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08 de setembro de 2018, 13h57

“Nossa política cultural não valoriza a cultura popular”, diz professor da USP

“A elite brasileira abomina seu povo. Não é uma discriminação econômica ou social, ela nasce na cultura”, enfatiza Sérgio Bairon, professor da FFLCH/USP

200 anos de história, 20 milhões de peças no acervo, relíquias culturais, geológicas, antropológicas e biológicas. Enumerar as perdas causadas pelo incêndio no Museu Nacional no último domingo (2) é tarefa simples. Mais complicado é apontar saídas num cenário onde os investimentos em cultura e ciência minguam – o orçamento do Museu Nacional caiu de R$ 540 mil em 2013, ainda no governo Dilma Rousseff para R$ 160 mil em 2018, com Michel Temer, uma redução de 71%.

Sérgio Bairon, professor do programa de Pós-graduação em Humanidades e Legitimidades da FFLCH/USP diz que os problemas da gestão cultural no Brasil vão além da política e da alocação de recursos. “Nossa política cultural não valoriza a cultura popular, a produção das comunidades do interior do Brasil e os saberes orais.” Bairon fala com propriedade: seu campo de estudo é justamente a cultura griô – o conjunto de saberes de mestres de sabedoria oral.

Segundo Bairon, esse apartamento entre a alta cultura e a cultura popular é algo que atravessa a nossa sociedade e tem um viés inclusive institucional: “Por que essa sabedoria popular e oral não está na escola e na universidade? Isso deveria fazer parte do nosso dia a dia e uma das minhas grandes lutas é incorporar isso em lugares de saber institucionalizado, como a USP”.

“Grandes pesquisadores do tema, como Eduardo Viveiros de Castro (antropólogo brasileiro) e Boaventura de Souza Santos (sociólogo português) defendem que os saberes orais têm o mesmo estatuto da Filosofia, da Sociologia, da História”. Para Bairon, mesmo a universidade tem esse viés elitizado de cultura.

Para Bairon, um dos raros momentos nos quais a política cultural olhou minimamente para a cultura popular foi na gestão de Gilberto Gil na pasta da Cultura. “O Célio Turino foi o Secretário de Cultura nessa gestão e seu maior acerto foi o programa Cultura Viva. O programa fomentava programas de cultura locais, fortemente vinculados aos saberes tradicionais dessas comunidades. Era um incentivo financeiro a projetos espontâneos”.

Sérgio Bairon, professor da FFLCH/USP, critica a visão cultural da nossa elite

O professor da USP faz uma metáfora interessante para avaliar o impacto do programa Cultura Viva no fomento à produção cultural popular: “Foi o equivalente do Bolsa Família no âmbito cultural. Foram migalhas perto do imenso montante que a Lei Rouanet atrai, por exemplo. Mas foi fundamental no desenvolvimento de inúmeras iniciativas culturais fora do padrão da alta cultura”, compara Bairon.

A Lei Rouanet é alvo de crítica por parte do professor da USP. “A elite cultural brasileira age em causa própria. A Lei Rouanet talvez seja o exemplo mais bem acabado disso”, resume ele. De acordo com Bairon, há uma grande discriminação da classe dominante brasileira com a cultura popular: “A elite brasileira abomina seu povo. Não é um discriminação econômica ou social, ela nasce na cultura”, enfatiza o especialista.

“Nossa elite não vê as classes mais baixas como capazes de não dar outra contribuição que não seja econômica, que não seja o uso de sua força de trabalho. Por isso, não consegue se enxergar na produção cultural feita por esses segmentos da população”, continua Bairon. Para ele, isso explica a visão economicista de cultura que tem imperado no Brasil especialmente na última década.

“Até mesmo o Museu Nacional é um projeto cultural de elite”, segundo ele. A referência de repositório cultural da nossa elite é européia”. Bairon também critica a falta de investimento dessa mesma elite na cultura nacional. “Nos EUA, um país capitalista por excelência, a elite econômica investe pesadamente em museus, universidades e outros projetos de cultura e ciência”, compara ele.

Na visão dele, somente os candidatos Fernando Haddad e Guilherme Boulos possuem propostas palpáveis para o campo da cultura. Ele critica a visão economicista da cultura dos candidatos João Amoêdo, Geraldo Alckmin e Henrique Meirelles. “É uma visão que enxerga a produção cultural como algo que vai gerar renda a quem produz e ser consumida e comprada por quem vai fruir esteticamente dessa produção”.

De acordo com ele, é essa visão economicista que defende a privatização dos espaços de cultura quando acontecem acidentes como o incêndio do Museu Nacional, o do Museu da Língua Portuguesa (ocorrido em dezembro de 2015). “Há essa mistificação de que a gestão privada seria melhor, mas ela só foca em grandes artistas e em produções que podem garantir retorno de marketing”, critica ele.

“Não há uma visão de política cultural para fomentar uma produção e organização orgânica da sociedade civil. A cultura não precisa ser só mercadoria, ela também pode ser instrumento de valorização, de cidadania e autonomia da população”, explica Bairon. Há todo um universo de produção cultural nas periferias que é desconhecido pela maioria das pessoas. “Existe uma fervilhante movimentação de negros, jovens, nas periferias de São Paulo que está revolucionando a cultura, a arte e mesmo a economia”, acrescenta o professor.

“A gestão de Fernando Haddad na Prefeitura de São Paulo foi um respiro nesse sentido. Houve várias iniciativas de modo a fomentar a produção cultural nas periferias e de abrir diálogo com a sociedade civil. Dadas as propostas da maioria dos candidatos, avalio que a situação da política cultural pode piorar”, avalia ele.


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