Os candidatos presidenciais nas eleições gerais do Chile, que acontecem no domingo (16), entram na reta final com uma disputa entre os quatro representantes da direita/extrema direita por um lugar no segundo turno contra a ex-ministra do Trabalho do atual mandatário Gabriel Boric, Jeannette Jara.
A candidata do Partido Comunista, integrante da coalizão Unidade pelo Chile, lidera as pesquisas com índices que variam entre 26% e 30%, e é seguida pelo ultradireitista José Antonio Kast, que tem entre 20% e 25% de intenções de voto. Contudo, em 24 de outubro, foi divulgada a primeira pesquisa mostrando o deputado autodenominado libertário Johannes Kaiser em terceiro lugar pela primeira vez, ultrapassando a ex-prefeita de Santiago Evelyn Matthei e diminuindo a diferença para Kast.
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O ascendente Kaiser mimetiza o presidente argentino, Javier Milei, e adota muito do seu conteúdo e também do seu lado performático. Teve uma trajetória como youtuber e se posiciona contra o direito à eutanásia e ao aborto. "Não vou entrar no Chile como Herodes, sendo um presidente que apoia uma lei sobre o aborto livre", disse, no último debate realizado antes da eleição.
Apelo à violência e discurso anti-imigrante
Mas é na questão da segurança pública que os candidatos extremistas buscam ganhar fôlego nestes dias que antecedem o pleito. E apelam para uma associação já feita por figuras políticas da direita na Europa e nos Estados Unidos, relacionando, sem dados, imigrantes à criminalidade.
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Aproximadamente 337 mil estrangeiros sem documentação vivem no Chile, a maioria venezuelanos, segundo registros oficiais. Embora siga como um dos países mais seguros da América Latina, o número de homicídios triplicou na última década, com elevação de outros tipos de delitos como roubos com violência e sequestros. E o impacto na opinião pública foi grande.
Kast, advogado e admirador confesso do ditador falecido Augusto Pinochet, propõe um plano de expulsão de imigrantes irregulares caso seja eleito, tornando esta sua principal bandeira e colocando de lado a rejeição ao aborto e ao casamento homoafetivo, temas centrais de suas duas campanhas anteriores, como aponta matéria do SwissInfo.
Sua proposta inclui erguer um muro nas fronteiras, abrir uma vala e mobilizar 3 mil militares para conter a entrada de imigrantes, além da receita padrão (e geralmente ineficaz) de políticos de direita: penas mais severas.
Já Kaiser quer enviar “estrangeiros ilegais que estão no Chile com antecedentes criminais” para a megaprisão construída em El Salvador pelo presidente Nayib Bukele, que se tornou ícone de extremistas no continente.
Clima ruim na direita
Agora em quarto lugar nas pesquisas, mas ainda no páreo, já que tem índices na casa dos dois dígitos, Evelyn Matthei até junho disputava com Kast uma vaga no segundo turno, mas desde então sua candidatura estagnou. O diagnóstico dos dirigentes próximos a ela é que isso seria fruto de uma "campanha repugnante" movida pelo Partido Republicano de José Antonio Kast.
Partidários de Matthei acusam o rival de supostamente realizar manobras de comunicação para desacreditá-la difundindo fake news para questionar sua sanidade mental e travar o que dizem ser uma "guerra suja" nas redes sociais.
Política convencional e uma espécie de herdeira do legado do ex-presidente Sebastián Piñera, único direitista a governar o país desde a redemocratização, ela tem moderado o discurso em relação a seus concorrentes e acena para aqueles que ciaram descontentes com a vitória de Jara para ser a representante da esquerda (seu nome foi escolhido por meio de prévias). Nesta reta final, conseguiu o endosso de 102 ex-autoridades e figuras do centro-esquerda que apoiaram publicamente sua candidatura, argumentando que seu voto é "acima de tudo, pela moderação, boa governança e reconciliação".
O cenário para Jeannette Jara
Ainda que lidere as pesquisas e tenha um lugar praticamente certo no segundo turno, principalmente por conta da divisão no campo da extrema-direita/direita, Jeannette Jara terá dificuldades em um eventual segundo turno, de acordo com a projeção de votos de seus três principais rivais.
Como destaca matéria do El País, nas eleições locais de outubro de 2024, as primeiras realizadas com voto obrigatório para cargos eletivos, os oposicionistas aumentaram o número de prefeituras de 87, em 2021, para 122, e a coalizão governista caiu de 150 para 111, com candidatos independentes sendo eleitos em 103 municípios. Os resultados mostram que o Chile moveu seu pêndulo para a direita.
No último debate, ela foi alvo dos dois ultradireitistas. "Não vim aqui para brigar com os candidatos de direita, que já têm problemas suficientes entre si; vim para fazer propostas", disse ela na ocasião. A advogada reiterou que "suspenderá ou cancelará" sua filiação ao Partido Comunista caso seja eleita, para sinalizar que representa uma coalizão mais ampla. Também é uma tentativa de se distanciar do governo de Boric, que tem baixos níveis de popularidade.
Além das eleições presidenciais, os chilenos irão escolher os novos deputados, além de renovar metade do Senado.