ESPERTEZA

O que está por trás dos ataques de Israel à ONU; entenda

Direito fundamental dos palestinos em jogo

É projeto.Controle total sobre Gaza passa por comida, Saúde e Educação.Créditos: Anadolu e Facebook
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UNRWA. A sigla é complicada de dizer.

A United Nations Relief and Works Agency -- a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente -- foi criada em 1949 pela Assembleia Geral das Nações para dar assistência a cerca de 750 mil pessoas que se tornaram refugiadas depois do estabelecimento do estado de Israel.

Trata-se da primeira Nakba (Catástrofe), em que centenas de vilarejos palestinos foram destruídos e milhares de homens, mulheres e crianças tiveram de deixar às pressas território posteriormente ocupado por Israel.

À época, várias milícias israelenses afugentaram os palestinos, inclusive com ataques terroristas e um dos primeiros usos de um carro bomba de que se tem registro.

Desde então, a UNRWA atende a palestinos em Gaza, na Cisjordânia, na Síria, na Jordânia e no Líbano.

FUTURA EXPULSÃO

Desde os ataques do Hamas contra Israel em 7 de Outubro e a subsequente retaliação de Israel, o governo de Benjamin Netanyahu vem trocando farpas com as Nações Unidas e suas agências, como a Organização Mundial de Saúde e a UNRWA, por exemplo.

Num texto publicado quinta-feira nas redes sociais, o comissário-geral da UNRWA, Philippe Lazzarini, reproduziu uma carta que enviou ao presidente da Assembleia Geral da ONU, Dennis Francis:

Em pouco mais de quatro meses em Gaza, houve mais crianças, mais jornalistas, mais pessoal médico e muito mais pessoal da ONU morto do que em qualquer lugar do mundo durante um conflito. É com profundo pesar que devo agora informar que a UNRWA atingiu um ponto de ruptura, com os repetidos apelos de Israel para o seu desmantelamento e o congelamento do financiamento por parte dos doadores num momento de necessidades humanitárias sem precedentes em Gaza.

Pelo levantamento da própria agência, 150 sedes da UNRWA em Gaza foram bombardeadas, resultando na morte de cerca de 390 funcionários e ferimentos em outros 1.300.

O financiamento da entidade foi congelado por vários países doadores depois que Israel funcionários da entidade de terem participado dos ataques de 7 de Outubro contra Israel.

Várias investigações estão em andamento, mas os países apoiadores de Israel não esperaram nem o resultado para congelar preventivamente o dinheiro, ajudando a UNRWA a chegar ao "ponto de ruptura".

Dentre os países que suspenderam o repasse de verbas estão a Austrália, Áustria, Canadá, Estônia, Finlândia, Alemanha, Islândia, Itália, Japão, Letônia, Lituânia, Holanda, Nova Zelândia, Romênia, Suécia, Suíca, Reino Unido e Estados Unidos.

Somados, Estados Unidos e Alemanha contribuem com mais da metade do orçamento anual da agência, de U$ 1 bilhão.

Ao anunciar seu plano para o futuro de Gaza, na quinta-feira, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, disse que a UNRWA será expulsa do território palestino.

Isso dará a Israel o controle total da ajuda humanitária a mais de 2 milhões de pessoas, um instrumento adicional na mão do poder colonial.

A VERDADEIRA RAZÃO

A UNRWA tem um aparato gigante. Segundo seu próprio balanço, só o sistema educacional atende a 543 mil estudantes palestinos em todo o Oriente Médio, com 19.877 professores e funcionários do setor, sendo 9.433 em Gaza -- quando as escolas ainda funcionavam.

Pelo plano Bibi, Israel vai promover o que chamou de programas de "desradicalização" dos palestinos de Gaza. Detalhes não foram revelados, mas a chance é grande de que os currículos estudantis sejam alterados.

Ao longo dos últimos 141 dias, Tel Aviv bombardeou várias universidades e chegou a demolir um prédio de uma delas com uma implosão.

Ao todo, a UNWRA, maior agência da ONU, tem cerca de 30 mil funcionários.

É um dos grandes empregadores e promotores do desenvolvimento da sociedade palestina, ainda que fragmentada e no exílio.

Além de assumir para si o controle da Educação dos moradores de Gaza, Israel tem um motivo muito especial para se livrar da UNRWA.

É a agência que faz o registro formal dos refugiados.

Pela estatística mais recente, a UNRWA tinha registrado 5,9 milhões de palestinos e seus descendentes como refugiados. Crianças legalmente adotadas também entram no registro e tem direito à assistência.

O registro formal na UNRWA é essencial para uma questão-chave na disputa entre Israel e os palestinos: o direito de retorno.

O direito internacional consagra o direito de retorno aos palestinos expulsos de suas casas e terras. Só poderiam gozar deste direito os que foram devidamente registrados pela UNRWA.

Desde 1948, Israel tem adotado uma postura de fazer valer os fatos em solo, independentemente de condenação internacional.

Foi assim, por exemplo, que aos poucos foi instalando mais de 700 mil colonos em assentamentos ilegais, mudando o equilíbrio demográfico de várias regiões, especialmente de Jerusalém Oriental, reconhecida como capital de um futuro estado palestino.

Ao demolir a UNRWA, Israel dá um passo essencial, de seu ponto-de-vista, para "matar" o direito de retorno em Gaza, uma vez que as populações deslocadas deixarão de contar com o registro burocrático dos movimentos que fizerem dentro ou fora do território.

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