Racha no Peru: "Pedro Castillo não tem roteiro, mas quer mudanças", avalia sociólogo

Para Raul Nunes, o presidente do Peru deve seguir no governo, mas é improvável que adote uma postura "revolucionária" diante das tensões que se apresentam no país

Pedro Castillo | Foto: Presidência Peru
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A decisão do Peru Livre (PL) de retirar o apoio ao novo gabinete formado pelo presidente Pedro Castillo levantou a possibilidade um fim abrupto do governo que está há menos de 100 dias no poder. Para o sociólogo Raul Nunes, pesquisador do Núcleo de Estudos de Teoria Social e América Latina (NETSAL) do IESP-UERJ, Castillo deve conseguir se manter no governo do Peru, apesar de uma possível ruptura com os parlamentares próximos de Vladimir Cerrón, dirigente do PL.

Para Nunes, a posição do Peru Livre de anunciar que nao dará o voto de confiança ao gabinete conduzido por Mirtha Vásquez, da Frente Ampla, "tem a ver com a perda de espaço" da legenda nos ministério. "Antes o primeiro-ministro era um representante de Vladimir Cerrón (presidente do Peru Livre), Guido Bellido, e agora mesmo os ministros que são do partido não são da ala cerronista", disse.

Por outro lado, Nunes aponta que a ruptura também tem a ver "com a concepção de que o governo precisa fazer mudanças profundas e imediatas". O PL tem acusado Castillo de ceder à centro-direita e abandonado as bandeiras que o elegeram. O sociólogo enxerga que o presidente, de fato, busca um caminho de menos confrontação, mas não vê mudança de agenda e sim de estratégia.

"O caso que tornou a permanência do premier Bellido inviável é emblemático: disse que se as empresas que exploram o gás natural não aceitassem a proposta do governo para renegociação dos contratos, o gás seria nacionalizado. A ameaça pegou muito mal e colocou em risco a estabilidade econômica, além da própria possibilidade de uma negociação. Além disso, Castillo já deu muitos sinais de que não vai fazer um governo belicoso, apesar de alguns arroubos. Até por isso a ala cerronista quer forçar a pauta da Assembleia Constituinte: enxergam que é a única via pela qual a esquerda pode governar de verdade. Para Castillo a Constituinte não saiu do radar, mas não deve ser prioridade num contexto em que se discute o combate à pandemia e seus efeitos", explicou o pesquisador.

Queda de Castillo?

Nunes aponta ainda que um rompimento com o Peru Livre não significaria necessariamente a queda do governo e que isso só aconteceria se houvesse uma composição de Cerrón com a extrema-direita. "Para o Congresso pode ser exatamente um sinal de que o tom beligerante e inconsequente não vai ter espaço. Ao nomear Mirtha Vasquez, a ex-presidenta do Congresso, Castillo fez uma aceno muito forte de diálogo com os legisladores. E Vasquez já está atuando para desarmar bombas legislativas que poderiam minar o poder do Executivo. Eu apostaria que Castillo só cai se Cerrón conseguir fazer um grande acordo com a extrema-direita e a vice-presidenta Dina Boluarte, o que parece improvável. Com cerronistas e fujimoristas disputando o poder de forma pouco republicana, Castillo pode acabar cumprindo os cinco anos por ser visto como o mal menor", disse.

As divergências de Castillo com o Peru Livre, para Nunes, partem da própria candidatura. "Tanto a candidatura quanto seu governo são improvisos. Castillo não é militante do Peru Livre, apenas foi convidado para concorrer. Ele tem o desejo muito honesto de melhorar a vida dos peruanos pobres e excluídos, mas não tem roteiro, não tem programa, não tem base partidária e não tem experiência política para além da atuação sindical", explicou.

"A radicalidade de seu discurso sempre se contrastou com a falta de propostas concretas. Desde o segundo turno ele demonstrou que quer garantir a estabilidade política e econômica para conseguir fazer as tais melhorias, ainda que comedidas. Nesse sentido, não vejo mudança de agenda. A própria renegociação dos contratos de exploração do gás está em curso. Foi lançada também a Segunda Reforma Agrária, que não tem a ver com expropriações, mas envolve incentivos para os pequenos agricultores", disse ainda

"É possível que no próximo ano, com a pandemia sob controle, com a confiança do mercado e com um melhor diálogo com o Congresso, o governo passe a ter uma agenda mais agressiva em direção a mudanças. Mas duvido muito que esse seja um governo revolucionário, como muita gente esperava", finalizou.

Partido critica "gabinete caviar" e presidente reage

Na nota, o Peru Livre afirma que “existe um inocultável giro político do governo e seu gabinete à centro direita, com representantes caviares que possuem financiamento externo”. Dessa maneira, o partido afirma que votará contra o “gabinete caviar” no Congresso. No país, é necessário um “voto de confiança” legislativo para a composição de um governo. Bellido havia conquistado isso em agosto.

Castillo se manifestou sobre as críticas do partido e negou que tenha girado à direita. “Hoje tudo mudou, hoje até pensam que com um tuíte se muda o país, mas não é assim. O país muda trabalhando, o país está mudando por estar ao lado da população, lutando com ela”, disse.

“Me submeto mais uma vez ao povo, aos ronderos, aos professores. Se virem ou detectarem que estamos roubando um centavo do país, venham às ruas, venham conversar, porque viemos pela vontade popular do povo, trabalhar para o povo”, completou.