outros países, aliados à maioria dos partidos e movimentos sociais de esquerda e centro-esquerda, em favor de políticas públicas voltadas para o atendimento das demandas sociais das classes desfavorecidas, contra as políticas neoliberais e em defesa da soberania e da inserção externa independente. O resultado de cada eleição, o sucesso ou fracasso de cada tentativa de golpe de estado, a consolidação ou desestabilização de cada governo são fatos que transcendem as fronteiras nacionais e tem impacto sobre a correlação de forças no conjunto do cenário político regional.


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