E A PETROBRAS PAGA DIVIDENDOS...

BRICs transferem o equivalente a R$ 3,4 tri por ano para países ricos

Estudo demonstra o tamanho do aspirador do mercado financeiro

Dinheiroduto.Direto do seu bolso para os bilionários que controlam o mercado financeiro em Wall Street e na City de Londres.Créditos: Reprodução
Escrito en GLOBAL el

Ao exportar produtos de baixo valor agregado e importar alta tecnologia, os países em desenvolvimento transferem anualmente uma imensa quantidade de recursos para países ricos.

Um estudo recém-publicado diz que os quatro-quintos mais pobres do planeta financiam o quinto mais rico com U$ 660 bilhões anuais.

O controle sobre o mercado financeiro e o fato de que emite a moeda de referência dá aos Estados Unidos um papel privilegiado, seguido pela União Europeia.

De acordo com os pesquisadores Gastón Nievas e Alice Sodano, da Escola de Economia de Paris, as nações em desenvolvimento representadas pelos BRICs abrem mão de 2 a 3% de seu PIB nestas transferências, dinheiro que poderia ser melhor aproveitado com investimentos em casa.

A HIPOCRISIA DO "LIVRE MERCADO"

O renomado economista Thomas Piketty, que além de professor é co-diretor do Laboratório Mundial da Desigualdade, saudou o estudo:

Resumindo: os países ricos fingem ser a favor de mercados justos e abertos, do desenvolvimento para todos, etc. mas, na prática, a forma como os mercados financeiros são organizados e regulamentados leva a uma enorme transferência de rendimentos do Sul global para o Norte global, ano após ano e aumentando ao longo do tempo.

Piketty expôs os gráficos que acompanham o estudo, um deles demonstrando os ganhos dos EUA, União Européia e Japão e as perdas da China, Rússia e dos BRICs em relação ao PIB, com o passar das décadas.

Os ricos cada vez mais ricos...

O estudo mereceu um editorial do diário britânico Guardian, que expressou sua opinião sobre o descontentamento da globalização: "não é certo que os países pobres financiem os ricos".

A texto diz, sobre o Brasil e o presidente Lula:

No ano passado, em Xangai, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, questionou o domínio do dólar. Parte desse desconforto é geopolítico. O governo dos EUA transformou o dólar em arma para sancionar inimigos como o Irã, Cuba e o Afeganistão. O Capitólio votou pela apreensão de ativos congelados do Banco Central russo que se encontram em bancos dos EUA para reconstruir a Ucrânia. Desconfiadas do poder ocidental, muitas nações procuram alternativas.

A décima quinta cúpula dos BRICs acontece este ano em Kazan, na Rússia, de 22 a 24 de outubro.

O grupo passou por uma expansão recente que incluiu o Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos.

Convidada pelo Brasil, a Argentina desistiu.

Porém, há mais de quarenta países candidatos a aderir aos BRICs na próxima cúpula, dentre os quais Argélia, Bangladesh, Bahrein, Bielorrússia, Bolívia, Cuba, Indonésia, Casaquistão, Nigéria, Senegal, Tailândia, Venezuela e Vietnã.

O editorial do Guardian faz uma segunda menção ao Brasil:

Michael Pettis, da Universidade de Pequim, diz que a questão que o Brasil deveria se perguntar é em que ativos deveria investir os rendimentos das suas exportações. Qualquer Nação que tente substituir o dólar enfrenta ajustamentos perturbadores. Seria melhor, certamente, evitar o endividamento perpétuo em moedas estrangeiras, por exemplo, construindo a capacidade da Nação para satisfazer as suas necessidades, em vez de se tornar dependente de importações de elevado valor.

BNDES E PETROBRAS

Hoje o BNDES divulgou um balanço dos investimentos em projetos do governo Lula para reindustrializar o país. Mas, ao mesmo tempo, uma assembleia geral da Petrobras decidiu pagar R$ 21,95 bilhões aos acionistas.

Investidores não brasileiros controlam hoje 46,84% do capital da Petrobras. O pagamento de dividendos a estes acionistas é um dos caminhos pelos quais o Brasil enriquece países ricos.

Em março de 2024 o Brasil tinha U$ 355 bilhões em reservas internacionais.

80% são em dólar, seguidos pelo yuan e o euro. Apenas 2% são em ouro.

Manter reservas em títulos do Tesouro americano dão segurança ao país, mas tem um custo anual elevado.

De acordo com o site russo Sputnik, entre 2014 e 2024 a China reduziu suas posições em dólar, ou seja, em títulos do Tesouro americano, de mais de U$ 1,3 tri para U$ 775 bilhões.

Passou a comprar ouro.

De acordo com o Conselho Mundial do Ouro, a Rússia tem as maiores reservas de ouro do mundo, com 2.332 toneladas, seguida pela China com 2.235 toneladas e a Suiça, com 1.040 toneladas.

Por conta de sanções, desde 2022 o comércio entre a China e a Rússia aumentou 26% e atingiu U$ 240 bi, 95% dispensando o dólar.

Rússia e Venezuela estudam fazer transações digitais que escapariam ao controle dos EUA, que impõem sanções a ambos.

O comércio entre o Irã, outro país sob sanção, e Moscou bateu recorde e as negociações incluem o financiamento de uma ferrovia que garantirá acesso da Rússia ao Golfo Pérsico.

As exportações de petróleo do Irã para a China cresceram 50% nos últimos meses, para 1,3 milhão de barris por dia.

Por conta das sanções, todos estes países tem um incentivo para negociar entre si -- e não em dólares.

Conforme assinalou o Guardian no editorial, o atual sistema financeiro também não serve aos eleitores dos países ricos, embora beneficie os bilionários:

Ao incentivar os fluxos de entrada [de dinheiro de fora, comprando a segurança dos papéis do Tesouro, mesmo com juros baixos], o setor financeiro dos EUA obtém a influência necessária para distorcer as prioridades governamentais. O incentivo à compra de ativos dos EUA, por exemplo, faz com que o déficit da balança comercial dos EUA aumente, através da redução do rendimento proveniente de uma base industrial menor e de gastos mais elevados em importações. Os países ricos com um grande excedente comercial, como a Alemanha, respondem restringindo a procura interna – e baixando os salários – para permanecerem competitivos. Isto, como admitiu este mês o antigo presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, tem sido uma estratégia autodestrutiva.