ALIMENTAÇÃO

Ultraprocessados: é mais difícil acabar com eles do que com o tabaco, diz especialista

Professor da USP e criador da classificação Nova, detalha como a "engenharia da fome", o baixo custo e o lobby da indústria criam um obstáculo quase intransponível para a saúde pública

Escrito en GASTRONOMIA el

Uma caminhada rápida pelos corredores de um supermercado é suficiente para notar que há muito mais à venda mais embalagens coloridas, que trazem junto promessas de praticidade, do que alimentos frescos. Por trás dessas caixas e embalagens atraentes, está escondida uma crise de saúde global.

Para especialistas, o combate ao consumo de alimentos ultraprocessados tornou-se um dos maiores desafios do século XXI, e a dificuldade não reside apenas na falta de força de vontade individual, mas em um sistema desenhado para nos fazer comer mais.

Em entrevista ao Globo, o professor titular da Faculdade de Saúde Pública da USP e criador da classificação de alimentos Nova, Carlos Monteiro, diz considerar "mais difícil combater os ultraprocessados do que o tabaco'. O assunto que é importante e deveria ser abordado constantemente na imprensa voltou à cena esta semana por conta da publicação de uma série especial de estudos, coordenada por ele - com três artigos elaborados por 43 pesquisadores internacionais - na prestigiada revista científica The Lancet.  

Segundo o especialista, a principal barreira para combater esse consumo de ultraprocessados é biológica. A indústria alimentícia utiliza uma engenharia sofisticada para burlar os mecanismos de saciedade do corpo humano. Sem contar a combinação exata de sal, açúcar e gordura, somada a aditivos químicos (aromatizantes, corantes, texturizantes), cria uma experiência sensorial que o cérebro interpreta como irresistível.

Monteiro frequentemente alerta que esses produtos são desenhados para deslocar alimentos in natura (como frutas, legumes, arroz e feijão): não é apenas uma escolha, é uma substituição forçada pela conveniência química.

"O que defendemos é que a urgência de combater ultraprocessados é tão alta que precisamos de ações agora mesmo, mesmo ainda tendo questões que a pesquisa não respondeu completamente. Com o cigarro, a crítica foi a mesma, não sabíamos porque ele viciava, por que causava câncer, mas já era claro o seu efeito e a necessidade de medidas para combatê-lo", argumenta o professor na entrevista.

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